Portuguesa e voluntária num campo de refugiados, de regresso a casa

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Ao longo de duas semanas Leila Campos escreveu desde Lesbos, sobre as condições de vida dos refugiados, sobre o trabalho dos voluntários, sobre o que sentiu. Este é o oitavo diário de uma portuguesa, mãe de duas adolescentes, que esteve na Grécia a fazer a diferença. Hoje, já em casa, reflete sobre a crise dos refugiados, que é uma crise de valores humanos na Europa.


Conheça melhor Leila Campos e a sua história.


Capítulo VIII

Passou uma semana desde que deixei Lesbos e sinto que deixei um pedaço do meu coração naquela ilha. Voltar à vida normal tem sido um esforço. A realidade em Portugal é tão diferente daquela que vivi em Lesbos que parece que saí de um filme. Com estes diários quis não só relatar a minha experiência mas também alertar para esta crise, que é de facto uma tragédia humana.
No conforto da minha casa não posso deixar de pensar em todos os membros da equipa com quem trabalhei e nas infindáveis horas de trabalho que enfrentam todos as noites. Nas pessoas que dormem em tendas nos campos de refugiados sobrelotados e em condições desumanas. Nas famílias que conheci no meio da noite, encharcadas e cheias de frio, enquanto eu tentava encontrar-lhes roupas. Mas sobretudo, penso nos refugiados que estão agora “presos” na Grécia e na Macedónia, que não têm para onde ir. Nos paquistaneses, marroquinos, argelinos e tunisinos que fazem parte de uma longa lista de nacionalidades que não têm hipóteses de conseguir asilo na Europa.
A forma como esta crise tem sido gerida marca um dos capítulos mais sombrios da história da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. A disseminação sistemática de medo, o ódio, a islamofobia, maus tratos, encerramento de fronteiras e, acima de tudo a desumanidade são nódoas difíceis de remover.

Leila_cores_2Como voluntária conheci pessoas iguais a mim: mães, filhas e irmãs. Ouvi histórias comoventes, de violência, de guerra e de morte, com um sofrimento além do que qualquer ser humano deveria sentir.
Os refugiados veem na Europa a terra prometida, arriscam a vida para cá chegarem, mas ninguém os quer. Porque é que eles são assim tão indesejáveis? Do que é que temos tanto medo? Os receios que se espalharam são bastante irracionais quando olhamos para os números: 1 milhão de pessoas entraram na UE em 2015, o que corresponde aproximadamente a 0,2% da população da Europa. O Líbano, um pequeno país com 4,8 milhões de habitantes acolhe neste momento 1,2 milhões de refugiados. A Turquia tem mais de 2,5 milhões refugiados.
Portugal vai acolher 10 mil refugiados. Mas para receber estas pessoas é importante um plano de integração, e este não é apenas um trabalho para as autoridades, é também um dever de todos os cidadãos. Todos precisamos de sentir que fazemos parte de um grupo ou comunidade. A exclusão é perigosa e é um terreno fértil para as ideias radicais.
O meu apelo, depois desta experiência é que tratem os refugiados com dignidade. Tratem-nos como pessoas e não como uma praga ou um incómodo ou meros números. Por favor parem com a violência e as detenções ilegais como aconteceu na semana passada em Calais, na França. Não deixem crianças dormirem ao relento em noites com temperaturas negativas. Não fechem as fronteiras para determinadas nacionalidades, deixando os países fronteiriços a lidar sozinhos com a responsabilidade por essas pessoas, como todos os países da UE estão fazer em relação à Grécia. O que está a acontecer é uma tragédia e temos de nos questionar: como é que vamos olhar para trás daqui a 50 anos? Como é que vamos olhar para as terríveis condições que os refugiados são forçados a viver na nossa Europa? É bom que nos certifiquemos que estamos do lado certo da História.
Neste cenário tão negro o que é podemos fazer? O cidadão comum hoje pode fazer muitas coisas. Pode já comentar este artigo e pode partilhá-lo. O lado bom da social média é dar poder a todas as pessoas e estas tornarem-se opinion leaders nas suas comunidades. Devido a este poder, enormes somas de dinheiro foram doadas, ideias foram partilhadas, vozes foram ouvidas, planos colocados em ação e pessoas de todo o mundo uniram-se para fazer a diferença. Se quer também fazer a diferença pode assinar petições online, pode reunir ajuda e enviá-la para a Síria ou apoiar programas educacionais para crianças no Líbano. Pode organizar um grupo de apoio aos refugiados que estão a chegar a Portugal ou oferecer-se como voluntário. Pode encontrar um refugiado e falar com ele, mesmo que seja só para dizer olá. Pode manter um debate construtivo com pessoas que não partilham de seus pontos de vista. Mas acima de tudo, se não conseguir fazer nada disto, pode espalhar amor e bondade ao seu redor.

O medo e o ódio são como doenças contagiosas, mas se há uma coisa que eu aprendi com os voluntários de Lesbos é que o amor e bondade são ainda mais contagiosos. Arregace as mangas, envolva-se e eu garanto-lhe que se vai surpreender com o número de pessoas a querer participar. Vai-se surpreender com o amor que irá receber. Como Gandhi disse: “Qualquer coisa que fizeres será insignificante, mas é muito importante que o faças.”

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