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Ser (a)normal!

Parece que andamos todos com uma vontade tremenda de nos encaixarmos nos parâmetros estabelecidos pelos “ditames” da sociedade. De ser “normais”. Sou das pessoas que funciona ao contrário, a anormalidade a mim deixa-me muito mais confortável. Afinal a ideia de normalidade é apenas uma questão de matemática/estatística, composta por rótulos, classificações e categorizações às quais nos curvamos em cega obediência, sem consciência do lixo tóxico que acarretam, em nós e nos outros/as. Se pensarmos bem, os ditos rótulos pouco servem para definir quem quer que seja.

A norma é o que resulta da convenção de uma maioria. Ser normal é o que resulta dessa média, certo? Mas se a maioria depende do contexto onde nos inserimos, a norma e o normal a norte é diferente da norma e do normal a sul. O que é normal por esse mundo fora? Qual é a pessoa normal? A que usa minissaia ou a que usa burka? A que gosta de carne ou a que é vegan? A que come insetos ou alheiras? A que tem uma família convencional, monoparental ou pluriparental? O homem que respeita a mulher ou o que a maltrata? Afinal, qual é pessoa normal?

Meus amigos e minhas amigas, a normalidade é uma construção social, logo a pessoal normal não existe. Ou pelo menos existe apenas para nós, porque para o vizinho do lado, o que consideramos normal pode ser absolutamente repugnante. Somos todos anormais! E ainda bem!

Na Escola quem são os alunos normais? Os que tiram boas notas? (estes são a minoria, logo estes não são os normais, pois convencionado está que a norma advêm da maioria, certo?!) Isto se falarmos em contextos convencionais, mas outros existem (os ditos problemáticos), onde a maioria tira notas abaixo da média. O normal neste contexto será ser mau aluno?

E já que falamos da Escola, quais são os professores normais? Os que acreditam nos guetos ou os que acreditam na inclusão? É anormal acreditar na inclusão? É assim que dita a maioria? Será isto normal?

Será normal excluir a pessoa com limitações intelectuais ou com dificuldades de aprendizagem? Ou o normal é intervir nas suas dificuldades, através dos seus interesses e motivações, introduzindo métodos e estratégias adequados a cada situação?

Eu não acredito no culto da normalidade, acredito sim na normalização, que é bem diferente! Já desde 1969 (e desde aqui se percebe o atrasados que andamos nestas questões) Nirjke defende que normalizar não significa tornar nada normal, mas sim, proporcionar às pessoas condições equitativas de desenvolvimento, interação, educação, emprego e experiência social.

Isto já me parece normal, ou seja, que TODAS as pessoas tenham acesso a recursos que lhes permitam funcionar normalmente nos seus contextos naturais, desempenhando as mesmas funções sociais e de vida dos seus concidadãos. Normalizar é por exemplo ter nas escolas, além do francês ou do inglês, a Língua Gestual como uma língua passível de escolha. Ou pelo menos que, na área de projeto a sensibilização para a diversidade fosse uma realidade (onde entrariam as noções de Braille, a educação para as barreiras arquitetónicas e a sensibilização para as diferentes problemáticas/deficiências/incapacidades – o que lhes quiserem chamar!).

Se é normal pensar assim, não sei…? Mas eu gostava que fosse normal. Seja lá o que isso signifique, mas pelo menos que fosse levado a cabo pela maioria!

Celmira Macedo, presidente da associação Leque