Subir

Carrie Coon: “O nível de escrutínio a que estamos sujeitas como mulheres é enorme”

Na última cena da segunda temporada de ‘The Leftover’, Nora vê Kevin Garvey abrir a porta, meio morto, e diz-lhe “estás em casa!.” A terceira temporada, que estreia na madrugada deste domingo no TVSéries, começa vários anos depois, com Nora e Kevin ainda juntos. No entanto, a calma aparente está prestes a ser interrompida pelo sétimo aniversário da Grande Partida. No trailer da temporada final, ouve-se Nora receber um telefonema de alguém que lhe pergunta se quer voltar a ver os filhos, desaparecidos na Grande Partida. Como é isso possível? Para onde foram?

“O criador sempre disse que não ia responder a essas questões”, lembra Carrie Coon, a atriz que interpreta Nora Durst, numa conversa em Beverly Hills. “As questões na série são muito existenciais e ninguém consegue responder-lhes: porque é que estamos aqui, para onde vamos quando morremos, porque procuramos um sentido?’”, resume. Carrie garante que o final vale a pena ver. “Para mim, como Nora Durst, o final foi satisfatório. Deixa espaço para toda a gente.”

O que ela quer dizer é que o fim está aberto a várias interpretações, e talvez isso seja o mais frustrante para os fãs da série. No entanto, não é uma surpresa: o co-criador de ‘The Leftovers’ é Damon Lindelof, mais conhecido por ‘Lost’ – e toda a gente se lembra de quão polémico foi o final, e as dúvidas que deixou sobre o que aconteceu realmente na ilha.

No início da temporada, Nora finge que está bem, mas isso nunca resultou entre ela e Kevin, que prometeram ser honestos um com o outro. “A possibilidade de rever os filhos é acenada à sua frente e ela tem de fazer uma escolha, que obriga ao distanciamento de Kevin.” A decisão é difícil: ou ela revê os filhos, ou é aniquilada. “Mas para quem passou por aquilo que ela passou, a própria morte já não é aterradora”, nota.

“O luto não é linear, e ela está sempre a recuperar e a afundar-se nele.”

A filmar ‘Fargo’ no Canadá, Carrie Coon é casada com o ator Tracy Letts, que ficou conhecido entre nós pela série ‘Homeland.’ A atriz diz que continua a gozar de um certo anonimato e que a maioria dos espectadores não a reconhece na rua, apesar do sucesso que ‘The Leftovers’ teve ao nível da crítica. Sobre o co-protagonista Justin Theroux, que está noutro patamar, por ser casado com Jennifer Aniston, diz que é hilariante e sabe as fofocas de toda a gente.

Aos 36 anos, Carrie passou a maior parte da sua carreira no teatro, na Broadway, e nunca tinha feito uma série televisiva. Tal como Justin Theroux, a atriz não sentiu que o peso do sofrimento de Nora fosse com ela para casa.

Justin Theroux: “Quando morremos desaparecemos, deixamos de existir”

“Os atores são pessoas que se expressam integralmente, o que é saudável. Nunca pensei que era difícil deixar um personagem. Deixa-se tudo em cena e depois vai-se dormir.” Carrie relembra uma cena muito emotiva em que o autor do livro que deu origem à série, Tom Perrotta, estava em estúdio:

“Quando a cena terminou, disse-lhe, ‘boa, então até amanhã!’ e ele ficou estarrecido. Não percebeu como é que eu podia voltar a mim tão de repente. Quase lhe partir o coração ver que a cena não me afetou.”

O que deixou um impacto duradouro, curiosamente, foi a colocação da voz, que se tornou mais grave, e um certo endurecimento como mulher. “A Nora é muito melhor a defender-se, não atura idiotas e diz o que pensa. Eu vim de um sítio onde me ensinaram a agradar a toda a gente, a dizer que sim e a não fazer ondas”, confessa. “Ter uma personagem assim, nos meus trintas, é tão instrutivo. Estou agora numa fase em que já não quero saber o que ninguém pensa. Os trintas, para as mulheres, são tão libertadores!” Para a atriz, o impacto desta personagem aconteceu num momento em que ela precisava disso.

“O nível de escrutínio a que estamos sujeitas como mulheres é enorme. No fim das contas, eu sou a minha única defensora. Tive de aprender a ter uma voz.”

A mensagem da série, acredita, está relacionada com o amor e o significado da vida existir entre as pessoas. “Não existe aqui, existe entre nós. Devemos apreciar o que está à nossa frente, porque pode acabar a qualquer momento. Carrie espera que a série leve as pessoas a questionarem-se isso mesmo e a estarem mais presentes na sua vida – porque, no fim, não vão poder levar nada de material consigo.

A atriz recorda também algo que leu há pouco tempo: tudo o que não é amor é medo. Os Guilty Remnant, a seita que aparece de branco na série, representam as diferentes formas com que as pessoas lidam com a tragédia – neste caso, a identificação de grupo, um culto. “Vemos isso nos Estados Unidos agora, as pessoas estão a reforçar a identidade que têm, com base em medo.” É uma tentação de controlo sobre a realidade que funciona pela cedência de poder: num culto, não é preciso tomar decisões.

Os oito episódios finais são também um exercício narrativo interessante, com uma cinematografia incrível. “O Kevin e a Nora são o centro da história. Tivemos um desenvolvimento das personagens nas outras temporadas e este ano é muito mais orientado para a ação”, explica Nora. É verdade, a terceira temporada, que nos leva para a Austrália profunda, está cheia de fugas, perseguições, lutas, morte e separação. Tem episódios completamente bizarros, que parecem desgarrados da história – quase como se fossem capítulos de outro conto.

‘The Leftovers’, a temporada final, estreia no domingo no canal TVSéries da NOS.

Ana Rita Guerra, na Califórnia