O dia em que eu traí as mulheres

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‘As Coisas que os Homem me Explicam’ é o motivo do encontro que se realiza hoje, dia 3 de junho, pela Editora Quetzal, na Feira do Livro. Mulheres como Helena Vasconcelos, Maria do Rosário Pedreira e Patrícia Müller vão discutir as ideias que percorrem todo o livro, em torno da discriminação de género.

O livro foi escrito por Rebecca Solnit, autora galardoada com o National Book Critics Circle Award, e relata e analisa as diferentes manifestações da desigualdade de género, que se materializam numa escala e numa escalada de violência contra a mulher. O tratamento condescende, o desrespeito verbal, a descredibilização, a exploração e mesmo a agressão física, o silenciamento ou morte são manifestações que tem a sua origem numa causa comum e são facetas, com maior ou menor gravidade, de um preconceito enraizado socialmente com consequências por vezes fatais.

No final da leitura, e depois de seguirmos o curso das correlações tecidas por Solnit neste conjunto de textos, a resposta à pergunta ‘o feminismo ainda faz sentido?’ parece-nos mais do que evidente. Filipa Martins, escritora que estará presente neste encontro, escreve ao Delas.pt sobre o livro e os preconceitos disfarçados de elogios:

“Ao editar o meu primeiro livro, Elogio do Passeio Público, concorri com a obra a um prémio literário sob pseudónimo e venci. A escolha do nome que me ocultou a identidade deve ter sido despreocupada e pouco indicativa de género. Já não me recordo.

Fui recebida na sede da Associação Portuguesa de Escritores de forma afável. Estava a levitar. Lembro-me de ter admirado um sofá de pele delida onde, confiei, Natália Correia terá largado baforadas depois de inspirar a partir da sua boquilha. Até que me revelaram, prazenteiros e educados, a surpresa que foi para o júri do concurso ter descoberto que, após desvendadas autorias, a obra tinha sido escrita por uma jovem mulher. ‘Escreves como um homem velho’, disseram-me em tom de louvor. Com 23 anos na altura, recebi aquelas palavras bem-intencionadas com contentamento, sem ter consciência de que o que tomava por um elogio era, na verdade, um apodo.

O livro foi editado dois anos mais tarde, bem recebido, apelidado de maduro na imprensa. Mas a autora, manifestando menos maturidade do que obra, voltou e enfiar o chapéu do ‘homem velho’, talvez pelo exotismo da imagem. Descia a pé a Rua da Trindade, acompanhada por um reputado livreiro à época, que perorava sobre o meu Elogio do Passeio Público e a frase voltou a surgir – ‘Escreves como um homem velho’ -, mas desta vez chegou acompanhada por uma curta explicação. O texto era apurado, analítico, crítico e inteligente no uso do humor, sem floreados ou dado a temperamentos de pouco freio, nada histérico ou exibicionista, portanto, concluía-se, escrevia como um homem. Por essa altura, poderia ter argumentado que, apesar do narrador ser masculino, as personagens masculinas do livro eram ridicularizadas (um homem que prefere desejar uma bebida por não ter coragem para desejar uma mulher bonita; um general que a morte evitou que fosse humilhado pela História). Não o fiz, embrulhando-me mais no redil falacioso dos géneros. ‘Escreves como um homem velho’ – uma bacoquice ao nível de ‘corres como uma miúda’ – pareceu-me comenda digna de pôr na lapela e adotei a frase em discurso direto. Ainda nesse ano, os leitores da revista LER ficaram a saber que me sentia, ao escrever, um homem velho. Só fiz as pazes com a minha consciência ao terceiro livro.


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Rebecca Solnit, no livro ‘As Coisas Que Os Homens Me Explicam’ (Quetzal, 2016, tradução de Tânia Ganho) conta um episódio cómico num texto homónimo com contornos idênticos. A rondar os quarenta anos, e mais confortável do que eu aos vinte e pouco com o seu valor enquanto autora, surpreendeu um homem que elogiava um livro que o próprio não lera, apresentando-se como autora da obra. Nas palavras de Solnit, o facto de ela ser a autora do livro muito importante que afinal ele não lera baralhou as categorias ordeiras em que o homem ordenava o seu mundinho e deixou-o sem fala. Solnit, ao contrário de mim, não encarou o episódio de forma elogiosa e resolveu torná-lo público. O texto teve uma repercussão enorme e é apontado como precursor da palavra mansplain, usada para situações em que os homens explicam às mulheres coisas que elas sabem e eles não sabem.

Contei este episódio de ‘As Coisas Que Os Homens Me Explicam’ a um amigo que atribuiu um significado diferente ao comportamento do dito homem. Na sua opinião, o exibicionismo arrogante devia-se não a uma intensão de humilhar Solnit, mas antes a uma tentativa de a impressionar da mesma forma que, no mundo das aves, os machos ostentam a plumagem para atraírem as fêmeas. Em ambas as análises, o emproado sujeito não sai bem na fotografia.

Ao contrário de Solnit, não considero que a autoconfiança dos ignorantes é apanágio de um dos sexos, mas caí na esparrela de considerar elogiosa a caracterização da minha escrita como masculina. A denúncia foi o melhor serviço que Solnit fez a ambos os sexos.
Como referi, só fiz as pazes com a minha consciência à terceira. O meu terceiro romance editado, Mustang Branco, tem como narradora uma mulher jovem que fala na primeira pessoa. Quis combater um preconceito que eu própria tinha de que escrever no feminino é obrigatoriamente escrever a partir de alcofas, tules e ornamentos. Quis expulsar o ‘homem velho’ de uma vez por todas. A obra foi bem recebida, mas, por ser pautada por algumas passagens onde eram narradas situações de sexo consideradas ousadas, não me livrei de perguntas sobre se haveria uma inspiração autobiográfica na obra.

Nunca li uma entrevista a um autor homem em que tivessem tido a imprudência de lhe perguntar se alguma das passagens íntimas das personagens descritas se baseavam numa experiência pessoal, mas quero acreditar que também aqui não estamos perante uma questão de género. Quanto a mim, quando me perguntam se me inspiro na minha própria vida sexual para escrever cenas íntimas, respondo sempre que sim, da mesma forma que me inspirei na minha biografia quando matei um homem no meu primeiro romance editado.

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