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‘Pai Nosso’ um livro que não é uma oração

livro pai nosso

O choque começa logo no registo de escrita. É diferente do que se faz por cá este ‘Pai Nosso’. Clara Ferreira Alves garante que não lhe foi fácil chegar à versão final e que num dia do último agosto se obrigou a terminar em vez de continuar a reformular. Ao acabar a leitura deste romance que, tal como o “conflito do Médio Oriente”, às vezes parece não chegar ao fim, o leitor é obrigado a folhear as primeiras duas dezenas de páginas para ver como a estrutura estava toda posta ali.
Quanto à crítica do público sobre ‘Pai Nosso’, isso pouco lhe importa. Diz que o livro já não é seu. É difícil acreditar que seja assim, mas é o que afirma. Para o leitor que vai à procura do “livro da Clara”, ‘Pai Nosso’ precisaria de uma facada de 150 páginas. Para os leitores a quem este livro se dirige, não será necessário arrancar-lhe tal número de páginas, pois oferece uma leitura madura sobre o que se passa no Afeganistão, a melhor das guerra para a protagonista do romance.

A autora faz questão de usar as palavras na narrativa de forma elaborada, tal como as referências culturais que exigem cultura, por norma ignoradas nos textos nacionais contemporâneos.
Obstinadamente, escreve “oiro” e “poiso”; repete fixações como o fotógrafo Robert Capa; raramente cai no lamecha, a não ser quando vai para o Laos limpar a alma. Principalmente, tem frases belas, como a da página 156: “… uma cabeça embrulhada em ligaduras ensanguentadas…”, que descreve bem o que acontece ao rebanho no curral das vítimas deste livro.
Se a protagonista de ‘Pai Nosso’ é um achado para o reino das personagens por cá criadas, o modo como o romance agarra as restantes e as atira para eventos inesperados teimosamente até ao fim, também possui o grande final, dos que não deixam a desejar e não é para qualquer um. Leia a entrevista a Clara Ferreira Alves.

‘Pai Nosso’, Clube do Autor, €20.

Por João Céu e Silva