Sara Marques: “A minha credibilidade é afirmada pela seriedade do meu trabalho, não pela forma como me visto”

Sara Marques tem 38 anos, é advogada e natural do Porto. Sempre adorou vestir saias curtas e usar grandes decotes apesar do estilo formal que normalmente é associado à sua profissão. Há dois anos o marido recebeu uma proposta de trabalho em Omã, um pequeno país no Médio Oriente. A possibilidade de passar a viver numa cultura diferente da portuguesa e ter de deixar as minissaias e decotes no guarda-roupa tornou a decisão difícil, mas acabou por decidir mudar-se com o marido e os três filhos.

Hoje, dois anos depois, não podia estar mais adaptada. Constatou que a cultura local não é assim tão diferente da portuguesa e, não satisfeita com a roupa típica do país – a abaya, uma peça de roupa tradicionalmente preta que cobre todo o corpo –, decidiu adaptá-la ao seu gosto, criando a marca Boho Abaya. Estas peças com a sua assinatura são muito mais coloridas e modernas. As mulheres omanis param-na na rua para saberem onde podem comprá-las e, na Europa, também já há várias dezenas que se deixaram encantar pelas abayas e usam-nas no dia-a-dia.


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Está a gostar de viver em Omã?

Adoramos, estamos a gostar imenso. Aos ocidentais parece uma coisa muito mais complicada do que é na prática. Os omanis são os árabes mais simpáticos. Costumo dizer que é da influência portuguesa e eles realmente são muito parecidos connosco em muita coisa. Há a questão religiosa, que é completamente diferente da nossa, mas a vida familiar, a forma de educar os filhos, a dedicação dos pais aos filhos tem muito mais a ver connosco do que os países do norte da Europa. O tipo de alimentação deles é muito baseado em frutas e vegetais, tal como nós. Os ingleses, por exemplo, não têm nada a ver connosco nesse aspeto. Omã é um país onde xiitas e sunitas estão no governo, apesar de ser uma ditadura, e é um Estado que, apesar de tudo, é bastante moderado. É mais fácil viver em Omã do que o que parece à distância. Todas as pessoas que conheço que moram em Omã adoram. É um país muito amistoso, acolhedor. As pessoas são realmente simpáticas, são tolerantes. É bom privarmos com eles para perceber que os extremismos não têm nada a ver com a generalidade das pessoas.

Passou a ter de andar de corpo coberto. A adaptação foi difícil?

A adaptação foi difícil porque eu não tinha roupas assim. Sou advogada e também cá há a ideia de que temos de andar vestidas de forma formal, que também é uma coisa que acho tonta, acho ridículo. A minha credibilidade é afirmada pela seriedade intelectual do meu trabalho e empenho, não pela forma como me visto. Esta coisa de que os artistas têm de andar a parecer alternativos e os intelectuais têm de se vestir formalmente é ridícula. Apesar de ser advogada, sempre fui capaz de andar de minissaias, vestidos curtos. É engraçado porque em tribunal nós vestimos a toga, que é quase a abaya delas. Claro que é por motivos distintos. No caso dos advogados a toga e no caso dos juízes a beca é um bocadinho aquela coisa de não haver distinções das classes sociais, como as fardas nas escolas, para não se distinguir os ricos dos pobres. Mas isso para mim sempre foi confortável porque vou para os julgamentos vestida como quero, é indiferente, visto a toga e dentro do tribunal somos todos iguais. Sempre gostei de seguir o meu estilo e não estar presa a essas coisas, sempre adorei coisas curtas, vestidos curtos, calções curtos, mangas cavas e decotes. Por exemplo, quem me casou foi o bispo do Porto. Quando foi para casar, sabia que o meu marido sempre gostou de me ver com grandes decotes e eu queria que o meu vestido fosse decotado, não queria véu para a frente, nunca gostei disso. É giro nas outras, mas eu não me identifico nada. Perguntei ao bispo se tinha alguma limitação em relação ao vestido e ele disse: “Não, só quero que vá bonita.” Apesar do formalismo religioso, não levei o véu para a frente, o vestido era bastante decotado, esse é o meu estilo. Mas em Omã não sou nenhuma rebelde ou contestatária. Tenho de respeitar as pessoas, eu é que fui para o país deles, eu é que tenho de me adaptar, se não gostasse não ia. Há pessoas que vivem bem com o facto de estarem tapadas, há outras pessoas que lhes custa um bocadinho. Irmos para lá e reduzirmos a nossa liberdade é desagradável.

Sente que as mulheres locais são felizes apesar de terem de andar com o corpo coberto?

Não tenho a mínima dúvida. A burka só se usa nos países da Arábia Saudita, as omanis não usam, não tapam a cara. Tenho imensas amigas omanis que também não tapam o cabelo, só no caso de irem a alguma cerimónia fúnebre, por exemplo. As pessoas ou famílias mais tradicionais também tapam o cabelo, mas nem eu nem ninguém é obrigado a andar de abaya. O que acontece é que, na verdade, tendo que estar tapada a abaya acaba por ser bastante confortável. Uma vez fui à polícia e disseram-me que o meu vestido era curto, mas tirando sítios mais formais dá perfeitamente para andar de vestido acima do joelho e manga cava se não for excessivamente decotada e até calções compridos. Agora cai-cais e vestidos curtos é que não se pode. Não é proibido, mas a própria pessoa acaba por se sentir mal por ver que mais ninguém anda assim. Já vi pessoas a irem para o ténis com saias curtas e a entrarem num café assim, mas não vão andar vestidas dessa forma o dia todo. Ninguém diz nada nem vão presas, mas nós sabemos que eles pedem para as pessoas respeitarem o código de conduta de vestuário e ninguém anda assim na rua, acaba por não fazer sentido. No início comecei com aquela coisa básica que todas fazem quando vão a Marrocos, que é de ter aqueles lenços, as echarpes para tapar os ombros. Nos condomínios podemos andar vestidas como quisermos. Fazia-me um pouco de confusão andar em casa de vestido curto e depois ter de vestir umas calças para sair à rua. Foi daí que surgiu a ideia das abayas. Vemos pessoas a correr na rua tal como nós, de calções curtos e camisola de manga cava. Quando terminam o treino entram no carro, não andam assim a circular na rua. Com as abayas, basta colocá-las por cima da roupa e pode circular assim na rua, sem estar com a preocupação e está bem e adaptada. Como as que faço não há lá. Há todas pretas, as minhas são mais coloridas, têm um corte diferente. No fundo servem para as pessoas estarem tapadas sem os outros perceberem claramente que se estão a tapar, que são árabes, que estão tapadas por qualquer tipo de obrigação. Aliás, tenho vendido também em Portugal, recebo imensos pedidos de portuguesas que querem porque é uma coisa gira, sai o peso cultural, do facto de ter de se tapar, do machismo e da questão religiosa. Passa a ser uma peça de vestuário que se pode usar em qualquer momento, que é gira, prática e se pode usar em qualquer país.

Quando vem a Portugal acaba por também vestir abayas?

Visto algumas abayas e visto as minhas roupas curtinhas, não prescindo disso. Lá também visto quando vou jantar a casa de amigos ou a festas privadas. Aí as pessoas usam roupas curtas e decotadas. Só na rua é que as pessoas não andam assim, em locais públicos.

Tinha alguma experiência a desenhar roupa?

Sempre fiz roupa para mim, desde muito nova. Tenho o vício de comprar tecidos, ver materiais. Quando era mais nova fazia os meus vestidos. Desenhava, comprava os tecidos e as costureiras terminavam. Adoro escolher os tecidos e depois adaptar e fazer coisas para mim. Sempre fiz, sempre tive essa prática, foi fácil. Faço isto com uma amiga minha espanhola, de Madrid, que é igual. Ela também vive em Omã e começámos a procurar tecidos. Há lá tecidos fabulosos, lindos de morrer, de uma qualidade brutal que elas usavam por baixo da abaya. Nós transformamos aquilo para que seja a própria abaya.

Como está a correr o negócio?

Está a correr muito bem. Começámos em abril e neste momento até vamos passar a produção para Portugal para poder responder a todos os pedidos que temos porque lá fazemos tudo num costureiro. Quando começámos, a nossa ideia era responder a uma necessidade local das expatriadas, que são pessoas europeias e australianas, mulheres oriundas de países onde não há qualquer tipo de limitação, e que agora vivem lá. Muitas delas não têm o que vestir ou andam só de calças e muitas mulheres gostam de ter o seu toque, o seu estilo e ali não há muito essa possibilidade, não têm grandes alternativas. A nossa ideia era fazer para as expatriadas, mas a dada altura começámos a ver que em Espanha e em Portugal as pessoas também começavam a querer. Tenho uma amiga árabe que nunca tinha usado abaya, exatamente porque não gosta apesar de andar tapada, e agora usa abaya, compra das minhas.

Quantas abayas já venderam?

Vendemos cerca de 200, tudo o que fizemos. Vamos fazer mais.

Sente que deu cor à vida dessas mulheres do Médio Oriente?

Não dei cor, acho que afirmar isso seria um pouco atrevido, mas as mulheres que vivem lá, principalmente as estrangeiras que têm de se adaptar, tiveram uma nova oportunidade sem o peso da abaya preta, que tem uma conotação muito forte. Conseguiram aderir a uma coisa com a qual, no fundo, até se sentem bem. Tenho recebido mensagens de portuguesas que vivem no Qatar e na Arábia Saudita que ficaram contentes com esta possibilidade porque às vezes, até em eventos formais, têm de usar abaya preta por uma questão de simpatia com os locais. Agora têm a possibilidade de usar uma coisa na qual se reveem porque tem muito mais a ver connosco. A maioria das pessoas que vive lá gosta e respeita profundamente os costumes locais.

Já tem clientes fiéis?

Sim. Há algumas que já compraram várias e estão sempre a pedir mais.

Quanto custam?

Depende muito. Os tecidos são muito bons, apostamos imenso na qualidade dos tecidos até porque temos noção de que é uma forma de não sermos copiadas. As pessoas podem copiar o nosso desenho, mas não a qualidade, ou melhor, podem mas vai sair-lhes mais caro, terão de apostar realmente na qualidade. Dependendo dos tecidos, das sedas e de tudo o resto variam os preços. Temos abayas que podem custar 45 euros, 75 até 150 ou 200 euros. Segunda-feira vou voltar a Omã, comprar novos tecidos e agora a nova coleção vai depender muito dos tecidos que comprarmos.

Como se podem comprar as abayas?

Nós lá vendemos em mercados, para fora é através de encomendas pelo Facebook. A receção à marca foi uma surpresa para nós, nós próprias estamos numa fase de redimensionamento e, portanto, vamos ter de melhorar muito a qualidade da nossa imagem nos meios digitais. Estávamos à espera de começar a fazer meia dúzia para as pessoas dali e, de repente, as pessoas começaram a parar-nos na rua para saberem onde comprámos as abayas que trazíamos vestidas. Na verdade, há muita coisa ainda para melhorar, temos de fazer um site e melhorar a forma de encomenda das pessoas.

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