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O caso de Hillary Clinton avó

Não sou particular apoiante de qualquer dos candidatos a nomeados para as presidenciais norte-americanas. Mesmo que fosse não voto e a minha opinião conta o que conta o que conta – não é muito. Mas há várias questões que esta campanha pré-eleitoral tem levantado que me parecem merecer uma nota.

O caso da Hillary Rodham Clinton avó é um deles. Não escondo que tenho uma grande admiração por mulheres como Madeleine Albright, a primeira secretária de Estado americana de sexo feminino, e a sua sucessora, Hillary Clinton. Tiveram grande impacto em mim e em outros os seus discursos e o livro de Hillary, Living History (‘A minha História’, Dom Quixote).

Sei que frequentaram ambas o Wellesley College, uma faculdade onde andam somente raparigas e com um vasto rol de alunas conhecidas e em cargos de referência na sociedade norte-americana. Com uma dessas ex-alunas do Wellesley discuti várias vezes política norte-americana quando me mudei para os Estados Unidos da América.
Claro que ouvi a história da Monica Lewinsky e a de alguns falhanços das suas ações, como casos da falta de segurança dos e-mails e o ataque à embaixada de Benghazi, enquanto Secretária de Estado.

Não sei se Hillary seria a melhor escolha para presidente dos EUA de entre os candidatos. Não sei se a América está ou não preparada para tantas vitórias sucessivas de minorias no sistema político – o primeiro presidente afro-americano seguido da primeira mulher presidente. Não sei se, com este passado conturbado, ela seria a escolha mais clara e limpa para uma nomeação.

O que eu acho extraordinário é os ataques sucessivos que têm surgido contra a possibilidade da sua nomeação que são, na minha interpretação, a revelação do bias social por ela ser mulher – a inclinação da maioria para ter uma visão parcial (negativa) pelo facto, apenas de ela ser mulher. E não só na comunicação social, mas entre colegas meus na hora de almoço:

“Estamos fartos dela porque ela já lá esteve com o marido”

“Ela agora que é avó devia dedicar-se à família. É mesmo sede de poder”

Sim, ela é mãe e avó (uma linhagem de mulheres, por acaso). Sim, foi extremamente influenciada pelo passado da sua própria mãe. Sim, ela era mãe quando proferiu o seu famoso discurso na ONU – “os direitos das mulheres são direitos humanos”. Sim, ela era primeira-dama quando se bateu pelo acesso aos cuidados de saúde primários por crianças (primeiro) e finalmente de todos os cidadãos apoiando a continuação e alargamento do programa obamacare. Sim, ela era secretária de Estado quando selou as negociações nucleares com o Irão, quando capturaram Ossama Bin Laden, que foram marcos importantes na política externa norte-americana, quer os apoiemos ou não.

Mas nunca foi Presidente. Nunca uma mulher foi presidente e francamente, poucas mulheres no panorama político norte-americano têm o historial de serviço público e de causas que ela tem. Poucos têm a experiência que ela tem, homens e mulheres. Poucos têm um currículo de acordos bi-partidários como ela tem. Por isso não vejo como é que a questão de ter sido primeira-dama, ou de ter sido recentemente avó, venham contribuir negativamente para esse papel.

Uma mulher pode ser mãe e avó e esposa e amiga e profissional e influente e política.
Nunca ouviram dizer – Barack Obama é pai de duas raparigas menores, se calhar devia dedicar-se à família. E já agora, não acho que se dedique menos à sua família por ser homem. Também não é segredo nenhum que Barack Obama também está na minha lista de ídolos.

Não, Hillary nunca esteve na Casa Branca. Não assim, não como presidente. Se querem discriminar, olhem para os dados estatísticos em que as mulheres vivem em média mais do que os homens. A preocupação quanto à longevidade do candidato só pesa a seu favor.

Votem com base nos factos e nas vossas preferências, mas não me venham com discriminações sexistas à hora de almoço… Dá-me azia.

Inês Tenente, cientista investigadora no Massachusetts General Hospital Charlestown Navy Yard, Boston, EUA