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Diretora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto recebe prémio D. Antónia

Maria Amélia Ferreira recebeu esta terça-feira o prémio Consagração de Carreira D. Antónia Adelaide Ferreira. O prémio é atribuído anualmente a mulheres que se distinguem pelo seu papel no impulso da condição feminina e no desenvolvimento da sociedade portuguesa, à imagem do que foi a Ferreirinha, a mulher que conseguiu lutar contra o monopólio inglês dos vinhos do Porto e que nunca recuou nos negócios numa época – o século XIX – em que ser mulher era, em muitas dimensões da vida civil, um impedimento por si só.

Considero que ser mulher é uma mais-valia para as funções que desempenho“, disse, ao Delas.pt, Maria Amélia Ferreira, a diretora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto agraciada esta noite. “As mulheres têm normalmente mais competências sociais e empatia pelos outros. Tenho de me por no lugar dos outros para conseguir fazer o meu trabalho.” Ainda assim reconhece que “ainda temos um longo caminho a percorrer em termos de igualdade de género”.

Maria Amélia Ferreira ostenta o mesmo apelido e, provavelmente, a mesma tenacidade de D. Antónia. Licenciou-se em Medicina em 1978, prosseguiu os estudos científicos tornando-se doutorada em 1985, em 1993 tornou-se Professora Catedrática da Faculdade que hoje comanda. Em 2014 quando tomou posse inscrevia o nome na História como a primeira mulher a dirigir a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

 

Na FMUP, Maria Amélia Ferreira operou uma reforma significativa. 2017 é o quinto ano desse processo em curso que pretendeu humanizar o ensino da medicina, aplicando as orientações internacionais. “Mantemos o espírito científico do curso, a excelência da instituição e introduzimos a vertente das Humanidades para termos melhores médicos e melhores seres humanos.” As competências da comunicação, que vão desde saber como falar com um doente sobre as terapêuticas possíveis ao anúncio do falecimento de um parente, são agora trabalhadas durante o curso de cinco anos que Maria Amélia Ferreira diz ser curto: “É pouco tempo para aprender tudo”.

A par das competências de comunicação, a renovação do curso passou também pela adaptação à realidade demográfica de Portugal. “Com a explosão do envelhecimento é preciso dar mais atenção a matérias como os cuidados paliativos, os continuados, e a nutrição.” O projeto de Maria Amélia Ferreira é tornar os médicos “agentes de mudança” da sociedade e reforça “o plano de ação de humanização da educação da saúde é inadiável.”

A par da carreira académica, Maria Amélia Ferreira é, desde 2012, provedora da Santa Casa da Misericórdia de Marco de Canaveses, promovendo a aproximação entre as duas instituições, com vários projetos multidisciplinares que combateram a crise junto das populações carenciadas. O trabalho em rede é, de resto, um dos apanágios desta médica: “Estou a otimizar as ligações que podem existir, a criar redes de partilha. Quando se orienta instituições como estas, que envolvem o ensino do cuidar e prestar cuidados às populações temos de articular os conhecimentos para humanizar.”

Sobre o prémio que recebeu esta terça-feira, Maria Amélia Ferreira afirma, em declarações exclusivas ao Delas.pt, “é um prémio muito simbólico para quem é mulher e para quem é do norte. Revejo-me muito na figura de D. Antónia, na forma como procurou o seu lugar na sociedade e dos legados que deixou. Deixou um legado material, conhecido, relacionado com o Vinho do Porto, mas um legado imaterial muito importante, na defesa dos mais desprotegidos, financiando escolas, e no apoio que deu, no seu tempo, à cultura.

Carla Macedo