“Quis honrar os transexuais”

A rapariga dinamarquesa

Entrevista com o actor de A Rapariga Dinamarquesa, Eddie Redmayne, que transforma-serepresenta Lili Elbe, o primeiro homem a mudar de sexo. Está nomeado para um Globo de Ouro e vai chegar aos Óscares.
Ganhar um Óscar e, no mesmo ano, estar na calha para mais um. Acontece a Eddie Redmayne, o ator inglês que ficou famoso com o desempenho em A Teoria de Tudo, onde dava vida ao físico Stephen Hawking. Agora está de novo nas bocas do mundo pela interpretação em A Rapariga Dinamarquesa, de Tom Hooper, o relato verídico do primeiro homem – de que há conhecimento – a mudar de sexo.

Redmayne interpreta Einar Wegener, um pintor que, na Dinamarca do início do século passado, mesmo sendo heterossexual, encontrou um desígnio interior de se transformar em mulher, ficando, ao mesmo tempo, modelo feminino para posar para a mulher, a também pintora Gerda Wegener. A interpretação é a todos os títulos notável, não sendo de espantar a recente nomeação para os Globos de Ouro e a mais do que provável nomeação para o Óscar. Um ator camaleão que já antes de A Teoria de Tudo andava a prometer grandes coisas.

“Comecei por pegar nesta personagem através dos meus encontros com pessoas da comunidade transexual para ouvir as suas histórias”, disse em setembro, em entrevista num hotel de luxo em Veneza, na Mostra de Cinema daquela cidade. “A bondade dessa gente e a sua necessidade de serem absolutamente transparentes espantou-me! Tinham uma vontade enorme de me educar… Ajudaram-me imenso, sobretudo ao explicar-me como é aquele momento vital da transição. Uma delas explicou-me também o que é isso do período de hiperfeminização. Isso foi muito importante para a minha composição, sobretudo naqueles momentos em que a Lili está a tentar passar por mulher e nem sempre resulta. Fascinou-me também a questão da vida sexual destas pessoas e como todo o processo da mudança de sexo alterava tudo. Quis encontrar a verdade nesses momentos.”

24 horas após a estreia mundial, Redmayne, confessa que ainda está abalado com o filme. Ainda não o tinha visto, na verdade. “Sinto sempre medo antes de fazer qualquer filme, mas aqui o que senti, acima de tudo, foi uma sensação de privilégio em poder contar a história da Lili. O ator conta que Lana Wachowski, ex-Larry Waschowski, realizador de Matrix, foi uma inspiração.”

Lana é o caso mais famoso de mudança de sexo em Hollywood e dirigiu Redmayne em Ascensão de Júpiter, delírio sci-fi que se tornou um dos grandes fracassos do ano. Mas, acima de tudo, a preocupação do ator com a imprensa é dizer que dois papéis de transformação física seguidos são apenas coincidência. Sabemos que é verdade: Tom Hooper já tinha pensado nele há muito tempo e antes de ‘A Teoria de Tudo’, Eddie já tinha recebido este guião.

Mas a fasquia também estava bem alta, neste caso. “O meu medo passava pela responsabilidade de interpretar um ícone para uma comunidade e honrar todos os transexuais que me contaram a sua história e me deram o seu tempo. Quis muito agradar a toda essa gente. Além disso, os meus medos passam também por saber que isto é um filme e que convém faturar para ser pago… Enfim, tenho sempre milhões de medos. Curiosamente, neste caso, quando interpretei a Lili todos os medos se evaporaram.”

Do cabelo às unhas, das sobrancelhas aos pelos púbicos, nada foi deixado ao acaso para o filme. De alguma forma, Eddie experimentou entrar dentro do universo feminino. E teve de encontrar o seu lado feminino também. O desafio passava por aí. Por isso pediu ajuda à mulher (casou-se recentemente). “Ela foi de uma ajuda incrível! Dei-lhe a ler o guião e achou que se tratava de uma história linda. Penso que ficou tocada pela história de amor.” O ator tem algum cuidado com as palavras.

Já se apercebeu de que tem todos os holofotes apontados para si, especialmente agora que também ganhou o papel principal de Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los, fantasia de David Yates, baseada num argumento de J.K. Rowling que retoma o universo de Harry Potter. No próximo outono será necessariamente o ator mais exposto no caleidoscópio de Hollywood.

Mesmo com todos os cuidados, diz que não se tornou um especialista no assunto da mudança de sexo mas garante que não há nenhuma história de transexual igual a outra. “Todas são diferentes, embora haja elementos que liguem estas pessoas.
É preciso ter em atenção que o nosso filme é baseado em The Danish Girl, um livro de David Ebershoff, que ficciona a vida de Gerda e Lili. Mesmo assim quis conhecer muitas pessoas desta comunidade, sobretudo transexuais mais velhas, que acabaram por enfrentar mais discriminação.

Com toda essa informação quis perceber o que era capaz de encontrar em mim mesmo.
Até porque era uma pessoa muito ignorante no que toca a este tema antes de fazer o filme e agora aprendi muito, apesar de já ter feito Noite de Reis, a peça de Shakespeare, na qual representava um homem que representava uma rapariga a representar um homem… As questões do género remontam à antiguidade, isso é maravilhoso, não é? O género é algo fluido e isso deveria ser celebrado. Identifico-me muito com algo de que o filme fala, aquilo de descobrirmo-nos a nós próprios – tem que ver com sermos autênticos, verdadeiros connosco.”

Eddie Redmayne fez-se notar por conseguir estar presente em mais do que um mercado: batalhou na Austrália em 2006 no thriller Mentes Mortais e, mais tarde, tentou o cinema indie americano com títulos como Fuga para Las Vegas, de Dereck Martini e o perturbante Desejos Selvagens, de Tom Kalin, onde tinha cenas de sexo com Julianne Moore, a sua mãe nesse filme. A partir daí, o seu rosto marcante ficou marcado. Marcado pela positiva, entenda-se. Mas só depois de A Teoria de Tudo é que conseguiu ter aquele privilégio dos atores de topo: escolher os papéis. Antes era escolhido.

Qual é então agora o critério para aceitar um filme? “Escolho com o instinto. Antes tinha de fazer audição para tudo, mas também aí escolhia. Era em função dos nomes que já estavam confirmados para cada projeto.” Mas as coisas mudam com o Óscar. Ou não? A resposta chega de chofre: “Nada! Eu tive de vir direto do avião para a rodagem deste A Rapariga Dinamarquesa, nem respirei! Fui logo rodar uma das cenas mais brutais do filme! Nunca mais pensei no Óscar, concentrei-me logo em Lili. A sério, a minha vida não mudou assim muito. O que é bom é que comecei a ter mais opções. Todos os atores estão numa lista e o nosso valor é em função do mercado. Às vezes estamos no topo dessa lista, outras vezes lá em baixo. Daqui a uns tempos não estarei lá no topo…”

Neste ano, Eddie Redmayne será quase certamente nomeado outra vez para o Óscar, mas ao contrário do ano passado o favoritismo não está do seu lado. Dois atores parecem correr adiantados para o discurso de melhor ator no final de fevereiro: Leonardo DiCaprio (The Revenant – O Renascido) e Michael Fassbender (Steve Jobs). As chances são mais diminutas por causa do efeito repetição.

Se não tivesse vencido no ano passado por A Teoria de Tudo, teria mais hipóteses.
Perto de ser nomeado está também Matt Damon pela transformação física num esfomeado astronauta da NASA em Perdido em Marte.
Bryan Cranston a fazer de vítima da Lista Negra do senador Joseph McCarthy em Trumbo e Johnny Depp como gangster verdadeiro em Black Mass – Jogo Sujo também devem entrar na disputa.

 

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE LILI

Lili Elbe nasceu Einar Wegener, na Dinamarca, no início do século xx, e casou- -se com uma colega de curso, a pintora Gerda. Como o filme documenta, de forma acidental, Einar posou uma vez com roupas femininas e sentiu uma revelação interior – o seu corpo estava com o sexo errado. Em 1930 e 1931 foi operada quatro vezes para mudança de sexo (no filme é tudo mais abreviado), morrendo posteriormente por complicações de saúde resultantes do transplante de útero.
Tinha 49 anos.
O facto de Lili ter sido uma das primeiras pessoas a mudar de sexo deu-lhe uma fama de culto entre a comunidade transexual.
Lili terá sido a primeira pessoa que mudou de sexo a receber um passaporte e nova identidade.
Em 1930 o próprio rei da Dinamarca anulou o seu casamento com Gerda.

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