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Ricardo Negro: “No Brasil, temos de aprender a transformar a nossa realidade”

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“Retratos do Brasil” é o projeto da Havaianas que pretende mostrar ao mundo aquele país através de colaborações com artistas.

Ricardo Negro aceitou o desafio e três das suas telas foram impressas nos chinelos mais famosos do mundo. O artista paulista cresceu no Grajaú e desenvolveu todo o seu trabalho em torno das periferias brasileiras, mostrando-as através da sua arte. Estivemos com Ricardo Negro, de 29 anos, no Porto para saber mais sobre as realidades que pinta e ficámos a conhecer um Brasil bem diferente daquele que surge nos postais.

“Retratos do Brasil” por Ricardo Negro, €21,90 cada par.

 

Como foi participar neste projeto das Havaianas?

As periferias são um retrato invisível do Brasil e a Havaianas teve a coragem e a ousadia de o mostrar ao mundo. Foi tranquilo porque era um trabalho que eu já desenvolvia há cerca de sete anos. Eu já fazia este trabalho de pesquisa, viajei por favelas e fui fotografando, depois, num processo de cerca de um ano e meio, dediquei-me à pintura no ateliê. Quando o projeto chegou às mãos da Havaianas já estava bastante maduro e um pouco conhecido também, mas esta colaboração com a marca deu-lhe visibilidade. Procura-se mostrar o que é Brasil, que não é só samba e coisas belas, que tem a periferia também, e apesar de eu a tratar de uma forma bela, revelo que há outras coisas lá dentro.

Porque é que se interessou pelas favelas?

Eu nasci na periferia, no Capão Redondo, no sul de São Paulo, depois fui para o Grajáu. Toda a minha infância foi na periferia, tenho muitas memórias de criança. A primeira vez que pintei uma tela foi intuitivamente sobre este tema. Na faculdade, num concurso de pequenos formandos, podíamos inscrever três trabalhos e eu participei com três ‘telinhas‘ de 20 por 20. Pintei uma só de casinhas, outra com casinhas e prédios e uma terceira com papagaios de papel. Um destes trabalhos foi para a exposição e, no final, disseram-me que eu não tinha ganho o prémio porque tinha pintado favelas e aquilo mexeu comigo. Dentro daquelas casinhas também há pessoas e histórias para contar.

Que histórias são essas?

Histórias de pessoas como eu, de pessoas que correm atrás, que lutam, que passam por muitas dificuldades, pessoas como a D. Maria, que acorda cedo para atravessar a cidade para limpar a casa de alguém. Pessoas como o Ronaldinho, que vem dum lugar simples e hoje é conhecido em todo o mundo. E tantas outras de pessoas que conquistam coisas dentro de uma realidade muito difícil. Nós temos que respeitar isso, é algo muito sério.

Para si esse é o Brasil mais brasileiro?

É isso mesmo, é um Brasil mais brasileiro e que muitas vezes é mascarado.

É por isso que no Brasil gostam tanto do carnaval, por se poderem mascarar e serem alegres?

As pessoas quando pensam no Brasil pensam em Copacabana, mas há muito mais. Há a favela da Rocinha, a Cidade de Deus… que são lugares lindos também, com pessoas especiais. E o mesmo acontece com São Paulo, onde há o Grajaú, que nunca é retratado porque dizem que é muito perigoso, mas não é… eu cresci lá e estou aqui. Há lugares lindos dentro do Grajáu, podia haver muito turismo lá.

Fotografia: Miguel Proença

O que é que se aprende quando se cresce nesses lugares que não mostrados nos postais?

Aprendemos a respeitar o próximo, porque todos conhecemos as dificuldades que temos para estudar, por exemplo. Eu demorava duas horas para ir para a faculdade de artes, o tempo que gastei para vir de Londres até Portugal era o que eu precisava diariamente para ir para faculdade. Por vivermos essas dificuldades aprendemos a valorizar e a respeitar o próximo.

Como é que nasceu o seu interesse pelas artes?

Nasceu do grafitti, comecei por aí. O meu pai foi várias coisas. Quando ele se casou com a minha mãe, trabalhava numa metalúrgica, era eletricista e arranjava frigoríficos, fazia muitas coisas e, num período da vida dele, tirou fotografias. Em minha casa havia alguns monóculos e eu gostava de olhar para lá e ver as figurinhas que tinham dentro. Anos depois, passei a observar pichações (as frases dos murais) e daí fui para o grafitti e para o hip hop. Aos 12 anos, fiz o meu primeiro grafitti. Aos 18 anos, já tinha feito uma curso profissional de administração para começar a trabalhar, mas depois percebi que não era nada disso que queria. Até já tinha trabalhado no tribunal regional de São Paulo. Tinha que me apresentar todo arrumadinho, não gostava nada, mas era uma experiência.

Como é que se ganha coragem para largar tudo e arriscar?

Ousadia e amor. É amor. O grafitti era algo que gostava de fazer e via-me a ensinar o que tinha aprendido na rua. Então, quando pensei no que ia fazer da da vida, achei que dar aulas de artes era uma boa ideia e entrei na faculdade. Não queria ser artista, queria ter umas aulas, já pintava e queria ter uma graduação. Na faculdade, quando comecei a ter aulas de História de Arte fiquei fascinado, e aí é que percebi que queria ser artista.

Também dá aulas de arte, como e que se ensina algo que é tão pessoal aos outros?

Deram-me a liberdade nas Organizações Não-Governamentais (ONG) de escolher o que queria ensinar. Escolhi que a arte não tem de ser algo bonito, a arte tem ramificações. Podemos comunicá-la de diversas maneiras: pela escrita, pela pintura, pela fotografia. Não é preciso desenhar bem para se ser um artista.

Qual é o papel que a arte tem na vida dessas crianças que vivem na periferia com as dificuldades de que já nos falou?

A arte tem o potencial de nos transformar e de nos formar para a vida. Aprendendo arte, aprendemos história e tantas outras coisas, passando pelo cinema, pela música. A arte amplia o olhar das crianças, elas ficam diferentes quando saem da frente da televisão e entram num livro e começam a imaginar. Isso ajuda-as a transformar a sua realidade. No Brasil, temos de aprender a transformar a nossa realidade… se olharmos para as coisas como elas são realmente vamos ficar tristes. Isto também acontece noutros lugares do mundo, há pobreza em todo o lado e se as pessoas têm de tentar olhar para vida com outra perspetiva, as crianças devem, sobretudo, fazer isso. É responsabilidade dos professores apresentar-lhes esse universo mágico e expandir as possibilidades dentro da cabeça delas.

Fotografia: Miguel Proença

Lembra-se da primeira obra de arte que viu e o que sentiu?

Acho que a primeira obra de arte é a vida, eu observo muito o mundo desde criança. Olhava muito para o céu, essa é a maior obra de arte, o mundo é uma obra de arte viva. Se pensar em si, no seu corpo, em quantas coisas são precisas para estar vivo, o mecanismo do olhos humano é incomparável à mais alta tecnologia… Se nós pararmos para ficar a olhar dez minutos, teríamos milhões de telas para pintar.

O Ricardo numa entrevista disse que pintava sentimentos, como é que isso se faz?

Tento traduzir o que sinto. Num momento em que estou muito feliz pinto com cores vibrantes, por exemplo. Às vezes, o sentimento está expresso através da cor por exemplo. Comecei este trabalho escrevendo frases, depois decidi que não queria mostrar o que estava escrito e comecei a pintar por cima. A arte não tem de ser entendida, tem de ser sentida.

Tanto pelo artista como pelo espetador?

Claro, é preciso sair um pouco do processo mental e sentir mais as coisas.

Acha que o que faz falta ao mundo para ser melhor é sentir mais?

Sim, sem dúvida.

Hoje em dia a periferia já começa a ser conhecida pelos turistas, até porque existem muitos circuitos turísticos dentro da favela. Isso incomoda-o, por ser uma contemplação da pobreza, ou acha que é algo que faz falta para o desenvolvimento destes lugares?

Os turistas vão ver pessoas iguais a eles que vivem em condições diferentes, mas são pessoas na mesma e devem estar agradecidos por isso, por as poderem conhecer. O turismo, de forma indireta, leva dinheiro para a periferia porque leva mais consumo para lá, e por isso é muito importante. O turismo também pode ajudar a expandir a arte das periferias, que é tão boa como a que é exibida em museus. Há muitos artistas que, de lá, vão estudar fora e depois voltam para a sua comunidade e fazem a sua arte nesse espaço.

Porque é que voltam?

Porque sabem que nestes lugares há muita carência de cultura e é da responsabilidade de quem tem mais formação, partilhar o que sabem com sua comunidade.


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Margarida Brito Paes