Rita Redshoes: “Idealizava e idealizava-me muito, hoje sou muito mais real”

Lisboa , 07/11/2016 - A cantora Rita Redshoes, fotografada esta tarde na sede da editora Universal, depois duma entrevista ao Delas.pt
( Gustavo Bom / Global Imagens )

Desde 2012 que a urgência de abordar se vinha a desenhar como matéria-prima para a criatividade, mas só em 2016 a experiência e a maturidade trouxeram a capacidade de trabalhar de forma “consciente” e “construtiva” as questões do machismo e da condição da mulher nas mais diversas vertentes. Mesmo nas artes, tendencialmente vanguardistas e progressistas, há comportamentos enraizados que fazem o sexismo manifestar-se nos gestos mais quotidiano. Desses problemas aparentemente menores, para reflexões maiores sobre as violações mais básicas dos direitos das mulheres, faz-se “Her” o mais recente disco de Rita Redshoes, que tem tanto de manifesto feminista, como de pessoal. O disco, que foi o pretexto para uma conversa com o Delas, marca também a estreia da cantora na composição e interpretação de temas em português.

Este disco chama-se “Her”, que em português pode traduzir-se por ‘Ela’ mas também por ‘Dela’. A duplicidade do termo, que é sempre feminino, influenciou a sua escolha para o nome deste trabalho?
Confesso que a dada altura, quando percebi que o disco ia ser sobre o feminino, estive indecisa entre o “She” e o “Her”, e cedo optei por este. Porque, de facto, tem essa duplicidade e é dessa duplicidade que o disco fala, não tanto do ‘ela’ apenas. É um ‘ela’, ‘dela’, ‘deles’ também. Achei que o termo, até por essa ambiguidade, faria mais sentido que o outro.

Como referiu, este “Her” assume plenamente a condição feminina. Por que quis fazer um disco com essa intenção?
Não me sentei e disse: “Vou fazer um disco com esta visão e sobre esta questão”. Mas quando comecei a envolver-me com o material que fui escrevendo apercebi-me que falava tudo da mesma coisa e que havia uma questão que tinha cá dentro e que resolveu mostrar-se. Acho que o foco feminino tem a ver com um lado mais autobiográfico, com o sítio onde estou neste momento, com a idade que tenho, o ser mulher, com as questões todas que me assolam e assaltam. Mas também é algo que eu fui vivendo, e através de amigas, de outras mulheres com quem me fui cruzando e de conversas que tive, de que existe uma questão mais pertinente do que podia supor há uns anos. Fico feliz por, por um lado, esta questão ser trazida, cada vez mais, à luz por diferentes mulheres, em diferentes partes do mundo, com diferentes profissões, mas também mostra que é uma questão ainda muito presente. Quando pensamos, “ah, evoluímos imenso”, isso é verdade, mas há qualquer coisa de muito primário ainda e a ter que ser pensado. Primeiro zanguei-me com muitas coisas machistas que vi e que vivi…

Que viu e viveu ao longo do seu percurso profissional?
Sim, mais do que alguma vez tinha sentido, e custou-me muito a perceber, porque na minha primeira banda e mesmo em minha casa eu nunca tinha sentido uma diferenciação por parte dos amigos que tocavam comigo, do meu irmão ou do meu pai por ser mulher. E quando tive os primeiros episódios, sobretudo a trabalhar com homens, demorei muito tempo a perceber e pus-me muitas vezes em causa a achar que era eu que, se calhar, pouco assertiva ou que não sabia o que estava a dizer e que, por isso, era posta à margem dos assuntos. Até que me zanguei e me fui cruzando com outras mulheres que passavam pela mesma situação. Isso começou a ocupar muito espaço e a criar uma urgência. Eu lembro-me de estar numa loja de música, que é um mundo bastante masculino, de ir com outros músicos comprar instrumentos. Quando vou para pagar os meus instrumentos, dou o meu cartão de crédito para pagar e o senhor passa o multibanco para pôr o código a um dos músicos que está comigo. Se calhar a pessoa até nem se apercebe que faz isto. No outro dia também me aconteceu isto quando estava a jantar com um amigo, estava para pagar e passaram-lhe um multibanco a ele.

São comportamentos que estão mais enraizados do que o que se pensa.
Está muito enraizado e as pessoas não dão conta, tanto homens como mulheres.

Apesar de essas questões estarem mais expostas neste disco, em 2012 já tinha feito o espetáculo ‘The Other Women – O mundo nas canções d’Elas’, com músicas de outras artistas femininas. Segundo se disse, na altura, em parte, porque sempre se questionou sobre a importância que o “ser mulher” teria na caracterização da sua criatividade. A vontade de abordar essas questões artisticamente já começava a desenhar-se aí?
Já, já. E eu já tinha essa urgência porque já tinha vivido alguns episódios. Nessa fase ainda estava um bocadinho zangada, ainda não conseguia pôr em música ou pensar sobre o assunto de forma mais construtiva, consciente e madura. E só agora é que, se calhar, senti essa coragem, porque exige alguma coragem vir dizer isso. Lembro-me de ter abordado nesse espetáculo, creio, ao de leve esse tema e lembro-me de ver um comentário que era: “Foi sempre ajudada por homens e agora cospe no prato'”. Qualquer coisa assim. E eu pensei: “Bom, faz sentido eu falar disto, está aqui a prova”. Mas é preciso alguma coragem porque há muitas mulheres e homens que têm uma postura defensiva em relação a este assunto e uma pessoa fica um bocado exposta.

A maturidade traz essa coragem.
Traz. E é uma coisa muito urgente. Estamos a falar de direitos humanos, em muitos casos. Eu estou a dar exemplos superficiais, não estou a falar de casos de vida ou de morte. Mas quando olhamos para certos países ou outras realidades estamos a falar de um atraso a esse nível, que é uma questão de vida. Portanto, não é assunto assim tão ligeiro quanto se possa pensar.

Por outro lado, nos países onde as mulheres têm mais direitos também há uma pressão para que façam tudo e que sejam boas nessas coisas todas. É difícil para uma mulher encontrar o seu lugar no meio disso tudo?
É difícil, é exigente. De facto, o que sinto às vezes é que as mulheres têm de provar o dobro ou triplo do que um homem teria de provar para ter o mesmo respeito, espaço de decisão e para serem ouvidas. Só por se ser mulher. Isso não é justo. E depois há a questão da maternidade, as mães têm de ser super mães, as mulheres têm de ser super mulheres. Antes eram super mães e super donas de casa e se falhassem nisso o dedo era-lhes apontado, quando uma família era feita de um homem, da mulher e dos seus filhos. E entretanto as mulheres querem trabalhar, e querem muito bem, querem fazer coisas da sua vida que não seja só estar em casa a tratar dela e dos filhos, mas depois também têm que provar o triplo. E nós mulheres somos muito culpadas disso. Não só nesses aspetos, mas também em relação à beleza, ao que é suposto as mulheres serem fisicamente. Não é humano, real. É uma pressão horrível. E aí temos um bocadinho de culpa.

Este disco surge quando passam praticamente dez anos desde que começou a sua carreira a solo, como Rita Redshoes, e quase 20, desde dos Atomic Bees. Levou-a a olhar para o trajeto que fez até agora?
Sim, de certa forma. Volto às raízes, musicalmente, em algumas coisas, mas também é um balanço dessas vivências e dessas experiências todas, de projetos por onde passei, e, sobretudo, de consciência mais clara das minhas limitações. E, ao contrário do que poderia pensar há uns anos, isso dá-me mais força do que fragilidade. O facto de ser consciente do que não consigo fazer tornou-me mais forte. Como pessoa, compositora e cantora. Antes tinha muito medo de lidar com isso. E transparece neste disco. Não podia ter chegado aqui sem ter passado por isso. Portanto, este disco é um bocadinho um balanço como mulher na música e da minha carreira. E depois implica outras questões como a idade, o ser mãe e ter esta carreira, como é que isso se compatibiliza, o que é que eu prefiro, o que me fará mais feliz enquanto mulher.

E o que é que a fez passar a aceitar melhor essas limitações?
Acho que projetava muito, via muito no futuro, naquilo que poderia vir a fazer, naquilo que poderia vir a ser. Mas a vida é como é, não corre exatamente como nós pensávamos, e ainda bem. Idealizava e idealizava-me muito, hoje sou muito mais real. Para o bem e para o mal. Há coisas que gostava que fossem diferentes, mas o facto de as conhecer e de saber que sou assim dá-me as ferramentas para saber lidar com as coisas de outra forma, mais real e autêntica. Em termos profissionais, a minha luta é sempre mais como cantora – acho que não sou assim muito boa cantora e gostava de ter uma voz diferente. Mas lido com isso com uma leveza muito maior do que antes. Era super perfeccionista, irrealista em relação àquilo que, efetivamente, poderia fazer. Mesmo que estivesse a fazer as coisas como gostava, era tão perfeccionista que não as ouvia assim. E acho que é esse tipo de exigência, que as mulheres às vezes têm com elas próprias, que é muito desumana.

Pode dizer-se que este trabalho a apaziguou?
Sem dúvida. Senti e sinto uma autoconfiança em relação ao disco como nunca senti em relação a outros discos. E deve-se a estas coisas todas e ao facto de ter trabalhado com pessoas que me mostraram isso e, de alguma forma, validaram isso. São pessoas com currículos impressionantes, de outro país, não me conheciam e não tinham nenhuma simpatia especial por mim. Portanto, o que valeu ali foi a minha pessoa, o meu trabalho, o que tinha para definir com eles. Senti-me muito respeitada e isso deu-me alguma força. São pessoas que trabalharam com tanta gente que admiro e que fizeram coisas incríveis e encararam isto de forma tão séria, emocionalmente e tudo, que era capaz de haver aqui qualquer coisa de bom.

Apesar de ser um disco muito “seu”, ou especialmente “seu”, gravou com músicos muito experientes e com o produtor Victor Van Vugt, produtor de Nick Cave, e não só. O que é que eles trouxeram deles para o registo e como o fizeram de forma a que o disco continuasse a espelhá-la?
Tinha algum receio disso, confesso. Porque são pessoas que, além do talento, são de outra geração. Tinha algum medo, eu que fui sozinha para Berlim. Ia um bocadinho preocupada com a possibilidade de poder enfrentar uma “guerra”. Mas não, de todo. E isso foi uma das coisas que mais me agradou no processo. O que senti foi mesmo respeito. Eles ouviam a música e estavam mesmo preocupados em perceber o que é que eu sentia em relação àquilo que eles estavam a fazer, como estavam a fazer e se era esse o caminho. Nunca senti por parte dos músicos que eles decidissem por serem mais experientes, porque não foram eles que compuseram a música. E isso eu acho que é o certo. Devia ser sempre assim. Claro que depois com a experiência e técnica deles e a vontade de porem na música o melhor que podiam, para tornarem esse momento especial… Também foi uma coisa muito bonita de assistir: estar lá e ao mesmo tempo estar de fora e sentir que eles estavam ali comigo para as minhas músicas.

Eles já tinham conhecimento deste conceito feminino em torno do disco?
Foram tendo consciência à medida que íamos tocando as músicas, porque havia sempre um momento antes de gravar para ouvir e ler a letra das canções. E eles começaram, obviamente, a perceber do que é que se tratava [risos]. Às vezes brincavam com isso, mandavam bocas machistas, na brincadeira, para ver como é que eu reagia. Havia um ambiente muito descontraído no estúdio. E acho que pessoas com inteligência, sensibilidade ao outro e ao estar no mundo são pessoas que à partida acharão que isto é um assunto importante, seja homem ou mulher, e que deve ser tratado com respeito.

É um grande investimento, dispendioso, ter músicos como estes no seu disco?
É. Foi o meu disco mais caro e agora corro o percurso da ansiedade que é, “como é que eu vou pagar este disco?”. É um investimento grande, mas que não me arrependo nada de ter feito, nem que passe os próximos dez anos da minha vida a pagar, por aquilo que me trouxe em termos de riqueza profissional e pessoal. E acho que a vida também serve para cumprir alguns sonhos, e para ter experiências e vivências como esta, nem que seja para contar aos meus netos.

Gravá-lo em Berlim, uma cidade importante na história da música rock e pop, foi fruto das circunstâncias ou uma vontade sua?
Berlim é uma cidade muito misteriosa, mas na verdade fui lá parar porque o Victor Van Vugt vive lá e os músicos também estão lá neste momento. Foi uma circunstância mais prática, embora depois, passado algum tempo de lá estar, a cidade tenha começado a entrar nas coisas. E houve uma letra de uma das canções que eu alterei por estar ali, que é a ‘Wake Up, Goodbye’. Já era uma música de despedida, mas ali especificamente, com a história daquela cidade, acabou por fazer com que olhasse para a canção de forma mais direta.

Um dos temas mais assumidamente feministas deste disco é o ‘Mulher’, que é também uma estreia, neste caso a cantar em português. É um dos três temas do disco cantado na língua materna. Isso foi outra forma de emancipação?
Sim, acho que pode ser lido dessa forma. Era uma vontade que eu já tinha há algum tempo, desde esse espetáculo de 2012, porque tinha interpretado uma canção da Xana e tinha gostado muito de o fazer e muito do feedback que tinha tido das pessoas, porque sente-se quando não ha barreira de espécie nenhuma. Gostei muito da sensação. O facto de ter trabalhado com o meu irmão, que tem um projeto que se chama Senhor Vulcão e escreve em português, de o ter ajudado a trabalhar as letras dele, aumentou essa vontade. Aliás, a primeira canção que surgiu para este disco foi o ‘Vestido’, em português, e essas três canções saíram de forma muito espontânea. E pensei: “Eu tenho de respeitar isto”. Não ia estar a camuflar em inglês aquilo que me saiu em português, assim como não faço o inverso. Também achei que já tinha o estofo para lidar com essa novidade em mim e de me expor aos outros.

No futuro podem esperar-se mais canções em português?
Sim, acho que é daquelas portas que uma vez abertas são difíceis de fechar. Há um prazer inerente a isso, porque traz a novidade e a sensação é boa. Quando toco pelo país, há uma parte do público que se calhar não tem a fluência ideal no inglês para estar, no momento, a ouvir a música e a perceber exatamente tudo o que estou a dizer. E, portanto, vou conseguir chegar, espero eu, mais próxima das pessoas. E essa ideia, de ficar sem esse “entrave”, agrada-me.

Nos temas em português nota-se uma mudança na sua forma de cantar. A diferença da língua obriga-a a uma postura interpretativa diferente?
Sim, obriga. Porque a língua inglesa é muito diferente musical e sonoramente da língua portuguesa. Claro que o facto de eu também estar a cantar sem ter pensado muito antes de escrever talvez passe para a interpretação, mas tem muito a ver com a sonoridade da língua. O facto de o português ter muitas arestas e de eu ter uma dicção muito certinha, se calhar leva-me a cantar de uma forma diferente do inglês. Além disso, o ‘Vestido’ e o ‘Fé na Vida’ são também duas canções muito pessoais e com um arranjo muito mais despido e, portanto, a interpretação também fica muito mais exposta. Talvez me tenha libertado mais e posto na voz mais um instrumento na música.

Falando em passar a mensagem, o seu pai, que foi treinador do Sporting, percebeu o que queria quando lhe disse que o seu nome artístico ia ser Redshoes (‘sapatos vermelhos’ em português)?
[Risos] O meu pai perguntou-me: ‘Tem mesmo de ser, não é?’

Mas sempre a apoiou na sua escolha profissional…
Sim, completamente. Os meus pais sempre foram muito generosos em relação a isso. Foram, juntamente com o meu irmão, as primeiras pessoas a apoiarem-me, desde a altura que eu disse que queria deixar o liceu e ir para a Escola Profissional de Música. Deixaram-me ir e compraram-me um piano em vez de me tentarem dissuadir. Talvez notassem a minha grande vontade em fazer isto. Mas foram muito generosos, porque a vida de músico é muito arriscada, incerta. Sempre senti muito apoio.

Era uma menina sonhadora quando era criança?
Sempre fui, e acho que sempre serei. Também tenho um lado muito pessimista e realista, mas em relação a mim. Em relação aos outros não, não sou nada pessimista. Por outro lado, tenho essa sensação de que a vida tem um grande mistério e que vale a pena sonharmos e irmos à procura desse lado mais misterioso e menos terra a terra, porque ele existe. Disso não tenho dúvidas, de que esse lado existe, e não consigo dissociar-me dele.

Escreveu, de resto, o livro ‘Sonhos de uma rapariga quase normal’. Como foi essa experiência?
Foi inesperada, porque, apesar de sempre ter escrito – escrevia contos, os meus sonhos – nunca me tinha passado pela cabeça que um dia viria a fazer um livro sobre os meus sonhos. Quando partilhei textos com os meus sonhos com o editor da Guerra & Paz foi no sentido de ele me dar um feedback mais crítico. E a resposta do lado de lá foi: “Então e por que é que não fazemos um livro com os sonhos?” Na altura não estava nada para aí virada e tive de pensar e digerir a ideia. Mas foi uma experiência muito boa porque me senti muito acompanhada e porque sempre que tenho a oportunidade de fazer coisas diferentes e me divertir não sou preconceituosa, eu faço. Se vou errar? É bem provável, mas não quero saber. A vida são dois dias e o que se leva dela são as experiências. Tenho muito orgulho de ter feito esse livro e isso já ninguém me tira. Diverti-me muito, trabalhei com pessoas de quem gosto e aprendi coisas.

Lembrarmo-nos daquilo com que sonhamos pode ser bastante cansativo. É o seu caso?
É. Eu acordo todos os dias cansada porque lembro-me dos sonhos que tenho. Os sonhos que estão nesse livro são todos sonhos que tive. Nesta fase de ansiedade de pré-lançamento do disco, em que não se sabe como vai correr, o que é que vai correr bem ou mal, sonho que estou a trabalhar numa pastelaria, a seguir noutra coisa que não tem nada a ver, a arranjar trabalho noutras coisas. Essa ansiedade aparece-me em sonhos. O sonho mais recente é que tinha de emigrar.

Algum sonho seu deu origem a uma canção?
Sim, o ‘Choose Love’, do primeiro disco, a melodia apareceu-me num sonho. Acordei a cantar a melodia. O ‘Woman Snake’, do ‘Life is a Second of Love’, também foi em sonhos. Aconteceu-me várias vezes. Umas vão parar a disco, outras perdem-se pelo caminho

Neste disco o vídeo do single, ‘Life is Huge’, é assinado pelo realizador Marco Martins, com coreografia de Vítor Hugo Pontes, e mostra uma mulher que faz lembrar uma atleta tentando superar-se. Pode dizer-se que é uma metáfora daquilo que tem sido o seu percurso?
Sim, no fundo sim. Ainda não tinha, nem ninguém me tinha posto as coisas dessa forma, mas é uma forma bonita e forte de ver as coisas. Quando falei com o Marco [Martins], disse-lhe que ia ser aquele o single, mas sobretudo falámos sobre o que é que era o disco, onde é que eu me encontrava neste momento e o que tinha sido para trás. E ele às tantas disse: “Aquilo que eu vejo não é uma ilustração desta canção em específico, mas sim do disco todo e de ti, de alguma forma”. E emocionei-me muito depois de ver o vídeo montado, precisamente por isso, há ali a frustração, a superação, a força, a fragilidade, a água, a maternidade, o nascer, o renascer, o levantar, o cair, e é isso que é muito comovente na história das pessoas. Porque a vida é feita disso. E no fundo sinto isso. É a minha maratona é a minha vida.

O realizador desse vídeo é o mesmo do filme ‘Alice’. Na sua carreira também já assinou bandas-sonoras, uma das mais recentes foi sobre os ‘Portugueses do Soho’, que foi apresentado no Moma, com plateia esgotada. O que é que isso representou para si?
Foi muito emocionante, sobretudo depois de tocar no Moma e conhecer algumas das pessoas do documentário, porque nos toca a todos, faz parte da história dos portugueses. O convite veio da Ana Ventura Miranda que é a realizadora e criadora do Arte Institut [espaço de promoção da cultura contemporânea portuguesa em Nova Iorque], e eu tinha visto o trailer do documentário, num festival de cinema, há uns anos e fiquei completamente embevecida com a amostra e comentei isso com ela na altura e que devia terminar esse trabalho. E houve um dia em que a Ana me telefonou e me disse que tinha muito gosto que fosse eu a fazer a música. E eu fiquei super emocionada e foi uma experiência muito forte criar música para a história daquelas pessoas que podiam ter sido os meus avós. E eu imagino também esta geração daqui a uns anos a falar daquela forma. A História repete-se.

Por falar na História que se repete, bandas sonoras é algo que gostaria de fazer mais vezes no futuro?
Todos os dias. Se todos os dias me convidassem para fazer bandas sonoras eu dizia que sim a todas [risos].

O que é a que a atrai nesse lado da música?
É muito libertador. Quando se faz um disco há moldes muito rígidos. Claro que no cinema também há moldes, tem de se respeitar o que se tem à frente e ajudar a contar aquela história, mas é muito mais livre que um disco e, sobretudo, não é uma coisa autocentrada. É quase a minha terapia dentro da criatividade, fazer música para um outro fim que não seja um disco meu.

Imagem de destaque: Gustavo Bom / Global Imagens

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