Quando ter dores menstruais é sinal de doença

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“Ter dores quando se tem a menstruação não é normal”. Quem o diz, de forma assertiva, é Susana Fonseca. Para a presidente da MulherEndo-Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose é importante fazer a distinção e lembrar que “o normal é a mulher sentir algum desconforto e estar mais resguardada, o que é muito diferente de se ficar incapacitada ou de ter de alterar a rotina”, sublinha a mesma responsável.


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Considerada uma das principais causas de infertilidade no mundo, a endometriose é uma patologia de diagnóstico difícil e que se carateriza pela presença e crescimento de tecidos similares ao endométrio – que reveste o útero – noutras zonas do corpo como os ovários, a região pélvica, o abdómen, a bexiga ou os intestinos, provocando dores muito fortes e facilmente confundíveis com as conhecidas cólicas menstruais.

A endometriose é uma doença “desconhecida” das mulheres e é, “de um modo geral, desvalorizada pela classe médica”, afirma a presidente da MulherEndo.

Não há dados absolutos sobre o número de portuguesas em idade fértil a sofrer da doença, mas há estimativas que antecipam a dimensão do problema. “Não há nenhum estudo português que especifique a incidência, mas, de acordo com um pequeno levantamento que foi feito, estima-se que a endometriose atinja uma em cada dez mulheres em idade fértil”, afirma Susana Fonseca, presidente da MulherEndo. Contas feitas, esta é uma doença que atinge mais de 240 mil mulheres portuguesas entre os 15 e os 49 anos (idade fértil), de acordo com cálculos que tiveram por base os Censos de 2011 e respetiva atualização de resultados de junho do ano passado.

“Muitas mulheres pensam que ter dores menstruais é normal e julgam que, queixando-se, estão a ser piegas”, diz Susana Fonseca

Num país onde a endometriose é uma doença “desconhecida” do sexo feminino e é “de um modo geral, desvalorizada pela classe médica, sobretudo por homens médicos”, a presidente da associação também não exclui as próprias mulheres como inimigas na identificação deste problema. “Muitas pensam que ter dores menstruais é normal e julgam que, queixando-se, estão a ser piegas”, refere a responsável. Por isso, Susana Fonseca vinca a importância de se estar atenta aos sintomas: “Para lá da dor menstrual forte, há que prestar atenção sempre que há dores nas relações sexuais, obstipação e prisão de ventre, dificuldade em urinar na altura do mês em que se está menstruada.”

Mitos em torno da endometriose

Pílula e gravidez são, muitas vezes, apontadas como razões para o controlo da doença. Susana Fonseca, porém, deita por terra todos esses argumentos que classifica de “mitos”. “A pílula até atenua sintomas nos primeiros tempos, mas depois deixa de ser suficiente porque a doença progride”, avisa a responsável, que acautela o facto de se tratar de um problema muito variável de mulher para mulher.

“Primeiro tratar da doença e só depois partir para uma gravidez”, afirma Susana Fonseca

“É a maior causa de infertilidade em todo o mundo e e existe o mito de que a gravidez cura, o que também não é verdade”, sustenta Susana Fonseca. A presidente da associação admite que “durante nove meses, o período de gestação, a doença fica adormecida”, mas a mesma pode regressar após o parto e “com muito mais força”, refere, alertando ainda para o facto de “os tratamentos de fertilidade agravarem, em muito, a doença.” Portanto, a recomendação que esta responsável deixa passa por “primeiro tratar da doença e só depois partir para uma gravidez”.

Como tirar todas as dúvidas?

A associação dispõe de um site onde é possível tomar contacto com a patologia e conhecer melhor os sintomas, os riscos e os primeiros cuidados a ter. Mas Susana Fonseca explica, também, que têm sido feitas “palestras em escolas, universidades e eventos e que já se começa a notar que as mulheres estão mais despertas para esta realidade”.

Em Portugal, refere Susana Fonseca, há dois centros de referência já muito vocacionados para lidar com mulheres que tenham endometriose. “Há uma equipa no Hospital de Santa Maria e também há médicos especializados no Centro Materno-Infantil”, refere a presidente da MulherEndo.

Fora de Lisboa e arredores, Susana Fonseca assegura que “por todo o país, de um modo geral, vão existindo médicos pioneiros que já começam a realizar laparoscopias diagnósticas (exame exploratório que tem por base a observação da cavidade abdominal) em vez de cirurgias que, muitas vezes, servem apenas para confirmar o diagnóstico e que acabam por significar recursos mal gastos”.

Cada vez mais – prossegue a mesma responsável – “os médicos fazem cirurgias às pacientes depois de já saberem, por laparoscopias, ressonâncias, ecografias e outros exames o que vão operar”. Ainda assim, a cirurgia pode não ser a resolução absoluta do problema. “Quando as cirurgias são bem realizadas, a possibilidade de recidiva é menor, mas, há quatro ou cinco anos, dizia-se que havia uma possibilidade de 5% de a doença voltar a manifestar-se”, recorda a presidente da associação. Mediante uma patologia que “tem formas cada vez mais agressivas de se manifestar”, Susana Fonseca alerta ainda para o facto de a endometriose – e consequente cirurgia – “levar ao risco de comprometer alguns dos órgãos, sobretudo nos casos da bexiga e do intestino, e tudo depende da extensão do problema”.

Com marcha marcada em Lisboa e com médicos especialistas presentes que vão poder esclarecer e tirar dúvidas, é tempo de perguntar: vai continuar a achar que é “piegas” ou admite a possibilidade de ir procurar algumas respostas já no próximo fim de semana?

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