Sente-se prestes a dizer “basta” no trabalho?

Stress no trabalho pode levar ao burnout

É como se corpo e mente gritassem “basta!”. O cansaço extremo esgota toda a energia necessária para continuar e o trabalho, que antes era fonte de motivação, empenho e até prazer, passa a ser visto como uma penosa obrigação. Limites ultrapassados, chega-se ao fim da linha. E agora?

Milhares de profissionais portugueses deparam-se com uma realidade: lidar com uma rotina cada vez mais acelerada e com uma competição desenfreada. Para atender às expectativas e às exigências laborais e ter um desempenho eficiente, a maioria dos profissionais investe toda a sua energia no trabalho, dando cem por cento de si. Mas a “máquina humana” tem limites e numa determinada altura o próprio organismo começa a apresentar sinais evidentes de que os ultrapassou a todos: físicos, emocionais e mentais. Quando isso acontece, a exaustão é tão elevada que não conseguimos encontrar soluções para os problemas rotineiros e sentimo-nos totalmente esgotados e sem energia para continuar.

“O burnout tende a instalar-se, acompanhado de uma sensação persistente de que tudo é complicado, difícil e desgastante”, explica o psicólogo Pedro Rocha.

O stress, provocado pelo aumento das exigências emocionais e pela diminuição dos recursos laborais, é o primeiro sintoma da síndrome de burnout, também conhecida por esgotamento ou exaustão profissional.

Pedro Rocha, psicólogo, explica que a síndrome desenvolve-se em três fases distintas: a exaustão emocional, a despersonalização, o cinismo ou a desumanização e, por fim, a falta de realização pessoal.

“O burnout tende a instalar-se, acompanhado de uma sensação persistente de que tudo é complicado, difícil e desgastante”, esclarece. Na segunda fase (cinismo/despersonalização) “surgem dificuldades ao nível relacional, caraterizadas por isolamento da rede social, falta de paciência e irritabilidade no contacto com colegas, chefes ou pessoas para quem um serviço é prestado”. Aparece também a fadiga crónica, insónias, diminuição dos níveis de concentração e atenção, alterações de apetite, sintomas depressivos, maior probabilidade de adoecer e possíveis alterações de humor.

“Ao burnout estão associados habitualmente uma dedicação excessiva ao trabalho, o desejo de ser sempre o melhor”, segundo a psiquiatra Ana Sofia Nava.

Por fim, na terceira fase, experiencia-se uma completa ausência de prazer na vida pessoal e profissional, um forte descontrolo em tarefas que habitualmente estariam asseguradas e, em alguns casos, a ausência de realização pessoal.

Burnout Vs depressão e stress
Como pode ser facilmente confundida com outros estados como depressão ou simples stress, convém clarificar que só se chega ao ponto de burnout quando se é exposto por longos períodos e de forma continuada a situações que são física e emocionalmente exigentes e esgotantes.

A exaustão profissional pode afetar pessoas de qualquer área, especialmente aquelas que estão sujeitas a elevados níveis de pressão e responsabilidade.

A síndrome de burnout foi inicialmente identificada em indivíduos cujos trabalhos envolviam a necessidade de cuidar de outros ou que obrigavam a um contacto intenso com pessoas, como professores, médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. No entanto, hoje sabe-se, nomeadamente através dos estudos que têm sido realizados, que esta exaustão pode afetar trabalhadores de qualquer área profissional, em que se verifiquem elevados níveis de pressão e responsabilidade.

“Ao burnout estão associados habitualmente uma dedicação excessiva ao trabalho, o desejo de ser sempre o melhor e apresentar sistematicamente altos níveis de desempenho e a necessidade de medir a sua autoestima pela sua capacidade de realização e sucesso profissional”, explica a psiquiatra Ana Sofia Nava, salientando que este tipo de comportamento é incentivado por muitas empresas.

Exigência a mais
As pessoas que exigem de mais de si mesmas, que não conseguem dizer não quando estão sobrecarregadas de trabalho, que não desligam e não sabem impor limites nas tarefas são as que têm uma maior predisposição para serem alvo deste problema.

Hernâni Neto, coordenador da Rede de Investigação sobre Condições de Trabalho, no Porto, considera que devido à conjuntura atual “vamos ouvir cada vez mais falar da existência de profissionais que são afetados pelo burnout”. E os números parecem seguir nesse sentido. O relatório da OCDE “Fit Mind, Fit Job”, divulgado em abril último, revelou que entre 15 a 20 por cento da população ativa desenvolve perturbações psicológicas no exercício da sua profissão.

Portugal ocupa o sétimo pior lugar (entre 33 países), com o stress associado a exigências elevadas e baixos recursos.

Como evitar a síndrome de burnout
O primeiro passo para prevenir ou tratar a síndrome de burnout passa por estar atento aos sinais de alerta e procurar a ajuda de um especialista preferencialmente antes de atingir o ponto de rutura.

Assim, se detetar alguns dos sinais mencionados ao longo deste artigo, Pedro Rocha aconselha-o a reservar um momento para refletir sobre a quantidade de stress que tem na sua vida presente, a evolução do stress e o impacte que o mesmo está a produzir em si e naqueles com quem convive.

“Mobilize-se, no sentido de promover pequenas ações e mudanças que visem cuidar da sua saúde física e psicológica. O burnout não é como uma constipação que, mesmo que seja grave, desaparece ao final de uns dias, com ou sem recurso a medicamentos.”

O tratamento inclui acompanhamento psicológico ou psiquiátrico e – quando necessário – a administração de fármacos.

Além disso, para se ultrapassar este problema – ou evitar o seu aparecimento – é fundamental atuar também junto da entidade empregadora, que é a fonte geradora de stress. Segundo Hernâni Neto, “tem de existir uma intervenção integrada, em que as diferentes partes interessadas têm responsabilidades e direitos”.

Empregadores devem cumprir a lei
Mas para isso o sociólogo salienta a importância de o patronato cumprir a legislação relativa à segurança e saúde do trabalho, colocando o foco na avaliação de riscos ocupacionais. “Só com uma avaliação da exposição a riscos psicossociais do trabalho é que se consegue evitar ou controlar a incidência do burnout”, defende.

Em último caso, e quando já não há nada a fazer, a solução pode mesmo passar pela mudança de emprego.

Quer seja para tratar a síndrome de burnout quer para evitar o seu aparecimento, deve fazer algumas mudanças nos seus hábitos e no estilo de vida. O conselho de Ana Sofia Nava é que faça “um investimento equilibrado entre as várias vertentes da vida, nomeadamente entre família, amigos, vida social, profissional, prática de exercício físico e de uma atividade de lazer, que cada um deve escolher de acordo com as suas caraterísticas”. Para isso, oiça o seu corpo e a sua mente. Eles lá sabem.

 

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