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O cancro é lixado

Estou há meia hora a escrever e reescrever esta crónica e ela não sai. Hoje é o Dia Mundial de Luta Contra o Cancro e irrita-me esta leveza que o diagnóstico de cancro parece trazer consigo ultimamente. Irrita-me que se façam brindes. Acho bem que quem tem cancro o assuma publicamente e quem tem voz que chame atenção para a doença, acho bem. Mas gostava que o fizesse para chamar a atenção para a lentidão com que os tratamentos inovadores chegam ao Serviço Nacional de Saúde, para a falta de recursos dos hospitais e das investigações, para a pobreza a que os doentes de cancro ficam expostos – sabia que o desemprego entre os sobreviventes cancro muito superior à média nacional?

Coisas que sei sobre o cancro? Que quando o diagnóstico é feito passa a haver uma nuvem negra sobre a sua casa. Que quando se perde um familiar para o cancro se assiste a um processo de autofagia do corpo – o corpo está a comer a pessoa que costumava ter lá dentro. Que se sente alívio quando a pessoa morre e que se arrepende por isso. Que passa a achar que a sua vez está cada vez mais próxima e se contam os anos que faltam para a doença a levar a si. E promete aos amigos que não vai fazer tratamentos para sofrer tanto para nada. E que um dia ouve uma conversa alheia, em que uma médica diz à paciente que não desista dos tratamentos porque morrer de cancro custa muito e faz-se luz na sua cabeça porque sabe que é verdade. E sei que quando vem a notícia da remissão de outro familiar não se acredita durante vários anos que ele está bem.

Então, a vida é mesmo uma alegria quando o diagnóstico é cancro? A jornalista Ana Pago escreveu uma reportagem belíssima sobre o cancro, recolheu o testemunho de Carla Amorim e de outras sobreviventes de cancro, textos que mostram como a vida mudou com o diagnóstico, como nunca mais foi a mesma, como a nuvem apesar de tudo continua a pairar sobre as cabeças. Sei que estes são textos para ler, porque estes permitem a quem tem cancro ou passou por ele chorar, revoltar-se, pensar “porquê a mim, porquê a mim”. O cancro é lixado e convém que se saiba.

Carla Macedo, editora executiva