“Quero que cresçamos juntas e fiquemos ricas juntas”

Marsha Firestone

A norte-americana Marsha Firestone decidiu criar, em 1997, uma organização que ajudasse a acelerar o crescimento de grandes negócios liderados por mulheres. Não tinha muito dinheiro na altura, mas tinha perseverança. E foi daí que nasceu a Women Presidents’ Organization (WPO).

Hoje, 19 anos depois, já mudou a vida a milhares de mulheres. A WPO conta com mais de 1900 membros, espalhados pelos seis continentes. Todos os meses se juntam em pequenos grupos nos diversos países em que têm filiais e investem parte do seu tempo e energia em si e nos negócios, tudo para que as empresas cresçam e alcancem níveis superiores. Para a fundadora da WPO, isto é um verdadeiro sonho tornado realidade.


Leia também o artigo: As gurus dos negócios liderados por mulheres em Portugal


 

Por que decidiu criar a WPO?
Estava a trabalhar numa organização chamada American Women’s Economic Development Corporation (AWED), era a vice-presidente de training e sabia que existiam muitos programas para as startups e negócios recentes, mas nada para mulheres cujos negócios já tinham algum sucesso. Então falei com a presidência da AWED e disse-lhes que se me tornassem presidente eu começava a Women Presidents Organization. Eles não me ouviram e eu fui devastada para casa. O mentor com quem comecei na AWED, depois de muitas chamadas telefónicas e de eu me ter queixado muito, disse-me: “Pare de se queixar e faça-o você própria.” Queria fazer limonada sem ter limões.

O que a tornou na líder que é hoje?
Como muitas mulheres, eu nunca tive uma carreira, nunca tive um trabalho em que pudesse dizer: “Se começar aqui vou acabar ali.” Tive muitos trabalhos diferentes, cada um deles deu-me oportunidade de aprender novas habilidades e eu precisei dessas habilidades para avançar com o meu negócio. Por exemplo, fui presidente de uma instituição educacional e aprendi como se consegue chamar a atenção dos estudantes. Essa informação ajudou-me, ao longo do caminho, a recrutar membros para a WPO. Hoje temos 1900 membros em 6 continentes e 10 países.

Esperava que a WPO crescesse tanto?
Não, é um sonho tornado realidade para mim. Não planeei que fosse desta forma.

O que é necessário para fazer parte da WPO?
Tem de ter um negócio e ser você a dirigi-lo. Pode ser a presidente, a CEO ou diretora e ter diversas partes interessadas. Não definimos quantas porque queremos é que as empresas tenham cada vez mais investidores. E tem de ter um mínimo de receitas por ano.

Tem noção de que já mudou a vida de milhares de mulheres?
Sim, é o que elas me dizem. Em muitos casos, elas dizem-me que a WPO as salvou de alguns problemas terríveis, aprenderam a fazer as suas empresas crescer. Nós fazemos um estudo todos os anos para ver quanto cresceram as empresas dos nossos membros. No último ano, 67% dos nossos membros viram o seu negócio crescer depois de se juntarem à WPO. É muito bom.

Quais os maiores desafios que tem enfrentado enquanto presidente da WPO?
No início eu não tinha dinheiro suficiente, mas tive muita sorte porque um amigo com quem estava a viajar para Harvard virou-se para mim no avião e perguntou-me: “Quanto dinheiro tens para arrancar com essa organização?” e eu respondi: “Zero.” Ele deu-me um cheque de 10 mil dólares [8907 euros] e disse a uma amiga nossa que estava connosco no avião para também me dar 10 mil dólares. A Geraldine disse: “Ok, eu vou ser o teu banco. Sempre que precisares, diz-me.” Eu nunca precisei, mas estava preocupada porque não tinha dinheiro suficiente, não tinha dinheiro para investir num relações públicas. Então criámos o nosso próprio departamento de relações públicas. Tínhamos também o desafio de haver uma organização em Nova Iorque a tentar copiar-nos. Primeiro eles entraram na WPO como membros, tiveram acesso a todas as nossas informações e no final de dois anos como membros e criaram uma organização utilizando exatamente o mesmo discurso que nós usávamos. Esse foi um problema com o qual foi muito difícil de lidar, mas aprendi que o que nós dávamos era de tão boa qualidade que sobreviveu e ia ficando cada vez melhor.

O que foi mais importante no início?
Criar um modelo que fosse único e eficiente. Conseguimos isso, temos um modelo de educação para os negócios. Usamos este modelo porque achamos que é a melhor forma de as mulheres que têm os seus próprios negócios aprenderem. Os adultos aprendem melhor quando conseguem determinar o que vão aprender, quando vão aprender e como vão aprender. Usamos esse modelo de aprendizagem para adultos. Não temos um programa que diga: “Isto é o que deve fazer na segunda, isto é o que deve fazer na terça.” Temos é os outros membros do grupo a partilhar as suas especialidades e experiências com outras mulheres. Nós falamos de aprendizagem entre pares, é disso que se trata.

As mulheres continuam a ser descriminadas no mundo dos negócios?
Não gosto de usar a palavra descriminação. Em 1998, nos EUA, não tínhamos um grupo de mulheres que geriam os seus próprios negócios mas sim oficiais do governo, líderes de organizações sem fins lucrativos e havia quatro coisas a que tínhamos muita dificuldade em aceder para que as mulheres pudessem desenvolver os seus próprios negócios: acesso a crédito, acesso a educação para os negócios – é a WPO –, acesso a apoio jurídico e acesso a novos mercados. Os novos mercados eram provavelmente o fator mais importante porque se não tiver novos mercados não consegue fazer com que o seu negócio cresça.

Na maioria das empresas de tecnologia, por exemplo, a maior parte dos líderes são homens. Por que isto acontece?
Porque a Internet ainda é dos jovens rapazes, eles referem-se uns aos outros. Nós também estamos a construir conexões. As mulheres têm as mesmas oportunidades e referem-se umas às outras, mas ainda não dominam esse campo.

Por que decidiu aumentar a presença da WPO em Portugal?
A mulher do embaixador dos EUA em Portugal é membro da WPO e ela recomendou-nos algumas das mulheres que foi conhecendo. Começámos há dois anos e agora estamos a crescer cá. O encontro que fizemos esta semana [14 de setembro] tinha como objetivo apresentar a organização a mais mulheres que gerem os seus próprios negócios.

O que acha das mulheres portuguesas?
Gosto particularmente delas. São muito calorosas e sabem receber bem os outros. Sinto-me muito confortável aqui. Mas se me perguntar o que eu acho delas nos negócios, penso que deviam ter menos rodeios.

Já teve oportunidade de conhecer as empresas de algumas destas mulheres?
Sim, no encontro que fizemos no outro dia. Não me recordo dos nomes, mas conheci empresas de dezenas de mulheres. Muitas delas reúnem os critérios para entrar na WPO.

O que é preciso para ser uma mulher de negócios de sucesso?
Liderar um negócio é difícil, muito difícil, e nos dias que correm pode tornar-se muito depressivo se as coisas não correrem como estamos à espera. A mensagem que quero deixar é que sigam em frente. Se tiverem uma boa ideia, um bom produto ou serviço precisam de continuar apesar de surgirem um ou dois dias maus. Construir um negócio demora o seu tempo.

Como se mantém o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal?
Penso que você pode ter tudo o que quer na sua vida mas não ao mesmo tempo. Você pode ter filhos, uma casa adorável, divertir-se. Todas estas coisas são possíveis, mas têm de ser feitas separadamente.

O facto de ter tido um mentor nos seus negócios fez diferença na sua vida profissional e pessoal?
Tive muito poucos mentores. Quando eu estava a crescer e a definir objetivos para a minha carreira não tive oportunidade de ter mentores, não tinha modelos a seguir. O que fiz foi falar com diferentes pessoas que respeitava e tirar um pouco de cada um. Foram eles os modelos que segui. Ter um mentor pode ser muito bom se o orientador perceber o negócio de quem está a orientar. Se a colaboração entre ambos não tiver esta base forte provavelmente não vai funcionar.

Que mulheres líderes de negócios é que admira?
Admiro a Marilyn Carlson Nelson, presidente da Carlson; Amy Cuddy, professora na Harvard Business School e que ensina às mulheres como lidar com o poder, e a jovem Nina Vaca, que construiu uma empresa de biliões de dólares. São três exemplos de mulheres que para mim são incríveis.

O que espera para o futuro da WPO?
Quero que cresçamos juntas e fiquemos ricas juntas. Mais países, mais líderes. Quero que a organização cresça e ajude mais mulheres a ficarem ricas, de forma global.

Que mensagem quer deixar às mulheres que pensam juntar-se à WPO?
Serão bem-vindas. Quero encorajá-las a ir também aos nossos encontros anuais. Este ano será em Orlando, na Florida. Venham conhecer mulheres como vocês. Será muito bom.

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