Sofia Isabel Vieira: “As grandes aventuras estão mesmo debaixo dos nossos olhos”

Certamente também o pai será digno de um artigo integral sobre ele, mas foi a mãe que entrevistámos. Sofia Isabel Vieira, que em tempos foi a professora dos filhos em regime de ensino doméstico. A que expõe, no blogue Pais com P Grande, as suas decisões, algumas pouco consensuais, os seus medos e a sua vida. As pessoas criticam – porque no geral é o que todos nós fazemos – e ela segue caminho com as críticas, as mudanças, as crenças, o marido e os filhos.

Sofia tem 35 anos e um percurso que nada tem a ver com uma linha reta. A dela é acidentada, passou por Setúbal, por Londres, por um casamento, um divórcio, um novo amor verdadeiro, dois filhos, uma autocaravana, 10 moradas diferentes em 8 anos… A lista poderia continuar, mas, de tudo, fica a ideia que nem sempre o standard é o melhor caminho, que a flexibilidade é sempre a melhor amiga, que o dinheiro é tantas vezes uma espécie de make-up, usada para mascarar o medo de fazer diferente, de falhar, de ter de recomeçar. Sofia é portuguesa, o marido é francês e neste momento vivem no País de Gales. Viajam sempre com os filhos, ainda pequenos, para longe dos resorts porque, para eles, andar com a mochila e os miúdos às costas é uma forma de tirar o mundo das costas e contemplá-lo assim, de frente, a nu e de braços abertos!

Na primeira pessoa, em tom descontraído, Sofia: mestre em Educação, com especialidade em Educação Infantil; “mãe, sonhadora, autora do projeto Pais com P Grande, aventureira”, como a própria se define.

O que a motivou a trocar Setúbal por Londres?

Saí de Portugal no Dia da Mulher – uma apoteose à minha liberdade e coragem! Dia 8 de Março de 2004. Tinha 24 anos. Já há alguns anos sonhava viver em Londres e um dia, enquanto ouvia Norah Jones na rádio, enviei uma mensagem a um amigo a pedir-lhe 300 euros emprestados. Comprei o bilhete de ida, enchi a mochila e fui. Desde muito nova que sempre sonhei sair da ‘concha’… foi apenas uma questão de ganhar coragem.

O que esperava encontrar durante a sua aventura por terras britânicas? E o que, de facto, encontrou?

Confesso que era muito ingénua quando saí de Portugal e só constatei isso quando já estava em Londres, com uma dezena de currículos pendurados num braço, a bater de porta em porta, à procura de trabalho. Até então, quando pensava em Inglaterra via os Beatles, os Pink Floyd, os Rolling Stones; imaginava-me a contemplar o Big Ben e em passear-me no Hyde Park Corner; conjeturava sobre o aglomerado de gente em Picadilly Circus. Quando cheguei percebi que a Inglaterra era isso tudo, e muito mais. Eu não vim como turista, e muito pouco numa situação estável. Os primeiros seis meses foram complicados, não falava a língua e não tinha a mínima ideia da vida prática aqui, de como me registar num médico, ou conseguir o número de segurança social. Mas, sem dúvida que ter aprendido sozinha, e por entre tantas adversidades, contribuiu bastante para a minha formação enquanto pessoa, muito mais do que qualquer curso académico.

Conheceu o seu ‘camone’ [como trata o marido Quentin Gillet] e constituíram família. Durante esse percurso – namoro, casamento, nascimento dos filhos – trabalhava em que área?

Conheci o Quentin em 2008. Eu era diretora de um Jardim de Infância em Chiswick. Ele trabalhava na Sega – leia-se, passava os dias a jogar jogos na Playstation!

Como surgiu a ideia de fazerem a viagem por Portugal, de autocaravana?

Surgiu numa altura das nossas vidas em que sentimos vontade de largar tudo e lançarmo-nos a uma nova aventura. Primeiro, o Quentin indagou a empresa sobre uma possível deslocação para outro país. Esteve inclusive em conversas com os escritórios nos Estados Unidos e na Austrália. Mas depois apercebemo-nos que mudarmos para outro país – para ele continuar com o mesmo trabalho e para vivermos uma vida parecida ao que tínhamos no Reino Unido – não era o que nós queríamos. Precisávamos de curar feridas relacionadas com um processo de adoção que falhou e, por isso, queríamos muito viver uma grande aventura. E às vezes as grandes aventuras estão mesmo debaixo dos nossos olhos. Portugal pareceu-nos o lugar perfeito (e mais seguro). Eu queria muito que os nossos filhos vivessem Portugal e soubessem mais sobre a minha cultura e as minhas tradições. Para mim também foi importante voltar, porque me deu a oportunidade de fazer as pazes com sentimentos menos bons que uma vez senti pelo meu país.

Desde a ideia até à concretização do plano, quanto tempo demorou?

A ideia surgiu quando íamos a caminho de Tel-Aviv, de férias. Quatro meses depois estávamos a chegar a Lisboa! E outros quatro meses depois estávamos a viver na carrinha…

Que idade tinham os seus filhos, na altura?

A Gabriela tinha 4 anos e o Tiago tinha 18 meses.

O que vos passou pela cabeça: quais os medos, as ansiedades, as expectativas…

Sinceramente, o medo maior foi o facto de termos duas casas para pagar enquanto estávamos a viver na carrinha. Quanto ao resto, confesso que não somos do tipo de pessoas que perde muito tempo com ansiedades e preocupações. Vivemos um dia de cada vez. Aconteceram muitas peripécias, mas a vida nunca é uma linha reta.

Financeiramente, como organizaram as vossas vidas de forma a ser possível estarem quatro meses na estrada?

Colocámos a nossa casa, em Inglaterra, à venda para podermos financiar a viagem. O objetivo era o Quentin não trabalhar e aproveitarmos sem grandes preocupações, de 6 meses a um ano na estrada, em família. Mas a casa não se vendeu e o Quentin teve de arranjar um trabalho como freelance para podermos pagar as contas (e sobreviver). Durante toda a viagem ele trabalhou, tendo como escritório o mesmo espaço onde dormíamos, cozinhávamos, brincávamos, aprendíamos…. Muitos meses passaram à ‘risca’.

Tem memória de algumas frases ditas pelos seus filhos, durante a viagem, que a fizeram ter certeza de que aquele, naquela altura, era o caminho certo?

Sem dúvida. A minha filha disse várias vezes que eram os melhores tempos da vida dela. E ainda hoje ela diz que a melhor memória que guarda é a da nossa vida na Maria [nome que deram à autocaravana]. O Tiago, mesmo pequenino, é apaixonado pela Maria e pede muitas vezes para irmos lá dormir, só porque sim.

E foi também nesta altura que decidiu criar o blogue Pais com P Grande?

Sim, resolvi começar o Pais com P Grande quando decidimos ir para Portugal. No início não tinha uma ideia muito definida sobre o que queria, para além de partilhar a nossa viagem, mas o blogue cresceu tanto e tão depressa, comparado com as minhas expectativas, que hoje percebo que foi uma grande desculpa para eu voltar aos braços da minha grande paixão: a escrita. Passei 12 anos sem escrever em Português. Este blogue trouxe-me um amor antigo e gosto de o usar para contar histórias do dia-a-dia.

Foi tranquilo, para si, expor as suas decisões, também enquanto mãe, no blogue?

Eu não me considero uma blogger e nem considero o meu, um blogue sobre maternidade. É mais um espaço online onde falo sobre a vida e tudo o que a ela diz respeito. E sim, isso pode incluir histórias do desenvolvimento dos meus filhos, ou até opiniões sobre parentalidade. Falo sobretudo de mim e dos que fazem parte de mim porque quis criar um espaço real, com histórias reais, que acordem as pessoas para as coisas mais importantes da vida – como o amor e a felicidade, e um não vive sem o outro. Não escrevo para as pessoas saberem da minha vida, mas para as pessoas saberem que não estão sozinhas nos seus sentimentos mais profundos enquanto pais e pessoas.

Já recebeu comentários ofensivos? Como reagiu a eles?

Já recebi comentários ofensivos, sobretudo logo no início, quando apresentámos o projeto em programas televisivos. Nessa altura, lembro-me que fiquei muito desapontada, triste; os comentários eram, na maioria, sobre os meios que nos possibilitavam viajar numa carrinha pelo país. As pessoas especulam, inventam, criam histórias sobre os outros para disfarçarem as suas próprias misérias. Hoje em dia sou uma autora, e não blogger, muito mais forte no sentido de não me deixar levar por comentários infelizes. Ou então responder-lhes à letra, se necessário.

Esses comentários abalaram a sua autoconfiança?

Sim, no início muitas vezes pensei em desistir do projeto, em continuarmos a nossa viagem sem partilhá-la. Mas a verdade é que a bondade e a gentileza das pessoas que esta viagem nos trouxe foram tão, tão maiores do que qualquer comentário mais triste…

O que descobriu, sobre si própria, com esta profissão?

Com esta minha experiência em escrever para o público, descobri que tenho muito mais para dar do que aquilo que alguma vez poderia imaginar. Não ganho dinheiro, mas ganho um coração cheio de afetos que estimulam a minha escrita e a minha vontade de continuar a escrever. Eu sempre disse que queria escrever um livro sobre a nossa viagem por Portugal, mas foi o feedback da nossa página, que me deu a motivação para realmente tentar levar esse sonho adiante.

Não encara o blogue como uma profissão?

Não, não é uma profissão. É uma paixão. Tenho uma cabeça e um coração cheio de palavras aos pulos para virem cá para fora!

Como lida a família com a exposição no online?

Penso que no fundo nenhum de nós se sente exposto. A Gabriela, quando lhe perguntam, diz que a mãe é escritora, e que escreve sobre as coisas da nossa vida. Eu falo do que sinto que tenho de falar. Não falo de nós por narcisismo, mas porque quero trazer verdade à página, quero que as pessoas saibam que somos pais de verdade, pessoas de verdade, com sentimentos de verdade. Não me interessa falar sobre o que não conheço, nem sobre os fatos de banho da moda, nem os últimos produtos para as estrias na gravidez. Falo sobre o que sinto e de como o sinto, mesmo que isso nem sempre agrade quem lê. E acima de tudo, penso que este blogue será sempre um álbum de memórias para os meus filhos

Quais foram as decisões menos ortodoxas que assumiu na vida?

Casar com um Francês! (risos) Para ser honesta, acho que nunca tomei decisões ortodoxas. Tomei as decisões que achei, a dado momento e mediante a situação, serem as certas para a minha felicidade e a dos meus. Certamente que para a maioria das pessoas, sobretudo depois de terem filhos, os medos e receios são muito maiores e tende-se a viver a vida de forma mais ‘estável’. Nós talvez não sejamos, aos olhos de muitos, uma família estável: estamos de caixas feitas para mudarmos para a nossa 10.ª casa em apenas 8 anos, levamos os miúdos de férias para lugares que não incluem hotéis nem piscinas, tanto vivemos numa casa com cinco quartos como vendemos todos os nossos pertences e vamos viver numa carrinha… A verdade é que a vida pede flexibilidade, pede resiliência, pede capacidade de adaptação e essa é a grande lição que tentamos ensinar aos nossos filhos todos os dias. A estabilidade não está na casa, no estatuto social, no carro, ou no tipo de trabalho que fazemos. A estabilidade está na nossa cabeça e, sobretudo, no coração. Os meus filhos sabem que se estamos juntos estamos bem, tudo o resto são detalhes sem grande importância.

Regressaram a Inglaterra. Como é hoje a vossa vida?

O pai voltou para o mesmo trabalho que tinha antes de irmos para Portugal. Os miúdos, por vontade própria, decidiram experimentar a escola – e estão a gostar muito. Eu estou a trabalhar como freelance para uma revista sobre parentalidade e a trabalhar em dois projetos literários que vão ser lançados em Portugal.

Que projetos são esses?

Um é o livro sobre a nossa viagem por Portugal; será uma espécie de diário de bordo com outras coisas à mistura. Chama-se Coisas do tempo (e histórias de estrada). O outro é um projeto literário para crianças, com a ilustradora portuguesa Marisa Abafa. Serão pequenos livros que contam histórias cheias de musicalidade e movimento, com imagens muito ligadas à natureza, e que visam abordar o mundo dos afetos junto do público mais novo. A primeira história é sobre um ouriço que tinha muita vergonha de ter tantos picos nas costas, e que aprende o valor do amor próprio através de uma amizade muito pouco provável.

Sente falta da estrada? Pensam voltar a ela por períodos longos?

Sempre. Todos os dias. Começámos a trabalhar recentemente num novo projeto de estrada. Queremos muito dar uma volta ao mundo em 2020… de carrinha!

Quando olha para o futuro, vê-se onde e a fazer o quê?

Penso que por muito que possamos viajar, ou até viver curtos períodos de tempo noutros países, a nossa casa vai ser o País de Gales, onde vivemos neste momento. Ficaria feliz se os meus filhos ganhassem raízes aqui, mesmo que cresçam ramos pelo resto do mundo. Quanto a mim, vejo-me a escrever… em Português!

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