Usar pelo falso ou verdadeiro é mesmo uma questão ecológica?

A model presents a creation from the Emporio Armani Autumn/Winter 2016 women's collection during Milan Fashion Week, Italy, February 26, 2016. REUTERS/Stefano Rellandini - RTX28OKQ

Fofo, macio, mais longo ou mais curto, monocromático ou multicolor, o pelo falso chegou à moda acessível em marcas como a Zara, a H&M, a Bershka, a C&A, a Mango, e à de luxo como a Armani, a Prada, a Dries Van Noten, em casacos, chapéus, estolas, luvas, carteiras e botas. Mas as coleções de inverno deste ano também se fizeram de pelo verdadeiro, como mostram a Gucci e Yves Saint Laurent. A “luta” entre ambas acaba por ter ser equilibrada, satisfazendo as partes interessadas, quer o consumidor final quer os protagonistas da indústria.
O uso de pelo e de pele verdadeiros é, nos dias de hoje, um tema demonizado devido ao crescimento de campanhas pelos direitos dos animais, fazendo deste assunto uma polémica global. Basta ver a última campanha da associação dos direitos dos animais PETA, ‘Carteiras que Sangram’, em que dentro das malas parecerem existir organismos vivos.

Por outro lado tende-se a esquecer que parte das peles utilizadas pertencem, na sua maioria, a uma cadeia alimentar alargada, excepto as peles de determinados animais exóticos, como cobra, crocodilo, raia, que, mesmo assim, fazem também parte da gastronomia de alguns países.

A verdade é que a indústria de pelo verdadeiro debate-se com o crescimento da indústria do pelo falso, produzido artificialmente, sem que haja certezas sobre se um é de facto mais sustentável do ponto de vista ecológico do que o outro. Minimizar o sofrimento dos animais, o abate indiscriminado de espécies em vias de extinção é uma necessidade urgente, mas aumentar a produção artificial de um determinado produto vai, também, exponenciar o impacto junto do meio ambiente e as más-condiçōes de trabalho em países como a Índia, China ou Indonésia.
Lembra-se de 1994? Nesse ano quando cinco supermodelos, entre as quais, Christy Turlington, Naomi Campbell e Cindy Crawford, apareceram nuas sentadas no chão com o ‘slogan’: “We’d rather go naked than wear fur” (em tradução livre: “Preferimos andar nuas do que vestir pelo”), para uma conhecida campanha da PETA. O sucesso foi imediato. Aumentou a consciencialização dos direitos dos animais e do sofrimento a que são sujeitos para a obtenção de peles. Mas, mais tarde ou mais cedo, estas supermodelos acabaram por surgir em público vestidas com exuberantes casacos de pelo verdadeiro.

E depois, como sempre que figuras públicas internacionais surgem com determinadas peças de roupa, as vendas das mesmas cresceram. A prova disso está num estudo realizado nos finais dos anos 1990 pela British Fur Trade Association (BFTA) que constatava que a venda de pelo verdadeiro tinha aumentado cerca de 58%.

Ecologia ou interesses a instalarem-se?
Ironia ou não, a moda está dividida entre o politicamente correto e o politicamente incorreto, ou melhor dizendo, entre dois ‘lobbies’. Para muitos criadores, como Stella McCartney ou Armani, o uso de peles verdadeiras foi erradicado das suas coleções, para muitos outros não, como Tom Ford, Yves Saint Laurent ou Roberto Cavalli.
A moda dita que o pelo, falso ou verdadeiro, esteja na moda. E porque será que a postura face ao uso de pele verdadeira assumiu contornos radicais? Segundo o diretor executivo da BFTA, Mike Moser, a questão passa pela forma de pensar e agir das novas geraçōes:

“Elas desejam perceber todos os pontos de vista e depois ter a liberdade de agir. A discussão sobre o uso ou não de pele verdadeira tem de passar pelo real impacto que o fabrico de peles falsas tem no meio ambiente, uma vez que este setor recorre a matérias-primas poluentes”.

A luta realizada há várias décadas pela PETA sobre este tema é pertinente, mas há uma omissão sobre o outro lado de uma mesma moeda, que parece propositada. Sabia que as peles falsas são feitas à base de materiais não bio-degradáveis, de origem sintética como o nylon e o poliéster, provenientes do petróleo?

Paulo Vaz, diretor-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), tem uma posição conciliadora entre os dois interesses instalados:

“No meio está a virtude, como em qualquer assunto. A utilização de peles de animais, desde que controlada, continuará certamente. A humanidade continuará a comer carne e para tal é preciso continuar a fazer criação de gado e deste não é apenas a carne que se aproveita. Outra coisa são as espécies selvagens, raras e protegidas que devem ter cada vez mais controlo e aperto, havendo necessidade de sanções mais pesadas para os prevaricadores. Quanto à produção artificial de peles, é certo que o seu incremento pode ter consequências ambientais, até porque são produzidas com base no petróleo e outros químicos, mas, aqui, estou convencido que o avanço tecnológico irá permitir que a sua produção tenha um impacto cada vez menor e até que tendencialmente nulo.”

O impacto do desgaste

Os seguidores de tendências compram peças de pele falsa, usam-na durante uma ou duas estaçōes e deitam-nas fora, não tendo a noção que este material demora cerca de mil anos a decompor-se, como qualquer produto feito à base de petróleo. Já sabíamos isto dos sacos de plástico, verdade? Por seu lado, os casacos de pelos genuíno podem passar de mães para filhas.

O processo de lavagem e coloração do pelo e da pele deteriora o meio ambiente, pela libertação de cerca de 1900 mil pequenas partículas plásticas que são enviadas pelos esgotos para os rios, lagos e mar, segundo um artigo científico publicado, em 2011, no Jornal Environmental Science&Technology.

Parte desta luta sobre o correto e o incorreto é feito pelos lobbies de ambas as partes, sabendo que os dois lados acabam por ter razão no conjunto. E prova disso mesmo é haver vozes no mundo da moda, como a designer e ‘stylist’ inglesa, Minna Attala, vegetariana assumida, que tem consciência que este é um tema complexo.

“Sou contra o uso de pele natural, mas sabendo o que sei sobre este assunto, não tenho uma voz contra. Até porque se de facto quisermos ser honestos sobre este continuo debate, deveríamos deixar de usar pele falsa e pele verdadeira e também deixar de consumir ‘fast fashion’ em geral”.

Em países como a Nova Zelândia, o governo incentiva à compra de pele natural de espécies como o possum, um mamífero não nativo daquele país insular, para obter um equilíbrio ecológico, uma vez que estes destroem o meio ambiente de outros animais nativos.

O regulador internacional de pele natural, BFTA, adverte que quem pretender comprar vestuário ou acessórios feitos à base de pele natural, deve procurar a etiqueta de “Origem Assegurada”, criada em 2007, que confirma a proveniência da pele de países que respeitam os regulamentos internacionais sobre o uso de animais na indústria da moda, que se compromete a não usar pelo de animais em vias de extinção que vivam em ambiente natural. Não há no entanto referências às práticas de abate dos animais legais que, em muitos casos, promove o sofrimento do animal para garantir a melhor qualidade da matéria.

A discussão está para continuar.

 

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