Os bebés sabem mesmo comer sozinhos?

Baby Led Weaning. Provavelmente já ouviu falar no conceito que está a revolucionar a alimentação infantil, ao sugerir novas orientações sobre como se podem introduzir sólidos nos bebés a partir dos 6 meses. Segundo esta nova conceção, deve deixar o seu bebé ‘conduzir’ o seu desmame e a fascinante viagem que é a introdução de alimentos. Isso mesmo, ele a conduzir, a escolher, a experimentar, a explorar, com as suas mãos, no seu tempo, em família. O conceito ganhou forma e nome pela mão da britânica Gill Rapley, que publicou ‘Os Bebés Sabem Comer Sozinhos’, em colaboração com a jornalista e escritora Tracey Murkett. O livro explica o Baby Led Weaning (BLW) em detalhe e ainda propõe centenas de receitas e chega agora a Portugal pela editora Matéria Prima. O Delas falou com as autoras.

Gill, como é ser autora do conceito que pode (e já está) a revolucionar a alimentação infantil em todo o mundo?
Gill – Não sei se em Portugal têm aquele conto infantil, do pequeno rapaz que avisa todos que o Imperador está nu? Eu sinto-me essa pessoa, esse rapazinho, porque para mim é algo óbvio e devia ser óbvio para todos, afinal é algo que os bebés sempre nos têm tentado dizer, e eu sou só aquela pessoa a afirmar ‘desculpem, não acham que nos está a escapar algo?’ Por isso por um lado é uma surpresa, a rapidez com que tudo está a acontecer e a crescer, mas ao mesmo tempo faz sentido, porque para mim sempre o fez. Não sinto que inventei o conceito, dei-lhe forma, um nome…

Como é que chegou ao BLW, como elaborou então a ideia?
Gill – Durante muitos anos fui assistente de saúde ao domicílio, que no Reino Unido é uma pessoa que os pais procuram ao início em vez do pediatra, e deparei-me com tantos pais cheios de dificuldade em introduzir os sólidos, tendo começado a reparar que, se os bebés eram deixados mais à vontade, tudo corria um pouco melhor. Mas na altura as indicações iam no sentido de introduzir sólidos aos 4 meses e de facto ainda era muito cedo para os deixar comer por eles. Em simultâneo, eu sabia que os bebés aos 6 meses começam a sentar-se sozinhos, a agarrar coisas, por isso quando a Organização Mundial de Saúde mudou as indicações de introdução de sólidos para ‘a partir dos 6 meses’, deu-se o clique.

E a Tracey, como se juntou?
Tracey – Eu era jornalista e tive uma filha e era uma luta a hora das refeições, cheia de chantagens, de birras e subornos. Por isso quando ouvi falar no BLW e a dar-me com pessoas que o utilizavam, percebi que tudo mudava porque as crianças gostavam da hora da refeição, tiravam prazer dela. Decidi então entrevistar a Gill e começámos trabalhar juntas, há já dez anos.

Quais são então os princípios básicos do BLW?
Gill – É sobre partilhar refeições, em vez de separar o bebé para diferentes horas ou locais, é sobre ter com eles uma refeição em família. Começar desde logo a cozinhar para todos de forma igual, obviamente usando as regras que usaria de outra forma e tentando que a comida seja saudável, mas fazendo-a logo igual para toda a família. É sobre manter tudo relaxado e sobretudo sobre confiar no bebé, confiar que ele sabe o que quer comer e em que quantidades, e deixa-lo tomar as suas decisões, alimentar-se sozinho e ficar em controlo. Ele decide a velocidade com que come, quando quer parar, trabalha-se em conjunto com o bebé em vez de se lutar contra o seu instinto natural de pegar na comida. Mantendo a segurança claro, o BLW não é mais perigoso do que outra introdução, há alimentos que os pais devem entender que são perigosos em qualquer situação, como as azeitonas, e aqui é tudo um pouco acerca do tamanho…

O livro explica o Baby Led Weaning (BLW) em detalhe e ainda propõe centenas de receitas e chega agora a Portugal pela editora Matéria Prima.

Daí a importância da ‘finger food’ (comida do tamanho/formato de um dedo)…
Gill – Sim, porque nesta idade um bebé consegue agarrar coisas com a mão mas não a consegue abrir e tirar, pelo que se for algo que saia para fora ele vai chupando ou roendo.

Tem então, na vossa perspectiva, vantagens a nível da família, do ambiente, do desenvolvimento. Mas vantagens físicas, de saúde, também há?
Gill – Sim. As primeiras investigações sugerem que pode reduzir a obesidade futura, porque o bebé não está a estimular demasiado o seu apetite, como acontece quando insistimos para que coma – estamos no fundo a contrariar o seu instinto natural de recusar e controlar o apetite; e também porque não se criam relações de chantagem ou recompensa com a comida, mas sim uma relação saudável, sem vícios. Além disso, os dentistas acham que pode ajudar no desenvolvimento do maxilar e dentes; e parece que pode haver um maior desenvolvimento na coordenação olhos/mãos.

No método ‘tradicional’, normalmente há uma introdução gradual de tipos de alimentos para reduzir os riscos de alergias, aqui isso mantém-se?
Gill – Essa indicação era mais para a introdução de sólidos aos 4 meses; aos 6 meses, a não ser que a família tenha historial de alergias, em princípio não há esse risco, mas com o BLW até há mais tendência para provar, comer pequenos pedaços, ir com calma ao longo de semanas, pelo que o risco até pode diminuir.

As dúvidas ou preocupações mais recorrentes face ao método são sobretudo relacionadas com o eventual risco de engasgamento e sobre se os sistemas digestivos estarão preparados para alimentos maiores, não passados.. Como lhes respondem?
Tracey – Com o BLW os bebés tendem a comer menos, não mais, porque passam mais tempo a explorar, a mastigar, chupar, pelo que para o sistema digestivo não há diferença. Quanto ao risco de engasgamento também não há diferenças, há que ter os cuidados que se deve ter sempre, com determinados tamanhos e formatos. Mas até há indicações de que o facto de serem os bebés a escolher o que comem, como comem, com que velocidade, com calma em vez de terem uma colher introduzida na boca ou até na garganta, pode reduzir certos riscos.

Como tem reagido a comunidade médica e científica? Há estudos a serem feitos? A Organização Mundial de Saúde já se pronunciou?
Gill – A OMS anda não, mas há inúmeros estudos a serem feitos sim, e alguns já o foram. Mas é interessante, as pessoas parecem depender um pouco da aprovação científica, o que se entende, mas a alimentação por colher nunca foi alvo de análises e estudos, simplesmente foi algo que se foi fazendo. E baseia-se em enfiar comida na boca de um bebé sem saber se ele quer ou está preparado, pelo que a lógica parece trocada…o BLW acaba por ser mais natural e é seguido há séculos por pais que o faziam instintivamente, desafiando um pouco a indústria alimentícia e o considerado ‘certo’.

Falam no tempo de família, no equilíbrio, em rotinas. Numa altura em que há tantos bebés a comer separados, e depois em crianças e adolescentes a brincarem com tablets, o BLW também pode mudar isso?
Gill – Sem dúvida, este é um ponto crucial. Ao criar estas rotinas, esta calma, este hábito da hora de refeição partilhada e agradável, o bebé habitua-se a segui-lo instintivamente. Conheço a história de uns pais com um filho que aos 9 anos ainda comia a horas diferentes deles, separado deles. Se nunca se criar essa separação, não tem de se descobrir quando parar….

O feedback positivo tem sido avassalador, mas já tiveram feedback negativo ou pessoas a dizerem que com eles não resulta? É para todos os bebés, o BLW?
Gill – O feedback negativo vem mais de avós reticentes, mas tende a passar. Quanto a pessoas a dizerem que não resulta com eles, acontece, nem todos os pais conseguem relaxar e abdicar do controlo, é um facto. E há bebés com necessidades especiais, ou muito prematuros, para os quais pode não ser aconselhado, mas de maneira geral é para todos os bebés.

Uma criança com dentição tardia, por exemplo, pode fazer o BLW?
Tracey – Claro, as gengivas são muito duras! E os primeiros dentes não mastigam propriamente muito.

Para quem está a começar, o que é normal, expectável, quanto tempo pode demorar?
Gill – Pode demorar semanas, meses! É tudo uma questão de exploração, os bebés nesta idade retiram a grande maioria dos nutrientes do leite, e mesmo na introdução tradicional os sólidos eram só um complemento. Só lá para os 9 meses é que eles conseguem associar a fome a sólidos, por isso é que há tempo para dar-lhes tempo, deixa-los explorar, seguir a sua curiosidade, provar, ainda que ao início comam quantidades ínfimas. E depois vão percebendo que gostam e que já não precisam de tanto leite. As primeiras semanas são tudo acerca de familiarização, de saber qual é a cor e cheiro de cada comida. Até um adulto se familiariza com comidas estranhas, nós chegamos a Portugal e há coisas que estranhamos, cheiramos, picamos. Isso é que torna tudo interessantes, eles terem tempo e oportunidade de o fazerem. E começam a perceber muito cedo o que é cada alimento, de qual gostam mais… Se comem tudo em puré nunca sabem do que gostam, do que não gostam, às vezes rejeitam um puré inteiro porque não gostam de um sabor, mas nem sabem qual, é tudo igual, tudo cor de laranja, a manga, a sopa, a cenoura… Aqui eles distinguem e exploram e conhecem.

Qual é a vossa receita preferida no livro?
Tracey – Talvez a sopa de galinha. O que levanta a questão interessante de como gerir a sopa, sem colher… e pode-se fazê-lo ou com pedaços maiores, de galinha ou legumes por exemplo, ou sendo extremamente espessa para que consigam usar as mãos, ou com uma colher só para o caldo.

Acham que BLW pode influenciar gerações futuras?
Gill -Esperamos que sim, que venham crianças e adolescentes com uma melhor atitude em relação à comida, com menos problemas, porque a maioria dos problemas com alimentação tem a ver com controle e aqui ele nunca é, nunca foi perdido.

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