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A extraordinária vida da Miss Bolívia que se tornou artista plástica

Se a D. Maria Pia soubesse passava-se, afinal também ela foi artista! Na vetusta e austera Sala dos Embaixadores do Palácio Nacional da Ajuda, Sonia Falcone forrou o chão com grandes taças de cerâmica cheias de especiarias e tintos em pó de todo o mundo. A instalação chama-se ‘Campo de Color’ e é, como toda a obra de Sonia, uma espécie de nova cartografia do mundo, unificada, sem fronteiras, onde o amarelo do açafrão vive em paz e harmonia com o castanho tropa dos cominhos, e toda a sala se sente no nariz, ainda antes de nela se entrar, ainda na escadaria, e ver aquele mapa tão belo e inusitado. Foi uma das peças mais fotografadas na Bienal de Veneza de 2013 e é um dos grandes orgulhos de Sonia.

A lacuna maior desta entrevista é faltar-lhe som e imagem móvel: a velocidade do discurso castelhano, o riso solto, os braços imparáveis e as mãos loquazes são mais que metade do encantamento com que Sonia Falcone nos conquista e que são também parte integrante do discurso artístico que podemos ver já espalhado por todo o Palácio da Ajuda.

Apaixonou-se por Lisboa enquanto montava esta exposição: “Estou no Pestana Palace, dizem que é a casa de Madonna, pois não, não é, agora é a minha casa. Estou encantada com Lisboa, quero viver cá, é a cidade mais bela do mundo e as pessoas são extraordinárias.”

Como é que se passa de Miss Bolívia a artista plástica deste calibre?

Eu acredito que todos temos um caminho de vida pretraçado e nunca sabemos qual é o nosso verdadeiro propósito. A minha vida tem sido como a de uma fénix, que arde e renasce de novo. Eu era como uma princesa de um conto de fadas, tudo era perfeito, 3 filhos lindos e adoráveis, o melhor marido que possa imaginar, e de repente, bum! Cai-me em cima uma depressão daquelas, das que não te deixam sair de casa, da cama, nada! Um meu amigo disse-me “pinta, vai fazer-te bem” e eu respondi que nunca tinha feito tal coisa, que não sabia pintar e que não via como tal me poderia ajudar. Mas diziam-me que “um artista nasce artista” e eu, ok, deixa lá ver, se esta é a minha chamada e este é o plano de Deus para mim, vou tentar.

Foi um processo fácil?

Não! Vê esta escultura? Chamo-lhe Caminhar sobre Ovos, a minha vida durante esse período era um ou dois passos para cima, um bocadinho de felicidade, e três passos para trás, para pior do que estava antes. Era assim que eu estava, a branco e preto, sem ver cor alguma.

Onde aconteceu esta sua catarse?

Na altura vivia já nos Estados Unidos, mas durante este curto período estava eu no México, e quando estava na praia comecei a rezar, a rezar, a pedir a Deus que me mostrasse um plano para a minha vida, um propósito. Tinha começado a pintar há pouco tempo e fui a uma loja comprar tintas (só tintas, comecei a pintar com as mãos, sem pincéis). Estava num hotel, o Hotel Hope (Esperança, vê aqui o desígnio?) e comecei por uma pequena obra, depois uma segunda, uma terceira e em pouco tempo, sem me dar conta, tinha chegado às setecentas! Numa dessas noites, estava a ler Juan de la Cruz, o poeta monge carmelita do século XVI, o poema ‘La Noche Oscura del Alma’, na mesma altura em que a minha alma buscava Deus, em que estava tão em baixo, e senti-me de repente ressuscitar, como a fénix, e disse a Deus que lhe entregava a minha vida e que ele fizesse comigo o que bem entendesse, eu estava pronta!

Como se descreve como artista?

Sou antes de artista uma mulher entregue e apaixonada, intensamente, em tudo. Não faço nada pelo meio, se decido fazer alguma coisa, faço-a toda. Onde entra Sonia, vavavuummm! Entra paixão! Amor! Intensidade! A minha obra é toda de cor, energia, força! Mas tudo acontece graças a Deus.

Como foi possível fazer esta exposição que ocupa quase todo o Palácio da Ajuda?

É um sonho tornado realidade, é mesmo um conto de fadas, tipo Cinderela. Nunca pensei que me seria possível expor num Palácio assim, tão belo, com tanta História. Tudo começou graças a uma extraordinária amizade com Príncipe Charles-Philippe d’Orléans, que faz parte do grupo de Amigos do Palácio da Ajuda. Há algum tempo, cerca de dois anos, falámos sobre esta possibilidade, e pronto, é agora a altura. O diretor atual do Palácio, José Alberto Ribeiro, que é um homem incrível, que trouxe uma vida renovada a esta instituição (imagine, na mesma altura, uma exposição como a minha ao mesmo tempo que o grande Miró também aqui está!), também apoiou a ideia.

É verdade, está a decorrer ao mesmo tempo aqui a exposição do Miró.

Sim, e é tão bom. De uma certa forma parece que ambas as exposições estão conversando, Miró como o grande precursor da arte contemporânea e a minha, atual. Eu não sabia que a exposição do Miró estaria aqui ao mesmo tempo, só soube quando cheguei para montar a minha e vi o cartaz!

Como vê o casamento da sua arte, tão nova e tão de agora, com este Palácio antigo, importante e histórico?

Foi o melhor que me aconteceu na vida. Em princípio, na História do mundo, não há repetição de factos. Mas vê bem, aqui viveu D. Maria Pia, uma Rainha, uma Artista, que também foi pioneira nas artes, que também, à época, foi uma artista contemporânea, fotógrafa, pintora, desenhadora, uma mulher do mundo, uma influenciadora. E a mim, uma menina da Bolívia, permitiram-me entrar no espaço que foi dela, com a minha arte. Deram-me a possibilidade de me rever na vida dela, usar um espaço tão extraordinário que foi o seu, e nem de propósito, tenho uma peça em mostra junto a um seu retrato, em que a Rainha não ostenta joia alguma, nada. E a peça, chama-se “Gotas de Sangre”, tem uma grande bola de vidro cheia de liquido vermelho, sangue, e outra mais pequenina, completamente vazia. Esta mulher, a quem o país deu tudo, viu-se sem nada no final, quando o mesmo país tudo lhe tirou. É a peça em que nossas histórias se encontram.

Ser mulher, da América do Sul, facilita a vida a uma artista ou pode ser um entrave?

Creio que ser mulher, e ser artista, torna sempre a vida mais complicada. Mas tenho a certeza também de que nada é impossível; todas as obras são 99% de esforço e 1% de sorte. Se trabalharmos as coisas acontecem, é assim na América do Sul, nos Estados Unidos, em Lisboa, em todo o mundo.

Ter sido Miss Bolívia em 1988 foi uma ajuda no processo até chegar aqui?

Não! Esse foi um período extraordinário da minha vida, quando era muito jovem e o meu sonho era viajar, essa foi a razão para ter concorrido a Miss, não foi achar que era linda e querer ser famosa; a minha primeira questão foi “Quais são os prémios?” E ser Miss não é apenas ser bela, tens que ter muita disciplina e fundo.

O mundo de hoje não é o melhor dos mundos; está partido, frágil, dividido. O que pode a arte fazer por nós e pelo mundo?

Penso que a arte, seja ela de quem for, é sempre um ponto de vista espiritual. Que dá à vida uma direção e um sentido. Quando a arte é criada apenas superficialmente, não nos fala, não nos toca. A minha até pode ser simples, ou a de uma criança de 5 anos, ou outra qualquer feita com poucos meios. Mas tem que contextualizar e conceptualizar. Deus é o maior artista, e a sua maior obra é a natureza. Disse Malraux que “a arte do século XXI ou é espiritual ou não é arte”. Eu penso da mesma forma. Tenho uma peça na exposição que é um holograma de um coração animado, a bater, ritmado, com o som da batida a encher a sala. Com ele gostaria de levar as pessoas a pensarem “Quem sou? De onde venho e para onde vou? O que estou a fazer com a minha vida? Qual o meu propósito?” Qualquer um de nós deve a si mesmo evoluir no caráter e na relação com o outro.

 

Exposição “Campos de Vida”, por Sonia Falcone

Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa

16 de setembro a 31 de dezembro

Entrada incluída no bilhete da visita geral

Por João Galvão