Tenho um recém-nascido e agora? Ansiedade, hormonas, medos e palpites de terceiros…

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Depois de nove meses a imaginar o rosto do bebé – e a sonhar com o dia em que a vida a três (ou a quatro ou a cinco) vai começar – aquele filho tão sonhado finalmente está cá fora. O quartinho está pronto, as roupas que ao longo dos meses de gestação foram sendo alinhadas nas gavetas, também. Já há também um mobile de berço, bonecos aqui e ali oferecidos por familiares e amigos, e é hora da chegada a casa depois da ‘estadia’ na maternidade. É nesta altura que, por norma, as dificuldades começam. Que o sonho não parece tão idílico como se imaginou enquanto se acariciava a barriga e a realidade se mostra bem mais difícil de (di)gerir.

“Saí da maternidade – depois de um parto muito fácil – a dizer que queria ter outro (filho) já a seguir. Não sei se ainda vinha sob o efeito da oxitocina ou se do facto de ter passado dois dias a ser acompanhada por enfermeiras 24 horas por dia achei que estava a ser tudo fácil demais. O dia em que cheguei a casa coincidiu com a subida do leite, as dores nas mamas eram insuportáveis e dar de mamar era um filme de terror. Tinha de morder o dedo para me tentar abstrair da dor”, recorda Filipa Silva, uma tradutora de 31 anos. “Sem falar que nessa primeira noite nem eu nem o meu namorado pregámos olho. O Tomás não parava de berrar, ele que na maternidade era tão sossegadinho. Abrimos as torneiras para ver se o som da água o acalmava, ligámos o secador, mas nada surtia efeito. No dia seguinte parecíamos dois zombies. O Pedro um zombie normal; eu um zombie com as mamas a rebentar de leite e dor”, acrescenta com algum humor, agora que já passaram mais de dois anos e se tornou mais fácil relativizar as dificuldades daqueles primeiros tempos.

“As questões mais frequentes são dúvidas sobre amamentação, perceberem se o bebé está bem e ansiedade pela perceção de que agora tudo é ‘real’, que há um bebé recém-nascido em casa e somos nós os responsáveis por cuidar dele. Isto gera muitas vezes insegurança e medo: ‘Seremos capazes?’”, começa por explicar Constança Cordeiro Ferreira, terapeuta de bebés e autora do livro ‘Os bebés também querem dormir’ (Ed. Matéria Prima) além de responsável pelo Centro do Bebé, em Lisboa.
“Muitas vezes a chegada a casa coincide com a subida do leite e a fase do “baby blues” ou seja a altura em que em termos hormonais a mãe sente-se mais sensível, alterna entre vontade de chorar e rir, duvida se vai ser capaz. Naqueles primeiros dias isto é tudo muito frequente. É verdade que cuidar de um bebé é uma tarefa de enorme responsabilidade, mas os pais serão à partida as pessoas mais capacitadas para a fazer. É preciso conviver com naturalidade com as dúvidas e os anseios, eles são normais”, tranquiliza a ‘fada dos bebés’, como é tratada pelos pais e mães que a ela recorrem.

“As dores na amamentação passaram ao fim de 15 dias, na mesma altura em que o pai do Tomás voltou ao trabalho. Por aí estava tranquila mas logo no primeiro dia sozinha em casa mais de oito horas com o meu bebé percebi que a missão que tinha entre mãos era sem dúvida maravilhosa, mas ia exigir de mim capacidades que eu nem sabia que tinha: paciência, gestão da ansiedade e aguentar as horas de sono em falta. A ansiedade foi a mais difícil de gerir, sem dúvida. Cheguei a ligar ao meu namorado em pranto a pedir-lhe para voltar para casa o mais rápido possível porque o Tomás não parava de chorar e eu já não sabia o que fazer”, continua Filipa.

“O receio do desconhecido gera sempre muito ansiedade, e nesse sentido a preparação para o parto e parentalidade é uma excelente forma de antecipar e preparar questões para minimizar o receio do desconhecido. Na preparação para o parto abordam-se temas não só do parto bem como de temas igualmente importantes relativamente à parentalidade. No Centro Pré e Pós Parto procuramos preparar e acompanhar os casais para o parto, para a amamentação bem como outros desafios da parentalidade, tais como o choro e sono do bebé”, partilha por seu lado Miguel Basto do Centro Pré e Pós Parto, um serviço que oferece sessões de apoio na amamentação, em grupo ou individuais, para que as recém-mães podem trocar experiências, dúvidas e receios.

“Oferecemos igualmente um acompanhamento personalizado com Enfermeiras Parteiras a todos os nossos casais o que por si só é uma enorme segurança que lhes transmitimos. Ou seja, em qualquer momento poderão estar com uma Enfermeira e resolver todas as questões que possam ter. Temos igualmente uma linha de apoio 24 horas por dia atendida por Enfermeiras Parteiras que ajudam os casais com todo o tipo de questões que possam surgir”, acrescenta o responsável.

A Constança Cordeiro Ferreira, do Centro do Bebé, também já lhe telefonaram mães a meio da noite com dúvidas e pedidos de ajuda. “O nosso curso de preparação para o nascimento só termina quando o bebé já está ‘cá fora’. Nessa altura temos sessões em que os pais regressam para colocar as dúvidas que só depois do bebé nascer surgem. Nós somos facilitadores de informação e apoio, estimulamos as competências dos pais, não as substituímos por “manuais de instruções” em que eles procuram encaixar o bebé à força. A verdadeira liberdade de se ser pai ou mãe vem quando se descobre a nossa própria forma de o fazer e é daí que nasce a confiança e a felicidade. Nós damos uma ajuda quando é preciso para que os pais possam prosseguir com confiança com o seu bebé”, explica a terapeuta de bebés.

E confiança é a palavra que tantas vezes falta às recém mães, que a juntar ao cocktail de hormonas do pós parto lidam com a mudança da sua própria vida e a exigência de cuidar de uma nova vida que geraram.

“Quando estava grávida achei que estar de licença de maternidade era estar de férias. E agora só apetece esbofetear quem ousa dizer o mesmo. Devia chamar-se trabalho de maternidade e não licença”, brinca Filipa.

Dá trabalho, dá. Mas quando as mães serenam, tudo flui com mais tranquilidade. “É preciso conviver com naturalidade com as dúvidas e os anseios, eles são normais. Observarmos o bebé indicará muitas vezes a resposta correcta. Às vezes é mesmo assim: tentativa e erro, enquanto vamos conhecendo o nosso bebé e ele vai conhecendo o mundo cá fora. Se seguirmos as indicações básicas de segurança e de cuidado ao bebé, como são transmitidas pelo profissional de saúde que observou, se confiarmos no nosso bom senso e se abandonarmos a exigência de que é preciso fazer tudo perfeito logo à primeira, a confiança em nós próprios emerge e torna-se mais fácil vivermos esta fase. Pode parecer, e é, exigente tratarmos de um recém nascido, mas muitas vezes o mais difícil é mesmo a sensação de não sabermos o que fazer”, assegura a ‘fada dos bebés’.

Diana Santos, de 27 anos, muitas vezes não soube o que fazer. “E depois toda a gente me dava palpites: se adormecia ao colo a Luísa era porque a estava a habituar mal, se ela chorava muito era porque tinha fome e o meu leite era fraco, se estava vestida demais ia ter calor, se estava com menos roupa ia passar frio. Tudo isso me deu uma enorme insegurança”, conta esta contabilista ao Delas.pt.

Às mães que a procuram, Constança Cordeiro Ferreira, aconselha-as “a abandonarem os conceitos que traziam desde antes da gravidez ou que as pessoas em volta lhes debitam e que estão a atrapalhar o processo de ligação e observação entre mãe e bebé. O ‘desconfiar do bebé’, o medo de dar mama ou colo, a pressão para não pegar num bebé que chora porque ‘vamos criar maus hábitos’, tudo isso é verdadeiro veneno para a confiança da mãe porque obriga-a a desconfiar daquilo que o seu instinto lhe diz para fazer. E muitas vezes esse tipo de ‘conselhos’ são precisamente o que vão fazer piorar tudo: um bebé que chora mais, será um bebé mais difícil e que dormirá menos, os níveis de stress na família crescem exponencialmente quando há mais choro, a livre demanda na amamentação funciona quase sempre como uma peça importantíssima para que a mãe consiga amamentar com sucesso. E no entanto tudo o que é sugerido às mães vai tantas vezes contra isto. Porque hei-de pousar e levantar o meu recém nascido vinte vezes do berço se ele adormece em minutos ao colo e a seguir descansamos todos muito melhor? Porque hei-de esperar ‘x tempo’ pela próxima mamada, se a minha maminha o fará adormecer em vinte segundos? Não faz sentido. Estamos a levar as mães pelo caminho mais difícil e aquele que tornará a sua experiência muito mais conflituosa, numa altura em que a paz a serenidade e o amor deviam mesmo estar a imperar. Muitas vezes o meu trabalho é este: encontrar estratégias para que todos descansem, estejam felizes, em paz. Para que a mãe possa ouvir verdadeiramente o seu instinto e não o coro de vozes que a fazem acreditar que está a ‘fazer tudo mal’”.

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