Petra Costa: “Se a moral imperar não existe cinema”

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O lugar da mulher na gravidez é o tema central de ‘Olmo e a Gaivota’, documentário premiado da brasileira Petra Costa e da dinamarquesa Lea Glob, que estreou em junho nas salas portuguesas e está quase a chegar ao mercado em DVD. Conversámos com uma mulher que é também um furacão de consciência cívica e feminista assumida.

Para entrar para dentro de uma mulher talvez sejam precisas duas mulheres. Foi isso o que aconteceu com ‘Olmo e a Gaivota’, documentário sobre a gravidez de uma atriz, Olivia Corsini, feito por duas realizadoras diferentes, a brasileira Petra Costa e a dinamarquesa Lea Glob. Uma espécie de documentário com causa feminista que esteve em competição no último IndieLisboa. “Espécie” porque acaba por ter ficção, sobretudo na forma como a intimidade dessa gravidez é encenada. Cada vez mais, no cinema moderno, a linha que separa a ficção do documental é território tabu.

A realizadora brasileira falou com o Delas num jardim lisboeta quando visitou Portugal. Uma realizadora que também é atriz e que neste filme quis registar como Olivia e o seu companheiro, o ator Serge Nicolai, enfrentaram um processo de ensaios da peça ‘A Gaivota’, de Tchekov, ao mesmo tempo que as personagens da peça se tornavam reflexos da própria Olivia. Um filme sobre afetos e o ego dos atores, mas também sobre a essência do feminino e a forma como os deveres de uma mãe podem colidir com os sonhos e aspirações profissionais.

‘Olmo e a Gaivota’ é co-produzido pela produtora portuguesa O Som e a Fúria, de Luís Urbano e Sandro Aguilar, que é hoje uma label de qualidade do cinema de autor em todo o mundo, sobretudo depois do sucesso de filmes como ‘Tabu, As Mil e uma Noites, ambos de Miguel Gomes e, mais recentemente, Volta à Terra’, de João Pedro Plácido.

Para Petra foi importante investigar toda esta questão da maternidade com uma atriz, não só por ser também atriz mas porque quem interpreta tem uma dupla função:

“Ser um investigador de toda a condição humana. Um ator investiga a condição humana e o seu exagero no seu próprio corpo – obviamente tem uma outra carapaça, completamente diferente da de um bancário. O que estamos ali a ver é a Olivia. Dessa forma, os limites da sua privacidade são os dela e não os meus ou da Lea… De alguma forma, nós duas fomos o elemento disruptivo daquela casa. Quisemos ir para além daquela intimidade para qual aquele casal estava preparado. Aliás, eles como atores acabam por ter uma visão muito consciente daquilo que queriam mostrar”.

Na verdade, o trabalho de pesquisa feminina de Petra já vinha do filme anterior, ‘Elena’, documentário produzido por Tim Robbins onde investigava o desaparecimento da sua irmã. Aí filmava uma ausência, agora uma presença constante: “Sim, a Olivia acabou por dar muito de si. Tem a ver com o dispositivo do filme, onde gravou um diário de voz da sua gravidez. Tratou-se de um diário de pensamentos que se transformou num parceiro, num psicanalista. Estão ali pensamentos dela que não partilhou com mais ninguém. Curiosamente, depois do bébé nascer e de ter visto um dos cortes do filme, diz que não se reconheceu muito… Aqueles pensamentos deixaram de ser questões. São coisas que nós reprimimos, mas é precisamente isso que é interessante. Se a moral imperar não existe cinema. Devo dizer que este filme deu-se no choque – ela tentava colocar limites e eu e a Lea tentávamos contorná-los. Creio que se vê isso no resultado final”. Crê com razão.

Ativista política reconhecida e forte voz do ativismo feminino no Brasil, Petra faz questão de dizer que as coisas não estão melhores no Brasil em relação à discriminação sexual: “o meu país continua extremamente machista. Tivemos uma Presidente mulher mas ela infelizmente levou com o impeachment. Tudo isto do “tchau, querida” não é um pouco machista, é muito machista! O que se passou é que todas as políticas sociais do governo do PT eram direcionadas para a mulher, como por exemplo o facto da Bolsa Vida ir para a conta das mulheres. Dou também o exemplo das casas oferecidas que iam para as mulheres, mas ao mesmo tempo o Brasil continua a ser o quinto país que mais mata mulheres a nível de violência doméstica, já para não falar que há menos mulheres no Congresso do que na Congresso da Arábia Saudita…Estamos no 85º lugar do ranking de igualdade entre géneros! Mas talvez algo esteja a mudar. Em novembro tivemos o maior movimento feminista da História do Brasil…”.

E algo está a mudar igualmente no cinema brasileiro. As cineastas brasileiras não estão a dormir.

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