Ter ou não ter filhos ainda é uma questão, até na política

epa05418306 Scottish First Minister Nicola Sturgeon and her husband Peter Murell in the Royal Box on Centre Court prior to the men's singles final between Andy Murray and Milos Raonic during the Wimbledon Championships at the All England Lawn Tennis Club, in London, Britain, 10 July 2016.  EPA/ANDY RAIN EDITORIAL USE ONLY/NO COMMERCIAL SALES

Ser primeira-ministra e mãe ou ser primeira-ministra e não ser mãe? Eis a questão. Pelo menos a que se discute, frequentemente. Mas ainda se discute porquê, em pleno século XXI? – não deveria ser esta a verdadeira questão?

Será assim tão importante a questão da maternidade ou da ausência dela quando se fala do exercício do poder no feminino? Por que se pergunta às mulheres políticas com tanta insistência se têm ou não filhos e porquê, quando não se faz o mesmo aos homens?

Aparentemente, o útero ainda tem importância política e é tanto mais discutido quanto maior é o número de mulheres a chegar a altos cargos governativos, ou partidários, nos seus países.

Um exemplo que vem da Escócia
Ter ou não ter filhos é uma referência obrigatória nos currículos dos líderes políticos do sexo feminino e, sempre que é notada a ausência de descendência, impõe-se uma explicação pública.

Assim aconteceu recentemente com a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, de 46 anos, que decidiu falar, pela primeira vez, publicamente, sobre o aborto que sofreu, em 2011. A confissão surge como parte de uma entrevista publicada no ‘Sunday Times’, que faz parte de um livro sobre o partido, e como reação às especulações que foram surgindo sobre o facto de não ter filhos.

Na referida entrevista, a líder partidária explicou que não falou sobre o assunto antes, porque não queria que essa situação a definisse e diz que agora se sente preparada para discuti-la, porque não quer que as jovens mulheres a vejam como alguém que sacrificou deliberadamente a maternidade por uma carreira política de sucesso. Ainda assim, Nicola lança a pergunta: “se o aborto não tivesse acontecido, estaria eu, neste momento, sentada aqui como primeira-ministra?” E admite não saber o que responder: “simplesmente não sei. Tenho pensado nisso, mas não sei a resposta. Gostaria de pensar que sim, porque poderia mostrar que ter uma criança não seria uma barreira a tudo isto, mas na verdade não sei.”

Num post que fez depois na sua página de Twitter, Nicola disse esperar que a exposição do seu caso, pelo menos, sirva como um “pequeno contributo para que no futuro estes assuntos sejam respeitados como inteiramente pessoais, em vez de escrutinados e especulados como são agora.”

A justificação de Theresa May
Se por um lado há quem atribua parte da capacidade dedicação das mulheres à política como resultado ou forma de compensar o facto de não ter filhos, por outro há quem espere que as mulheres detentoras de cargos políticos sejam “completas”, uma espécie de “super-mulheres”, modelos de sucesso profissional, pessoal e familiar. E neste caso, o quadro perfeito tem de incluir filhos. Se não incluir é preciso que a mulher, a política, se explique publicamente e apresente um motivo para essa situação. Questões e inquirições que não se vê serem colocadas a um homem que exerça o mesmo cargo.

A necessidade de justificação de Nicola Sturgeon acaba, nesse sentido, por estar na mesma linha da decisão tomada por Theresa May, em julho passado, durante a sua campanha para a liderança dos Conservadores britânicos. Na altura, a agora primeira-ministra do Reino Unido disse, em entrevista, que ela e o marido tinham sido “afetados com o facto de não terem filhos”.

“Às vezes, as coisas que desejamos que tivessem acontecido, não aconteceram, ou há coisas que gostávamos de ser capazes de fazer, mas não somos. Há outros casais em situação semelhante”, afirmou então ao jornal ‘Daily Mail’.

O ser mãe ou não ser mãe também pode ser visto, mais do que um desafio à gestão do tempo para cumprir as responsabilidades, como uma competência política. Nestas condições, as mulheres são percecionadas como menos sensíveis às políticas da maternidade, familiares ou que envolvam crianças, sobretudo pelos adversários do sexo feminino.

Nicola Sturgeon, que é a primeira mulher primeira-ministra da Escócia e que conseguiu os melhores resultados para o SNP, foi classificada de “implacavelmente ambiciosa” por uma deputada dos Trabalhistas, recorda uma reportagem recente da revista ‘Sunday Times’.

A maternidade como arma política
“Falando como mãe”, também é expressão recorrente no contexto político britânico e é usada como uma característica que confere um sentido de realidade e autenticidade mais apurados a quem partilha dessa condição.

Andrea Leadsom, adversária de May na corrida para a liderança dos Tories, chegou a defender que “ser mãe significa ter um grande e real envolvimento no futuro do país, um envolvimento tangível”. Isto num país onde 45% das deputadas do Parlamento não tem filhos, por comparação com 28% dos seus colegas do sexo masculino.

Os dados são da revista ‘New Statesman’, que em julho de 2015, fez capa com líderes políticas sem filhos. Na primeira página, que pode ver na imagem abaixo, quatro líderes europeias aparecem desenhadas junto a um berço, contendo no seu interior uma urna de voto em vez de um bebé. A ilustração vem acompanhada da pergunta, “por que é que tantas mulheres de sucesso não têm filhos?”.

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Portugal a dar os primeiros passos
Na política nacional, a maternidade das mulheres que exercem cargos de poder e a sua compatibilização com esse exercício não tem sido abordada de forma tão direta. Mas a gravidez de Assunção Cristas quando era ministra da Agricultura não passou despercebida na imprensa, que assinalou o facto de, pela primeira vez, um governo português ter uma ministra grávida.

Aos sete meses de gestação, a atual líder do CDS, que se preparava para ser mãe pela quarta vez, ainda se encontrava a trabalhar – outra circunstância assinalada e que lhe valeu os cognomes de “super-mãe” e “super-ministra”.

Tal como com as britânicas, também os currículos das políticas nacionais incluem o seu estado civil e o número de filhos, embora o mesmo aconteça com alguns dirigentes masculinos, dependendo do cargo.

Homens sensíveis Vs mulheres frágeis
A superação imposta às mulheres processa-se a diferentes níveis, sobretudo quando se trata de dirigentes políticas. O jogo das emoções é mais difícil de gerir para elas porque leva a uma realidade conflituante: por um lado, há a necessidade de esconderem emoções, sentimentos e até sofrimento físico sob pena de parecerem líderes frágeis, por outro, se o fazem, deparam-se com acusações de frieza, insensibilidade e dureza.

Como revela Nicola Sturgeon quando refere a razão que a levou a não falar do aborto quando este aconteceu, a imagem das mulheres na política é muito mais definida por certas situações e estados psicológicos do que a dos homens. E o que, em alguns casos pode ser um trunfo político – vejam-se os exemplos de popularidade de políticos mais emocionais como Barack Obama ou, em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa – noutros pode ser encarado como sinal de fraqueza ou vulnerabilidade.

 

Imagem de destaque: EPA/ANDY RAIN

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