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Uma série sobre pornografia nos anos 70 para explorar a misoginia de 2017

The Deuce, é a nova série com chancela da HBO que estreou este domingo no Tv Séries. O Delas.pt esteve à conversa com as estrelas da série, Maggie Gyllenhaal e James Franco, em Nova Iorque.

Maggie Gyllenhaal gravou ‘The Deuce’, a série que conta o início da indústria pornográfica em Nova Iorque, durante a última campanha presidencial nos Estados Unidos. Despia a roupa de Candy – a prostituta que, na série, ganha a vida nas ruas de Times Square – e ia assistir aos debates, discursos e entrevistas que iam marcando os noticiários. “Gravávamos de manhã e à noite. Durante a pausa para almoço, estávamos todos sentados nos atrelados a ver o que se passava”, lembra a atriz. “Apesar de não ser culturalmente explícita, a misoginia da situação, todos sentíamos o que é que se estava a passar e que era parte do trabalho que tínhamos de fazer.”

Foi apenas a 09 de novembro, quando o homem que se gabou de poder agarrar uma mulher pelos genitais porque é poderoso se tornou presidente dos EUA, que tudo se tornou evidente. “Enquanto sociedade, acreditávamos estar num sitio muito diferente daquele em que estamos realmente. Quando interpretava a Candy, estava a pensar numa mulher e a relação com o seu poder, a sua arte, a sua sexualidade, a sua capacidade de ganhar dinheiro, a força da sua mente. Quando te vês num momento como este, com um inegável misógino no poder, é uma altura incrível para a série estrear e para falar de todas estas coisas.”

A atriz fala a um grupo de jornalistas na sede da HBO, a dois quarteirões de Times Square, onde se passa a ação da série. Mas a Nova Iorque dos anos 70, que se tornou uma das geografias e eras mais representadas na cultura popular, com toxicodependentes e traficantes, prostitutas e chulos, crime, pobreza e o aparecimento do HIV, está a um mundo de distância dos quarteirões mercantilizados dos dias de hoje. No centro da ação de The Deuce, estão os gémeos Vincent e Frankie Martino (desempenhados por James Franco), donos de um estabelecimento noturno, e Eileen ‘Candy’ Merrell (Maggie Gyllenhaal), uma prostituta que vê nos filmes pornográficos uma forma de sair das ruas.

Um dos autores da série é David Simmons, autor da celebrada série The Wire, que regressa assim a uma grande paisagem urbana para explorar as contradições e dilemas do capitalismo de rua (se no The Wire era o tráfico de drogas, aqui são os corpos humanos). Além da mudança geográfica, outra grande diferença são as personagens femininas. “Quando comecei a fazer televisão, estava na casa dos 30. Não queria saber o que é que as mulheres pensam. Acho que tinha medo. Cheguei a brincar dizendo que não escrevíamos bem personagens femininas. Mas quando tens 50 anos decides, ok, vamos pensar um bocadinho mais nisto”, diz o autor. A ajudar estavam também as realizadoras, que assinam metade dos oito episódios, e a sala de argumentistas, que estava repleta de mulheres e uma transexual.

Maggie Gyllenhaal, que pediu para ser produtora da série como condição para participar, diz que os autores “queriam tanto estar do lado certo da conversa”, que chegou a ter de dizer coisas como: “Cortaste o orgasmo desta cena porque achas que me estas a proteger, mas aquele orgasmo é o que torna esta cena feminista. Por isso, por favor, torna a inclui-lo na cena.”

A atriz não acredita, no entanto, que a sua personagem seja feminista. “Não acho que a Candy diga “sou uma feminista”. Não acho que seja uma intelectual. Mas ela sabe o que é sexy, para ela e para os homens, e de imediato começa a dizer: ‘Porque raio enquadras isso dessa forma? Ninguém quer ver isso. Faz antes assim.’ Naturalmente, sem usar qualquer uma das palavras, porque não tem acesso a esse vocabulário, é começa a agir como uma.”

Desde o início que os autores sabiam que a misoginia faria parte da história (como não, se corpos de mulheres estão no centro do enredo?) e estavam convencidos que era um tema que valia a pena abordar desde 2012, quando conheceram o homem que inspirou esta história. “Havia uma ideia generalizada de que já não havia misoginia. Depois da campanha presidencial, com tudo o que Trump disse e o que foi dito sobre Clinton, tornou-se muito evidente que isso era mentira, que a misoginia não esta morta, que está muito viva”, diz Simmons. “Se és uma mulher que faz parte do discurso público, o que é dito sobre ti, muitas vezes sob a guarida de comentários anónimos, é chocante. A minha mulher é escritora, vejo isso a toda a hora, é muito desanimador.”

Com este guião, os autores procuraram isolar um fator e explorar o impacto que a pornografia teve na forma como as mulheres são vistas na sociedade, em especial pelos homens. “A forma como as mulheres foram representadas na pornografia nos últimos 40 ou 50 anos influenciou muito a forma como os homens pensam sobre as mulheres”, explica outro produtor executivo, George Pelecanos. “A nossa geração tinha de procurar uma playboy para ver peitos. Agora um jovem abre o seu portátil e vê uma mulher a ser fodida, muitas vezes usando violência. Isso pode invadir a sua psique e causar atitudes negativas contra mulheres.Simmons concorda: É muito difícil argumentar que 50 anos de construção de uma fantasia masculina, com um alcance tão profundo e omnipresente, não tiveram um efeito.”

James Franco que, além de desempenhar o papel de gémeos, realizou dois dos episódios diz que a solução não é criticar a existência da pornografia, até porque “a indústria pornográfica não vai desaparecer, se alguma coisa acontecer é tornar-se maior”, devido à tecnologia. “A minha grande crítica a esta indústria não é moralista, mas sim porque é amplamente desregulada. David [Simmons] estava a dizer numa entrevista: Sindicatos, sindicatos, sindicatos. Porque sem eles é tão fácil tirar vantagem das pessoas, sobretudo das mulheres. Isso é uma das coisas que a nossa série expõe e critica.” Franco diz que a resistência em distinguir a indústria pornográfica, regulando-a, é profundamente hipócrita. “É uma indústria de muitos mil milhões, mas ainda há esta grande hipocrisia. Muitas pessoas veem pornografia, mas depois tem uma atitude generalizada de olhar para baixo para as pessoas que a fazem.”

Maggie Gyllenhaal concorda. Até porque, explica, a pornografia pode ser exploradora de uma mulher, sim, mas também empoderadora. “Acho que pode ser as duas coisas. Para umas pessoas é só uma ou outra, mas para a minha personagem foi as duas coisas”, diz, lembrando a cena em que Candy filma uma cena pela primeira vez, refletindo sobre a luz, ângulos, cenas. “Através da pornografia ela descobre que é uma artista.”

No decorrer da produção da série, Gyllenhaal também percebeu que podia fazer o seu trabalho de forma diferente. “Demorava duas horas a escrever um email com uma nota simples, para que tudo estivesse perfeitamente bem articulado, com o tom certo, para não alienar ninguém, de forma bem específica. E pensava: o meu irmão [Jack Gillenhall] tem de fazer isso? O meu marido tem de o fazer? Ou podem ser mais relaxados?” Uma noite, pouco depois de Donald Trump tomar posse e com os filhos doentes em casa, a atriz começou a escrever um desses emails e parou para pensar. “Estou nisto há seis meses. Eles prestam atenção ao que estou a dizer. Não preciso desta armadura. Posso dizer simplesmente o que tenho a dizer. Eles respeitam-me, vão ouvir-me.” E escreveu o email em 20 minutos.

The Deuce passa na noite de domingo para segunda-feira, às 2h00, no TVSéries | Home of HBO, com exibição em horário nobre às segundas-feiras às 22h50.

Alexandre Soares, em Nova Iorque