Oniomania: quando se vive em função das compras

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Sempre que chegava o outono – ou qualquer qualquer outra estação do ano – e as montras exibiam os mais recentes modelos, Carla Martins, então com 20 anos, munia-se do cartão de crédito e todos os dias comprava algo para eventualmente usar num jantar no fim de semana ou exibir no local de trabalho. Apesar de ter entrado numa das melhores universidades do país, trocou o curso de comunicação Social – que abandonou no primeiro ano – para ganhar o seu próprio salário no departamento de marketing de uma instituição bancária. “Nunca até aí soube o que era ter dinheiro na carteira”, recorda. “Fiquei deslumbrada”.

Continuou a viver em casa dos pais, comprou um carro novo, mas económico, que podia pagar, e a vida corria tão bem que mal podia acreditar. Fez uma operação a laser e corrigiu a miopia grave de que sofria desde criança e a fez penar durante o secundário – era apelidada de “óculos de garrafa”, apesar dos belos e enormes olhos azuis, que mal se percebiam por debaixo daquelas lentes grossas. Pela primeira vez na vida sentiu-se atraente e realizada.

“Até que passado um ano tudo se descontrolou”, conta. “Diariamente arranjava um pretexto para comprar um perfume ou uma peça de roupa à hora de almoço – assim também evitava comer porque era obcecada por dietas”. Saía muitas vezes à noite já que o ambiente em casa dos pais era irrespirável – estavam ambos doentes, ela com cancro e ele em luta contra o consumo excessivo de álcool. A relação familiar nunca tinha sido das mais calorosas, além de que o irmão mais novo era um adolescente problemático e não raro a violência doméstica fazia parte do serão. Carla era uma jovem insegura, perturbada sem sequer o saber, que só procurava fugir de um quotidiano que nunca tinha pedido.

Resultado: aos 25, apesar de aos olhos dos outros parecer uma mulher de sucesso, linda e segura, estava afundada em dívidas e vivia em ansiedade permanente.

“O pior castigo é que tive que ficar a viver em casa da família até aos 29 para conseguir estabilizar a minha situação financeira. Não podia arcar com as despesas de um apartamento”. Funcionou como uma espécie de terapia de choque: trocou as noitadas pelo ginásio fora de horas (para chegar a casa bem tarde), muito mais económico, e cancelou os cartões de crédito. Os luxos passaram por lanches com novos amigos ao fim de semana, mais preocupados com o seu bem-estar do que com o estilo de vida, e uma ou outra ida ao cinema. A roupa que tinha no armário, essa, daria para as próximas décadas.

Pagas as dívidas, nunca mais se excedeu e hoje, aos 46, controla ao milímetro tudo o que gasta no dia-a-dia – apesar de se manter impecavelmente cuidada. “Nunca mais me vou sentir aprisionada como então”, diz. “Principalmente porque ganhei autoestima desde que conheci o meu marido – aquela que não pode ser comprada com um bom batôn – e aprendi a afastar-me de problemas que não são meus e que não me cabe a mim resolver”.

A história de Carla Martins é mais comum do que pensamos e nem sequer é das mais dramáticas. Há quem precise de aconselhamento psiquiátrico a vida inteira e quem pague pelos gastos excessivos com processos judiciais. Pessoas inteligentes, honestas, boas profissionais, excelentes mães de família. Mulheres – sobretudo mulheres – que sofrem de uma doença de que poucos falam: a oniomania.

Miguel Gonçalves psicólogo e coach explica-nos um pouco mais sobre o fenómeno que é sempre identificativo “de um transtorno e sofrimento emocional difuso com o qual uma pessoa não consegue lidar sozinha e afeta sobretudo o sexo feminino”:

Por que compramos tantas vezes algo quem nem precisamos, nunca iremos usar e irá ficar para sempre numa prateleira?

Comprar algo faz-nos ter uma sensação de ganho, incremento de valor, de riqueza, de posse ou mesmo de segurança. E como tal, é algo que dá prazer e que até pode reduzir bastante a ansiedade. Como se tivéssemos a missão do dia cumprida.

Quando estas compras são feitas de forma ponderada e controlada, estamos a falar de algo até bastante positivo e salutar. Afinal, trata-se de um investimento pessoal. Estamos a cuidar-nos e a valorizar-nos. E investir na autoimagem é favorável à autoestima. Só que todo este processo de reforço positivo e gratificação pode gerar vontade de repetir o comportamento vezes sem fim.

Trata-se então de uma atitude saudável?

Depende. Se o prazer que advém das compras servir para compensar uma sensação, emoção ou sentimento negativo como tristeza, raiva, medo; ou sentimentos como culpa ou solidão, pode tornar-se até patológico e prejudicial. Aliás, conduz a um comportamento mais doentio, denominado de oniomania. Na nossa vida há uma regra básica: tudo aquilo que é a menos ou a mais faz mal.

Como se faz a distinção entre o prazer saudável de comprar e a oniomania?

Quando as compras são feitas de forma descontrolada, ou seja, quando causam danos na vida das pessoas, quer por criarem problemas financeiros, quer por criarem problemas relacionais e familiares que advêm desse descontrolo financeiro já não fazem parte de um comportamento saudável. Ou quando servem para ter um pico de adrenalina, ou são feitas de forma impulsiva e não de uma forma ponderada. Resultado: a pessoa que compra compulsivamente fá-lo com o intuito de se sentir bem mas, a maior parte das vezes, sente exatamente o inverso.

Porque é mais frequente nas mulheres?

Os homens não aderem tanto a este comportamento, ou escape, porque é algo que não é visto como normal pelos seus pares. No entanto, também têm os seus comportamentos de dependência noutras áreas, como o alcoolismo ou o vício do jogo, que são provocados e motivados por exatamente os mesmos fatores que fazem com que algumas mulheres comprem descontroladamente. E têm os mesmos efeitos nefastos.

Quais são as características principais de uma compradora compulsiva?

As mulheres com esta compulsão muitas vezes têm prateleiras de roupas e pertences ainda com as etiquetas e sem nunca terem sido utilizadas, até porque saem de casa para comprar um ou dois itens e voltam com dezenas. Por outro lado, sentem prazer no ato da compra e não no objeto. Aliás, em casos mais extremos, podem até não se lembrar de terem feito certas aquisições!

Quando estamos perante um caso realmente problemático?

Quando o descontrolo começa a ser reparado pelos outros (amigos e familiares) e a mulher tende a esconder as compras que faz (tal como um alcoólico esconde as suas garrafas). Outro sinal de alarme é quando estão algum tempo sem fazer compras e, se estimuladas por promoções ou saldos, sofrem de sintomas de abstinência e ansiedade.

Quando alguém identifica o problema que estratégias é que pode desenvolver ela mesma para o evitar?

Em primeiro lugar, admitir que se é uma gastadora compulsiva é ganhar metade da batalha! Depois existem uma série de estratégias como, por exemplo, fazer uma lista daquilo que realmente se necessita e não abrir exceções; evitar ir às compras em momentos de ansiedade e deixar os cartões de crédito em casa. Regra geral, se a pessoa se aguentar durante 15 a 30 minutos e não responder a esse impulso de compra, a ânsia passa e a vontade de comprar também. Outro truque: pagar dinheiro. Ver na mão o que se está a gastar ajuda a ter uma visão mais nítida da realidade.

E se não conseguir resolver o problema sozinha?

Poderá sempre recorrer a grupos de apoio relacionados com dependências, à psicoterapia, coaching, ou mesmo uma consulta integrada de psicoterapia e coaching. O aconselhamento financeiro pode também ajudar, no sentido de se criar um plano de recuperação financeira e um auto compromisso com os gastos.

Tem sobretudo que ganhar recursos para se proteger deste distúrbio e resolver as questões que lhe pesam na alma e que abrem espaço para este comportamento.

Que conselhos deixaria a uma das nossas leitoras que se reconhecesse na patologia?

Que estabeleça os seus objetivos a médio e longo prazo, os escreva num papel e os especifique ao máximo. Um elefante come-se às fatias e não de uma vez só. O mesmo se passa como os objetivos. Terão que ser transformados num processo, pelo que devem ser definidos e separados por pequenos passos.

Naturalmente não se cairá novamente no registo das compras compulsivas, porque a satisfação está já a ser alimentada pelos pequenos sucessos que se vão alcançando!

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