Há mais mulheres obesas do que homens em Portugal pela primeira vez

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Em 2014, Portugal tinha 16,6% de adultos obesos – valor acima dos 15,9% da média da União Europeia – e a tendência para um aumento do excesso de peso com a idade e a diminuição da escolaridade.

Os dados, divulgados esta quinta-feira (20 de outubro), são do Eurostat e mostram, na divisão por género, que, no país, há mais obesidade entre as mulheres (17,8%) do que entre os homens (15,3%). Também aqui se reflete uma divergência em relação à média europeia, em que a percentagem de homens obesos é superior à das mulheres, 16,1% contra 15,7%, respetivamente.

Quando comparados com dois estudos anteriores sobre a obesidade em Portugal, os resultados do gabinete de estatísticas europeu, mostram uma alteração da prevalência da doença por sexos, como explica ao Delas, a presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO) e professora auxiliar da Faculdade de Medicina do Porto, Paula Freitas.

“No estudo de 2005, da Professora Isabel do Carmo, tínhamos uma prevalência nos homens superior à das mulheres, de 15% de obesidade nos homens e 13,14% nas mulheres, para um total 14,2% ao nível da população geral. No estudo de 2012, do Professor Luís Sardinha, sobre obesidade e diabetes, os dados indicam que, entre os 18 e os 64 anos, no total da população, a prevalência da obesidade é de 19,9% para os homens e 19,8% para as mulheres. Quase igual”, refere.

Estes valores são médias, que depois variam consoante o grupo etário, porque a obesidade vai aumentando à medida que aumenta a idade, como mostram os vários estudos.

Segundo o Eurostat, em 2014 a maior taxa de obesidade, em Portugal, verificava-se nas pessoas com idades entre os 65 e os 74 anos (22,1%), seguindo-se o grupo entre os 45 e os 64 anos (21,9%) e o das pessoas com mais de 75 anos (16,7%). Na população dos idosos, ou seja a partir dos 65 anos, o estudo de 2012, citado por Paula Freitas, apresenta uma prevalência de “16,8% para os homens e nas mulheres mais elevada, de 21,8%”.

“De um modo geral, no estudo da Professora Isabel do Carmo via-se um maior taxa de prevalência nos homens do que nas mulheres. No estudo de 2012, do Professor Luís Sardinha, está quase igual, e estes dados agora do Eurostat apontam para um aumento nas mulheres”, assinala a presidente da SPEO.

Causas ainda estão por validar, mas há várias hipóteses

Se os estudos permitem perceber que houve uma mudança da obesidade em Portugal, nos últimos dez anos, com as mulheres a ultrapassarem os homens em número de casos, mais difícil é atribuir causas que expliquem essa alteração.

“Não temos nada que nos diga o porquê. A obesidade é uma doença muito complexa”, afirma ao Delas Nuno Borges, nutricionista e elemento da direção da Associação Portuguesa dos Nutricionistas (APN).

Paula Freitas concorda e acrescenta que, a nível individual, a obesidade – que corresponde a um índice de massa corporal superior a 30 – “tem a ver com um desequilíbrio entre o que é o aporte de energia e aquilo que é o dispêndio de energia. Depois, por baixo de isso tudo, existem muitos fatores”.

A genética e o ambiente são os principais e podem estar relacionados com uma série de condicionantes, desde a microflora intestinal, ao sedentarismo, passando pelo padrão de comportamento alimentar.

“Toda a nossa vida hoje é feita no sentido do desequilíbrio. As nossas ocupações quer no trabalho, quer no lazer são atividades sedentárias. Por outro lado, temos uma grande disponibilidade de energia”, refere Paula Freitas referindo-se aos produtos alimentares que atualmente estão ao alcance da população e que são muito ricos em calorias.

E se os fatores assinalados valem tanto para homens como mulheres, quando se fala de obesidade, também é verdade que “em média, para a mesma idade, peso e altura, as mulheres gastam sempre menos energia que os homens”, como sublinha o nutricionista.

Há outro aspeto associado à obesidade que tem maior impacto nas mulheres do que nos homens e que está ligado à psicologia e ao comportamento alimentar. “Na verdade, se formos ver, as mulheres são aquelas que têm mais alterações de obesidade reativa secundária, por exemplo, a distúrbios emocionais. As mulheres comem muitas vezes de uma forma reativa aos acontecimentos adversos do dia-a-dia”, explica Paula Freitas.

Com base nesse aspeto, a presidente da SPEO levanta uma hipótese que poderá contribuir para explicar a alteração do padrão por género, verificada nos últimos 10 anos, em Portugal, e que faz com que hoje sejam as mulheres a ter mais obesidade que os homens: o desemprego.

“Nós sabemos que maior obesidade está associada a menor índice socioeconómico e à pobreza. Será que, nesta crise dos últimos anos, o facto de as mulheres serem as mais atingidas pelo desemprego que os homens, teve impacto neste aumento da obesidade?”, questiona Paula Freitas.

A especialista explica que, por um lado, o desemprego faz com que as pessoas reduzam a atividade física, entrem em depressão, comendo reativamente e consumam produtos de alto teor energético. Se se juntar o facto de as mulheres terem mais dificuldade em gastar a energia consumida que os homens, isso pode explicar, em parte, a atual prevalência da obesidade nas mulheres, face aos homens.

Nada disto está ainda estudado e validado cientificamente, lembra a presidente, que, para já, fala dessas variáveis apenas como possibilidades de explicação. Mas Paula Freitas acredita que dentro de uns anos se vai analisar o impacto que a atual crise teve na saúde da população.

Tratamento e prevenção
Na obesidade, a diferença entre homens e mulheres não se fica apenas por questões biológicas e hormonais ou do comportamento alimentar. A doença não é encarada da mesma maneira e as mulheres são quem mais procura formas de tratamento para combater a doença, mesmo quando esta era superior nos homens.

“Mesmo sendo a obesidade uma doença e uma doença crónica – não é um problema estético –, são as mulheres que mais procuram tratamento, muito mais do que os homens”, afirma Paula Freitas, falando numa representatividade de 70% do sexo feminino.

Apesar disso, como em todo o resto, o ideal é prevenir. E no caso da obesidade a palavra é mais do que um cliché, porque “é muito difícil de tratar”, diz Nuno Borges.

O nutricionista deixa alguns conselhos que não são propriamente novos, mas que não é demais lembrar. “Manter um bom nível de atividade física e evitar o sobreconsumo de alimentos que têm muitas calorias” é uma das recomendações de Nuno Borges, que aconselha a riscar da lista produtos como refrigerantes e bebidas açucaradas no geral, incluindo sumos naturais, bolos, batatas fritas, snacks, barras energéticas ou salgados. “Dão energia, mas pouco ou nada mais dão”, sublinha.

Em contrapartida há alimentos que além do teor energético e gorduras são também ricos em minerais, fibras e vitaminas, como os alimentos hortícolas (nabos, nabiças, beringelas ou pepinos) e as leguminosas (feijão, lentilha, ervilha, a fava ou grão), que, segundo Nuno Borges, “estamos a consumir cerca de oito vezes menos do que devíamos consumir”. Para beber, o melhor mesmo é optar pela água.

Caso seja difícil acompanhar esta lista, a roda dos alimentos e a dieta mediterrânica funcionam como bons orientadores para manter uma alimentação saudável e equilibrada.

Não acreditar em tudo o que se lê, nem ir atrás de todas as dietas que aparecem na internet, privilegiando as recomendações de “entidades oficiais, como a Direção-Geral de Saúde, e opiniões de profissionais qualificados e autorizados” são outros dos conselhos deixados pelo nutricionista.


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