“Precisamos mesmo de interromper os ciclos de exclusão e não de tapar os buracos”

40 mil alunos e professores, 18 mil voluntários fora da comunidade escolar, 433 projetos e 193 ideias de inovação social que foram apuradas no âmbito do projeto Escolas Solidárias, levado a cabo pela Fundação EDP.

Ao Delas.pt, Margarida Pinto Correia, a responsável pela pasta da inovação social da instituição criada pela energética, fala do crescimento do projeto Escolas Solidárias, acredita que a iniciativa – que começou numa pequena estrutura regional portuense há oito anos – vai criar novas gerações mais conscientes da cidadania e lamenta que Lisboa e Alentejo sejam, proporcionalmente, menos participativas.

A diretora de Inovação Social, de 51 anos, acredita que a ideia individual de “a minha boa ação”, “os meus pobrezinhos” está a cair em desuso e está a dar lugar a uma forma mais organizada de olhar o que está à volta e intervir. Tudo isto – bem como o balanço de todos os projetos em marcha – no dia em que mais de uma centena de escolas e alunos (do 5º ao 12º anos) vão ver reconhecidos o esforço empreendido ao longo do ano letivo e em paralelo às matérias escolares.

Projetos desenvolvidos e implementados no âmbito de oito dos 17 objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas: Pobreza e Fome, Desemprego/Sustentabilidade Económica, Educação/Literacia, Saúde, População Sénior, conviver com a diferença, Sustentabilidade Ambiental e Parceria Global para o desenvolvimento humano. A celebração decorre esta sexta-feira, 2 de junho, às 14h00, no Teatro Camões, em Lisboa.

Houve mais 25% das escolas a participar neste projeto Escolas Solidárias – o terceiro ano em que se desenvolve a nível nacional -, o que promoveu essa procura?

O reconhecimento parte de mérito da procura das escolas, que já são solidariamente ativas, mas muitas vezes são deslaçadas, não estão integradas, estruturadas em torno da necessidade de medir o impacto. O projeto Escolas Solidárias dá-lhes a noção do que estão a fazer, com objetivos, métricas e calendarização muito estruturados e claros. O que trazemos às escolas é o nosso know how natural, o ADN da Fundação EDP que passa por gerir, capacitar e empoderar projetos sociais. O que temos pretensão de fazer é pegar nas ideias, melhorá-las, ajudá-las a serem implementadas e medi-las, ver que fórmulas funcionam, que ferramentas são mais eficazes, cumprindo o nosso objetivo último que é o de interromper ciclos de exclusão e de pobreza. Já fazemos isto em projetos com idade adulta para a sociedade civil e o que fizemos foi transpor a mesma iniciativa para uma cronométrica de ano letivo. Foram mais 25% de escolas, mais 300 equipas do que em 2016 (871), 60 mil pessoas envolvidas e 1600 parcerias criadas. Quer dizer que está a funcionar uma das sementes que mais prezamos, que é a de criar sinergias e otimizar recursos.

[Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens]
Porquê começar nos mais novos?

Já andamos a semear esta ideia na sociedade ativa adulta, mas se o fizermos numa idade escolar, quando aqueles jovens chegarem à fase ativa e independente já vão estar a aplicar estas métricas, criando uma cultura completamente diferente da que existe no que diz respeito à atividade cívica.

Que é?

Durante muitos anos, foi uma atividade muito umbilical, muito defensiva em torno do meu território, o meu projeto, os meus pobrezinhos, a minha boa ação, do que eu faço bem. Costumo dizer sempre que caridade é sinónimo de amor e que o assistencialismo não tem nada de errado ou de mau, é insuficiente. Precisamos mesmo de interromper os ciclos de exclusão e não apenas tapar os buracos. Precisamos de evitar a criação desses buracos.

Qual a taxa de permanência das escolas de um ano para o outro?

É muito grande, mas não é de 100%.

Há desistências?

Há, mas sobretudo de escolas que não completaram o projeto no ano letivo. As que concluem têm voltado sempre. Mas os professores, ao alunos mudam e, às vezes, as dinâmicas das próprias escolas não dão continuação. O que queremos é que isso não aconteça, queremos fomentar os ritmos, em que a escola possa também dar seguimento a essa métrica.

Como se mede?

Nos 10 anos da EDP solidária – fundo de apoio de investimento social – fizemos um estudo de sinais vitais do que tínhamos feito, apoiado e do que tínhamos provocado na sociedade. Andámos todos os anos a injetar dois milhões de euros porque fomos queridos ou transformámos alguma coisa? Quando nós saímos dos projetos, estes souberam continuar? O que o estudo nos disse foi que 70% dos sinais vitais estavam lá, o que é extraordinário. Esses projetos existem sem nós e para além de nós, criaram sustentabilidade.

E como vai ser nas escolas?

Ao fim de três anos iremos estar de voltar às escolas do ano anterior a tentar colher as pontas. Ou seja, queremos saber se os alunos que se envolveram melhoraram ou não o aproveitamento, se no ano seguinte continuaram a fazer atividade cívica? Se após a saída da escola, sabemos dos alunos e estão a fazer alguma coisa? E a escola mantém-se ativa após a saída do aluno ou do professor? Ao fim de três anos ainda não consigo ter essas respostas, mas queremos ter uma noção do que está a mudar, tal como temos para os outros projetos. Temos uma plataforma de gestão de parceiros na inovação social, com mais de 300 inscritos, e para todos temos uma noção da sua continuidade depois de nós.

Quem mais toma a iniciativa em participar nas escolas solidárias? Escolas, professores, alunos?

Os três. Mais depressa os professores ou os alunos e menos as escolas. Mas há casos de ser um diretor que sabe disto e e empurra toda a gente. Em setembro/outubro fazemos roadshows. Este ano letivo (2016/17), foram 15 as cidades e aproveitei todas as as oportunidades para ir a várias escolas. Falo para ginásios, auditórios, salas de aulas cheias de alunos e professores e a minha sementeira é esta.

As escolas que os seus filhos frequentam estão envolvidas neste projeto?

Não, para grande pena minha. Por uma razão que me ultrapassa, mas de forma menos responsabilizante, infelizmente. Lisboa é quem menos adere às escolas solidárias.

Porquê? Lisboa não é solidária?

Lisboa e o Alentejo.

Quais as razões de cada uma delas?

O Alentejo é nitidamente pela desertificação, isolamento e pelo difícil que é tudo. E as escolas e os professores são muitas vezes extraordinários, porque é tão difícil ter os alunos ali, concentrados, atentos e com rendimento que eles acabam por fazer apenas os projetos que precisam de fazer.

E quais as razões que afastam Lisboa destes projetos?

É um achómetro, mas com base em muitas respostas recebidas. Lisboa adere menos. Temos muitas escolas em Lisboa, mas proporcionalmente não é uma adesão em massa. Temos uma área metropolitana muito grande, muito difícil, com uma variedade social muito grande e com enorme dificuldade de gestão de horário. A maior parte dos pais e professores estão divorciados, estão sempre a correr. Chegam a casa às sete da noite e ainda têm trabalhos para fazer, têm de estudar e têm de se levantar às seis da manhã. Isto não lhes dá tempo para, animicamente, estarem a fazer qualquer coisa. Nas escolas, os alunos estão a ritmo enlouquecedor, com trânsito e transportes enlouquecedores. A escola publica do meu filho não conseguiu, a privada disse já estar noutros projetos.

Por isso mesmo lhe pergunto pelo umbiguismo: cada um a sua ação?

É preciso distinguir escolas de associações. Há duas razões para as escolas de Lisboa não aderirem e que caminham lado a lado. A que falei e o facto de estarmos com este projeto só há dois anos, é muito cedo e, como em tudo nas grandes cidades, a mudança é mais difícil de entranhar, mesmo com o secretário de Estado da Educação [João Costa] a dar o seu apoio, mesmo existindo a partir deste ano uma coisa importante que passa pelo facto de ação cívica ser curricular, que não era. Agora quando passo de ano, a minha atividade cívica estará descrita ao lado das notas

Há variações na adesão de projetos oriundas de escolas em zonas de maior segregação ou exclusão e de outras com alunos oriundos de famílias com mais recursos financeiros?

As duas coisas. Não tenho o gráfico de níveis financeiros e sociais vis-a-vis a quantidade de escolas. Sou membro ativo do júri e vejo os projetos todos – e ver não é nada fácil (risos) – e aprecio as provas exaustivas, a documentação, o que pensaram e sentiram os alunos e professores. Cada escola é um mundo. Há colégios privados a fazer projetos extraordinários e há escolas do fim do mundo, ao fundo, à esquerda a fazer também projetos extraordinários. Assim como há agrupamentos inteiros a fazer um projeto para um único aluno – com distrofia muscular, um problema que vai piorar e o agrupamento inteiro está dinamizado para ações de voluntariado de assistência à família, obtenção de fundas para obras na escola e na casa, apoio ao estudo -, há escolas a fazer projetos para fora do país. Uma delas, pequenina, em que o professor, com contacto em Timor, organiza uma biblioteca e vai com os alunos ao país para as instalar.

Que outros projetos lhe despertaram a atenção?

Este ano, uma escola que sabia que havia uma enorme necessidade de vacinação em Moçambique e, por isso, angariaram capacidade financeira e apoios para terem vacinação e transportes para os técnicos necessários para cumprirem a ação. Mas também há projetos de transformação do espaço escolar ou de terceira idade. Ou um projeto que tivemos no grande porto passava pela inclusão de invisuais para a arte. Ou seja, os alunos de uma escola técnica estão a fazer réplicas de quadros clássicos em relevo tátil para descrever o que é, por exemplo, a Mona Lisa [Leonardo da Vinci], os Girassóis [Vincent Van Gogh] ou o Guernica [Pablo Picasso]. Os invisuais vão ver estes quadros na ponta dos seus dedos, e foram os alunos que bolaram isso. Pode ser limpeza de rio, combate à violência no namoro.

Mais quais os temas mais comuns?

O combate à pobreza é a temática mais participada, mas também há muitos projetos ambientais. Há bancos alimentares intra-escolares, mantas para distribuir pelos sem-abrigo. Roupa e cabazes alimentares existem muito. A obesidade tem muitos projetos sociais a combatê-lo, se calhar podemos diminuir, já o envelhecimento não. Estamos a viver mais, mas não nos preparámos em paralelo para esse aumento de anos de vida com qualidade e acompanhamento. Na população sénior há mais projetos, a igualdade de género está a crescer mais devagarinho.

Isto pode mudar se a educação para a cidadania passar mesmo a disciplina?

Pode e deve, se a disciplina avançar. Estes projetos ajudam imenso. No caso do envelhecimento, uma coisa é um lar de terceira idade receber uma visita mensal das crianças. Outra, distinta, é ter um neto adotivo que me ensina a navegar, a criar facebook a encontrar os meus amigos de outrora por via disso. No ano passado, por exemplo, numa escola em Ourém, houve um projeto muito engraçado em que os alunos estavam a empreender um processo de literacia dessas pessoas mais velhas, que nunca souberam escrever. No entanto, por terem de fazer a inserção de passwords e de moradas começaram a saber inscrever-se num teclado. Criaram relações de afeto que eles, jovens, nem esperavam criar.

Essa escola, por exemplo, voltou a participar este ano?

Voltou. Com alunos do ano passo e outros, novos, do quinto ao 12º anos. Estes projetos acabam por ser uma transformação nesta criança, que saiu da zona de conforto para fazer algo por quem não conhece. É preciso acabar com a mentira de que ‘há um problema, mas sozinho não faço nada’!. Não pode ser. Se eu estiver sozinho e não fizer nada, não acontece nada. Isso cria um impacto enorme. Esse é um dos temas que eu converso com eles.

Num universo de 1900 escolas, conta com quatro centenas…

O meu universo são essas 1900 escolas. No ano letivo passado não cheguei às ilhas, este ano sim. Se o meu projeto é digital, não há razão para não chegar ao Burundi (risos). Há equipas classificadas em todos os distritos e isso é muito bom, é dinamizador das outras escolas. Estou nas 433 e quero chegar às 1900, e tenho o secretário de Estado e a direção-geral a dizerem ‘bora lá’.

Há apoios financeiros desses quadrantes?

Não há apoios financeiros nem fundos comunitários, mas há apoio institucional.

Este é o projeto no qual a Margarida está mais envolvida, mas que outros vão prender a sua atenção a breve trecho?

Temos vários projetos em simultâneo ao nível da Fundação EDP é o EDP Solidária – um fundo para a educação social, saúde e educação e que investe no pais 2 milhões e 100 mil euros por ano, dependendo diretamente do diretor-geral, Miguel Coutinho. Mas na inovação social temos o projeto de arte pública que transforma a economia local através da arte, em que levamos artistas consagrados a desafiar novos artistas para transformar as zonas em abandono. Temos as orquestras Energia, inspiradas na orquestra geração da Venezuela, que convocam alunos em abandono escolar, recuperando-os pela pertença a uma família que é uma orquestra.

Em que fase está o projeto de arte pública?

Tem já 78 pontos intervencionados, nas quatro zonas em que estivemos presentes: Algarve, Campo Maior, Trás-os-Montes e Ribatejo. Queremos mapear Portugal com uma rota de arte pública como rota dos vinhos, do queijo, dos castelos. Dinamizaremos a economia local se pusermos determinada terra no mapa. A EDP tem, obviamente, a maior tela artística ao ar livre do pais, com os postos de transformação e estamos a crescer para Braga e Vila Nova da Barquinha. Esse crescimento é faseado porque tem custos, mas não tem fim a vista. As escolas solidárias não tem fim à vista, mas tem objetivo de manter e conquistar os quase ¾ que faltam.

Imagem de destaque: Jorge Amaral/Global Imagens

SUBSCREVER

Subscreva a newsletter e receba semanalmente todas as noticias de forma confortável

packshot_site

APP DELAS

Aceda por telemóvel, smartphone ou tablet as notícias, informações, num ambiente atrativo e intuitivo, compatível com o seu equipamento.

Appstore Googleplay

Jimmy P: “Sou um exemplo de que os sonhos po…