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Isto não é autoajuda

Ella Berthoud e Susan Elderkin lançaram, em 2013, o The Novel Cure: An A-Z of Literary Remedies (O Romance Cura: Remédio Literários de A a Z) – uma espécie de guia ao estilo de dicionário médico que receita leituras para curar diversos males. Inclui autores portugueses como José Cardoso Pires, Agustina Bessa-Luís, José Saramago ou Eça de Queirós.

As duas biblioterapeutas, a praticar na londrina The School of Life, projeto do filósofo Alain de Botton, conheceram-se em Cambridge e tinham como hábito ‘prescrever’ romances, mutuamente, sempre que passavam por períodos conturbados. Berthoud e Elderkin, duas referências no universo da biblioterapia, fizeram um rastreio das aplicações desta forma de cura através da literatura. Chegaram à Grécia Antiga e lembraram também que depois da Primeira Grande Guerra eram sugeridas referências bibliográficas, por bibliotecários, nos EUA e no Reino Unido, a ex combatentes de Guerra. Recentemente, a biblioterapia tem sido usada, sublinham, por psicólogos, assistentes sociais, entre outros profissionais, como ferramenta de trabalho.

Também Keith Oatley, romancista e professor de Psicologia Cognitiva na Universidade de Toronto, assegura que a arte literária pode ser um agente de mudança. Dirige um grupo de pesquisa da psicologia da ficção e o resultado dos estudos que têm sido levados a cabo indicam que, por meio da identificação com as personagens, os leitores podem melhorar as suas habilidades sociais e emocionais. Segundo o autor, a ficção permite-nos simular interações e pensar em futuros possíveis.

A corroborar esta ideia, o estudo publicado em 2011 na Annual Review of Psychology, baseado na análise de fMRI (Imagem por Ressonância Magnética Funcional) do cérebro dos participantes, mostra que quando os leitores leem sobre uma determinada experiência é estimulada a mesma região do cérebro que seria estimulada quando a experiência é vivenciada. Em Such Stuff as Dreams: The Psychology of Fiction (2011), Keith Oatley explica um pouco mais sobre a psicologia da ficção, e sobre como a identificação com personagens fictícias pode alterar o comportamento social, ter impacto emocional e promover mudanças na nossa conduta.

Petra Alves