Raparigas designers; elas existem mas são menos. Porquê?

Ou aparecerão menos? Será uma questão de visibilidade e notoriedade? No dia 10, Dia de Portugal, publicámos um artigo sobre design nacional, e em 10 designers publicados não havia uma mulher sequer. Podemos falar-lhe de razões de logística, ou de como já tínhamos publicado artigos onde só falávamos delas.

Mas a razão maior daquela ‘lacuna’ foi o facto de quando comparados os números de nomes já relevantes nos mercados, no nacional e no estrangeiro, são mesmo menos as raparigas designers portuguesas que aparecem a trabalhar sozinhas.

Há várias, muitas até, mas quase sempre inseridas num grupo ou como parte de uma parelha onde o outro é um homem.

E isto não é culpa nossa.

Sabíamos que seríamos questionados sobre o assunto, e este artigo, que lê agora, começou a ser gizado ainda antes da sua contraparte masculina ter ido para o ar. E aconteceu o mesmo que no artigo anterior; porque cada rapariga designer que se encontra, há dois rapazes designers na balança laboral.

Falámos com 5 mulheres designers para tentar escrutinar o assunto, e por nós ficamos esclarecidas: nas turmas dos cursos de design ou o rácio de género é equilibrado, 50/50, ou a percentagem de raparigas é mesmo mais alta. Mas na vida profissional esta presença feminina esbate-se e os homens têm mais notoriedade. Mas deixemo-las contar-nos porquê.

Cláudia Melo

Lembra-se do rácio raparigas/rapazes durante o seu curso? Mais ou menos 60% raparigas e 40% rapazes.

Acha que esse rácio se manteve na passagem para a vida profissional? Acho que há mais homens designers e com notoriedade que mulheres, ou então são multigénero, só mulheres há muito poucas.

Se a houver, que razões encontra para essa disparidade? Acho que esta industria ainda é gerida por uma maioria masculina onde ainda há alguns preconceitos em relação ao papel da mulher como designer.

Existem prós e contras em ser-se mulher designer, em Portugal, nestes tempos? Sim, mas acho que é uma situação mundial. Há muitos mais designers conhecidos homens do que mulheres, é como os chefs de cozinha, são maioritariamente homens. Acho que é uma área recente onde as mulheres ainda não tiveram espaço de ser afirmar. Como disse há pouco, está muito relacionado com a indústria que é um sector quase 100% masculino. Temos de caminhar bastante para termos mais reconhecimento e aceitação.

Susana António

Lembra-se do rácio raparigas/rapazes durante o seu curso? O rácio entre raparigas e rapazes no meu curso de Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa era cerca de 1/3 de raparigas.

Acha que esse rácio se manteve na passagem para a vida profissional? Sinto que as gerações femininas antes de mim tinham uma diferença de género ainda mais marcada e tiveram de lutar bastante pelo seu lugar entre os homens. Mas as mulheres estão a ganhar espaço pouco a pouco, através da qualidade do seu trabalho e da sua constância. Por outro lado, o mundo mudou e hoje em dia podemos ser quem quisermos e não preencher as expectativas que os outros têm para nós. Neste momento talvez o rácio de 1/3 se mantenha, mas está a ficar cada vez mais equilibrado.

Se a houver, que razões encontra para essa disparidade? O que acontece é que os caminhos profissionais artísticos são um pouco uma escolha de kamikaze para a sociedade, e muito concretamente para as famílias. E talvez antigamente ir contra a vontade dos outros e das expectativas que os outros tinham para nós era uma atitude mais masculina, e por isso as raparigas faziam mais vezes aquilo que era esperado delas. Hoje em dia, quer sejamos mulher ou homem, apenas queremos ser fieis às nossas convicções, sonhos e missão de vida e por isso vamos à luta por elas, pensando primeiro em nós e só depois naquilo que os outros projetam para nós.

Existem prós e contras em ser-se mulher designer, em Portugal, nestes tempos? Tudo na vida tem prós e contras, cabe-nos a nós usar de modo inteligente esses dois lados da moeda, adaptando-os ao resultado que pretendemos. Ser mulher numa mesa de negociação de homens pode ser intimidante, mas por outro lado, aquele que é diferente tem algo mais que os outros não têm e pode fazer com que isso jogue a seu favor. O que acontece é que socialmente algumas mulheres têm pudor em mostrarem-se líderes, defender um ponto de vista mesmo que isso crie algum confronto ou mesmo dar um murro na mesa. É preciso cada vez mais ter mulheres como role-models em cargos e carreiras profissionais de destaque para que inspirem as raparigas que estão a iniciar a construção do seu futuro.

Ângela Frias

Lembra-se do rácio raparigas/rapazes durante o seu curso? Não posso ser precisa mas tenho ideia que o rácio entre raparigas e rapazes durante o meu curso de Arquitectura era 50/50.

Acha que esse rácio se manteve na passagem para a vida profissional? Se na sociedade atual houver ainda alguma disparidade entre os géneros é porque é recente o papel ativo da mulher na vida profissional. Na área de arquitetura podemos perceber isso se analisarmos a notoriedade, por exemplo, ao nível dos prémios Pritzkers de Arquitetura, onde apenas duas mulheres o receberam, Zaha Hadid e Kazuyo Sejima.

Se a houver, que razões encontra para essa disparidade? A questão da desigualdade de género esta cada vez mais ténue nas sociedades atuais modernas. Com o desenvolvimento das democracias ocidentais esta distinção tende a desaparecer, as mulheres são ativas a nível profissional e o nível de reconhecimento começa a ser igualmente notório. Obviamente não me refiro a sociedades em que infelizmente por diversas razões culturais a mulher ainda não desempenha um papel ativo.

Existem prós e contras em ser-se mulher designer, em Portugal, nestes tempos? Na atividade de Arquitectura e Design há imensas referências modernas de renome feminino que se deveriam mencionar, como Eileen Gray, Lilly Reich, Charlotte Perriand, Ray Eames e Lina Bo Bardi. Atualmente e cada vez mais existem excelentes exemplos de mulheres com trabalhos reconhecidos nível Mundial, na verdade é igual, o que conta é a pessoa e não o género. Na cultura Portuguesa, enquanto arquiteta e designer, nunca me senti ameaçada pelo facto de ser mulher, penso que essa questão não tenha tido alguma relevância na aceitação do meu trabalho.

Eneida Lombe Tavares

Lembra-se do rácio raparigas/rapazes durante o seu curso? Creio que era sensivelmente 50/50.

Acha que esse rácio se manteve na passagem para a vida profissional? Infelizmente perdi o contacto com muitos dos meus colegas de curso, portanto não sei o que andam a fazer. Mas sei que se falarmos no design de autor encontro, dentro do que conheço, mais eles que elas. Basta ler-se os nomes que compõem algumas exposições coletivas a nível nacional. Quanto ao design mais ligado à indústria tenho algumas dúvidas que essa diferença se mantenha, e conheço algumas, mas esses nomes são mais invisíveis.

Se a houver, que razões encontra para essa disparidade? Quem é que legitima essa notoriedade? E quais os meios que a transmitem? Se os meios forem em si exemplo de diversidade, as escolhas também o serão naturalmente. Na minha opinião a notoriedade pode ter vários formatos. Há profissionais da minha geração e não só, a produzir trabalho muito interessante com notoriedade via web, e “cá fora” nem tanto. Haverão outros cuja notoriedade chegou a um nível, que lhes permite não ter site, e nem precisar de um. Há aqueles que terão notoriedade quando chegarem aos 40 anos de profissão, e os que a alcançarão mais cedo, homens ou mulheres.

Existem prós e contras em ser-se mulher designer, em Portugal, nestes tempos? Existem prós e contras em ser-se designer. Independentemente do género. Creio que a discussão deveria ser em torno da profissão em Portugal. Na minha experiência pessoal foram mais as vezes que me senti incluída que o contrário. Ser-se mulher ou homem não pode ser uma condição ou requisito.

Margarida Valente

Lembra-se do rácio raparigas/rapazes durante o seu curso? Não fiz licenciatura em design. Mas penso que como em qualquer área profissional, no design também se sente diferença entre o trabalho de um homem e o de uma mulher, apesar de forma mais atenuada, nos dias de hoje. Da minha experiência pessoal, talvez pelo meu trabalho ter sido sempre conotado com uma vertente “feminina” – pelas cores, materiais e técnicas – a minha entrada no mercado foi feita através dum público que me dá “flexibilidade criativa” e atenua as diferenças entre mulher e homem designer… Apesar de atualmente, estar mais direcionada para a iluminação – onde a cor é praticamente nula pela predominância do branco e das transparências – a forma como os materiais são utilizados, mantêm essa leitura feminina… Mas, talvez a paixão de criar, muitas vezes, faça com que não nos apercebamos das verdadeiras diferenças…

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