E se a pílula lhe estiver a roubar o desejo sexual?

(shutterstock)

Tão importante quanto conhecer a diversidade de métodos contracetivos disponíveis no mercado, é também relevante não descurar os alertas que o corpo vai revelando. E se o desinteresse sexual se instalar e sentir que o prazer diminui, então, se calhar, é tempo de, o juntar a um rol de fatores da vida pessoal que devem ser apreciados, voltar ao médico de planeamento familiar ou ao da especialidade para tirar algumas dúvidas.


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“Os contracetivos não são todos iguais, não são os mesmos para todas as mulheres e nem sempre é o mesmo para toda a vida”, afirma Joaquim Neves. Para este médico de ginecologia e obstetrícia do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte, a solução “passa por ir testando qual a formulação que gera menos queixas”, sempre sob vigilância.

Num país onde a pílula é o contracetivo mais usado, será que o sexo feminino está a recorrer ao método que melhor se adequa ao corpo de cada mulher? O especialista lembra que “já há produtos naturais disponíveis no mercado português, já há pílulas bioidênticas” e há, claro, a possibilidade de “experimentar baixar a dose”.

“Os contracetivos não são todos iguais, não são os mesmos para todas as mulheres e nem sempre é o mesmo para toda a vida”, afirma Joaquim Neves, ginecologista e obstetra do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte

Tudo isto implica, porém, a necessidade de acompanhamento e de idas regulares ao médico para avaliar as consequências. “A maior parte das vezes as pessoas não têm a noção de que estão a perder a libido”, afirma, também, o especialista. E só depois de um intervalo na toma da pílula é que muitas mulheres descobrem, por vezes, o desejo, o prazer sexual e até o orgasmo. Portanto, é importante deitar por terra mitos em torno dos anticoncecionais e procurar respostas sobre todos.

De entre os métodos hormonais, a possibilidade de colocar um Dispositivo IntraUterino (DIU) de baixa dosagem não deve ser descartada. “Os DIU são métodos mais eficazes e de maior durabilidade, que podem ir dos 3 a 5 ou dos 3 a 10 anos”, afirma Joaquim Neves, que defende, também, que o planeamento familiar deve introduzir o tema da maternidade com o intuito de responder a perguntas como “a mulher pretende ter filhos? A partir de quando? Quantos espera ter?”. As respostas a estas perguntas servem também de guia na escolha do método mais indicado.

“A pílula, para algumas mulheres, pode ser essencial para resolver problemas de saúde, mas é muito importante haver uma análise cuidada caso a caso. Parece-me que esta realidade está a mudar cada vez mais, com a integração da sexualidade como parte da nossa saúde num todo”, diz Carmo Gê Pereira

Para Joaquim Neves há ainda um outro fator a considerar: “Em Portugal, é muito difícil as pessoas mudarem de hábitos”, justificando assim o facto de a pílula – face a outros métodos como o penso/adesivo, o anel vaginal, implante subcutâneo ou outro – continuar a ter um predomínio tão efetivo.

Para Carmo Gê Pereira, educadora sexual para adultos e conhecedora de vários relatos de mulheres que vão para lá da falta de libido e chegam a sintomas como a “ansiedade e depressão”, o problema pode não estar na pílula em si própria, que, lembra, “é um fármaco, mais do que um método contracepcional. O problema está em ela constituir o modelo hegemónico. Porque a pílula, para algumas mulheres, pode ser essencial para resolver problemas de saúde, mas é muito importante haver uma análise cuidada caso a caso”, afirma a educadora sexual.

E as pílulas de menor dosagem resolvem o problema? “Já me foi dito por profissionais da área de saúde que determinadas pílulas de última geração têm até maior efeito na libido. A sexualidade ainda é vista como um acessório à saúde e não como parte integrante da nossa saúde e a falta de libido não é, para muitos pacientes ou profissionais de saúde, sintoma suficientemente forte para alterar esta realidade”, afirma.

De acordo com o estudo das práticas contracetivas das mulheres em Portugal, realizado em 2015, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Contraceção e a Sociedade Portuguesa de Ginecologia, 81% das quatro mil inquiridas, com idades entre os 15 e 49 anos (idade fértil), associa o uso da contraceção a uma melhoria da qualidade de vida.

A pílula continua a ser o método contracetivo mais usado em Portugal, com 58,2% de respostas. Há, porém, que destacar o facto de 22% das participantes ter reconhecido o esquecimento frequente da toma daquele comprimido. O preservativo masculino é, com 20,6%, a segunda opção mais documentada. Ainda não há dados sobre a taxa de satisfação sexual por método usado, mas o especialista Joaquim Neves revela que está já a correr um estudo que, entre outras matérias, procura encontrar aquela resposta junto das inquiridas.

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“A escolha deve ser sempre da mulher, o médico deve ter um papel de conselheiro”, afirma o ginecologista e obstetra. Carmo Gê Pereira considera que “as pessoas têm de conhecer os métodos e os seus efeitos. Os médicos devem informar em que medida um determinado contracetivo de base hormonal pode afetar o desejo sexual, usando estudos disponíveis, e a pessoa que procura respostas deve ir preparada com perguntas para que tenha acesso a toda a informação. É também importante perceber que a pílula e os contracetivos de base hormonal não servem apenas para controlar o ciclo menstrual”, afirma esta educadora sexual.

“É importante perguntarmo-nos porque é que lhes cabe a elas usar os métodos invasivos e não também a eles? Qual o valor de cada corpo mediante o género?”, afirma Carmo Gê Pereira

A sociedade tem também – defende Carmo – um papel a desempenhar: “Tem de haver uma desmistificação da libido. Por outro lado, deve também haver uma desmistificação do uso do preservativo”, refere.

Num país em que a maioria dos métodos contracetivos utilizados são de base hormonal, a educadora sexual vinca que “já está em teste um gel masculino que faz uma espécie de vasectomia temporária nos homens”. Por isso, considera Carmo Gê Pereira, a discussão de género também não pode ficar esquecida: “É importante perguntarmo-nos porque é que lhes cabe a elas usar os métodos invasivos e não também a eles? Qual o valor de cada corpo mediante o género?”

“Há uma série de questões que a sociedade tem de resolver e que passa por destruir mitos sobre a sexualidade e pelo duplo padrão que existe sobre as mulheres e a libido: se não têm, são disfuncionais; se têm, são vistas – já foi mais do que agora – como ninfomaníacas. Ainda há réstias de uma moral prescritiva na forma como a sexualidade é patologizada ou usada. Há um controlo profundo sobre o desejo da mulher e isso são temas que teremos de lidar enquanto sociedade, a par do autoconhecimento, do consentimento e da autodeterminação sexual de todos os seres humanos. É preciso olhar para o problema da sexualidade e do desejo de frente e de várias frentes”, pede.

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