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O segundo torturador de Dilma é superior a tudo

Há duas coisas que te podem fazer evocar o nome de um torturador: a certeza de que nunca te acontecerá algo de semelhante e a maldade. Esta incapacidade de nos pormos nos sapatos dos outros, no lugar dos outros, por uma vez que seja, resulta numa profunda falta de respeito por todos os que são diferentes de nós. Mas talvez sejam precisas as duas juntas, talvez a maldade seja necessária em maior dose para usar uma arma como esta: uma memória com uma capacidade incrível de causar dor.

Um deputado federal brasileiro relembrou à ainda presidente do Brasil que ela foi torturada. Jair Bolsonaro votou a favor do avanço do processo de destituição de Dilma Roussef referindo o nome todo, inteiro, de um dos maiores torturadores do Brasil nos anos da Ditadura Militar (1964-1985):

“pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Roussef (…) o meu voto é sim.”

Jair Bolsonaro podia ter usado todas as baboseiras que quisesse para justificar o voto que apoia a impugnação. Há quem tenha usado os filhos, há quem tenha usado os pais, houve até quem tenha referido a idoneidade do marido para fundamentar o voto. E o marido acaba de ser preso por suspeita de corrupção. Lá está, baboseiras.

Mas Bolsonaro escolheu um momento da vida de Roussef, em que ela estaria particularmente exposta, frágil, humilhada, dependente de outro para sobreviver. Não sabemos o que aconteceu a Dilma, apenas supomos.

Também não sabemos o que aconteceu a Bete Mendes. A atriz brasileira preferiu não falar da tortura ao Folha de São Paulo. O site do diário brasileiro publicou em 2013 um testemunho da atriz em que ela privilegia a superação da dor e da vida como maior vitória:

“A gente é tão humilhado, seviciado, vilipendiado que o que se quer é sobreviver e bem. Estou muito feliz, sobrevivi e bem.”

O detalhe de ouvir mal como consequência da tortura fica para o fim e com essa constatação vêm as lágrimas.

A declaração de Amélia Almeida Teles dói mais. Explica a resistente à ditadura, num vídeo do Vimeo publicado há 3 anos, o que lhe aconteceu quando foi torturada pela equipa de Ustra:

“Toda a tortura é nua. Ali, fiquei sentada na cadeira de dragão e ali, amarrada, molhada, amarrada com fios descarnados fiquei levando choque no corpo inteiro, na boca, nos ouvidos, nos seios, umbigo, vagina, ânus.”

A descrição condiz com as torturas descritas por opositoras de regimes ditatoriais por todo o mundo, de todos os quadrantes políticos. Lemos estas histórias em Espanha, na URSS, ouvimo-las cá. Ouvi algumas piores da boca de uma argentina em que a tortura incluía violação. Claro, a violação como arma de guerra contra as mulheres, sempre. É duro? A descrição de Amélia Almeida Teles fica pior:

“A primeira vez que eu vi os meus filhos lá [na cadeia] foi na sala de tortura. A Janaina tinha 5 anos e o Edson tinha 4 anos. Eu estava amarrada, machucada e não podia abraçá-los. Isso eu não vou esquecer.”

Agora expliquem-me porque é que alguém pode recuperar o passado com o único intuito de ferir. Mais nada. E como é que se dispõe a maltratar outra vez não só Dilma Roussef como todas as mulheres que no Brasil passaram pela tortura porque eram contra uma ditadura. Acaso devemos voltar a ver estas mulheres como odiosas, como vergonhosas, porque se mantiveram fiéis ao que acreditavam e por isso foram vítimas de tortura? Foram vítimas. Foram vítimas.

Como é que alguém pode pensar que essa evocação lhe pode dar superioridade política, ainda por cima na casa da democracia?

É sim, superior na desfaçatez. É sim, superior na maldade. E superior na exposição do caráter deste processo de impeachement. Parece que há gente que quer à viva força ser superior aos outros.

Carla Macedo, editora executiva