Os dilemas do sexo oral numa relação

Há autores que defendem que o sexo oral é uma prática da sexualidade que devia vir no pacote standard de relações que envolvam ou se cinjam à cama. Uma espécie de “all you can eat” que passe obrigatoriamente pela exploração mútua, uma atividade que se quer tão normal quanto normalizada entre quatro paredes. Aparentemente, até é. Mas, ao que parece, há homens que não têm grande vontade de se alojar entre as pernas da parceira. E mulheres que não estão nada contentes com isso, sobretudo as que acham que a equidade, “se eu faço isto, tu tens de me fazer aquilo”, é um valor que tem de ser preservado a todo o custo.


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Desde tempos imemoriais que o sexo oral feminino é presença assídua no imaginário de todos nós, independentemente do lado em que nos encontramos. Dadores ou recetores, não nos faltam exemplos, episódios, desejos que envolvem a boca feminina e a genitália masculina. E é tão comum que se torna óbvio. E do óbvio ao obrigatório, vai um passo muito curtinho, normalmente de uma faixa etária mais nova. No final dos anos 90, o New York Times publicou uma reportagem que dava conta do quão banal se tinha tornado o fellatio entre os adolescentes de classe média americana, de tal modo que a pergunta “cospes ou engoles?” quase se tinha tornado no novo “olá, tudo bem?”.

Antes do “ajoelhar e rezar” ser figura de folclore social, o fellatio, tal como o cunnilingus, eram figuras gratas no nosso repertório erótico, apenas praticadas no quentinho das relações. Hoje em dia, no que toca ao fellatio, ele passou a ser um cromo repetido na caderneta feminina de “como alegrar um homem e deixá-lo maluco”. Pena que nessa caderneta não existam cromos que se dediquem ao cunnilingus com o mesmo fervor e intenção. Porque se existem homens que mergulham com pujança numa genitália que quer ser explorada, outros há que que a rejeitam sem mais, que a ignoram e entristecem. Mais: porque é que existem homens que esperam ser brindados com um fellatio e mulheres que pensam que isso é o prato do dia, todos os dias, do menu sexual? Mesmo das que acham que ser a feliz emissária de prazer via sexo oral é um atividade que as faz sentir poderosas e em controlo? Porque, simplesmente, não nos educamos a esperar sexo oral.


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No lado masculino, os desafios, e com eles alguns medos, também existem. Desde logo, há o medo de não fazer a coisa bem. O que, convenhamos, é natural para qualquer pessoa que já tenha visto uma vulva. Não é o terreno mais simples de navegar em toda a sexualidade feminina e o cunnilingus é prazeroso e igualmente desafiante. É o clítoris, os lábios, a uretra, onde ir? Onde posicionar a língua? E a expectativa feminina, onde a colocar?

E depois há o cheiro, esse aroma que atrai uns e repele outros e outras, porque, em tantos casos, começa nas mulheres o constrangimento com o aroma da sua própria vagina. É a morte de cunnilingus por desinformação da nossa própria genitália. Não nos bastavam os ditames sociais, para ambos os sexos, que protege o fellatio, esse ato normativo e comum, e derroga o cunnilingus, gosto particular de tarados e mulheres de má fama.

Como em tudo, desde que todos estejam em paz com as suas faltas e excessos, o mundo sexual continua a rolar. Mas quando a mesma prática tem má fama se for feminina e boa reputação se for masculina, então temos pronta a arena para se instalar mais um double entendre que nós, mulheres, já temos em demasia.

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