‘Filhos do Capitalismo’, um jantar que podia dar um filme

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Tiffany Ng, 30 anos, é empresária na área da restauração, embora esta expressão seja demasiado conservadora para a inovação constante a que se dedica. “Tudo o que esteja relacionado com a bebida e a comida” ela pode, segundo diz, fazer, tudo mesmo, mas já lá vamos. Está em Portugal desde esta segunda-feira para realizar mais um evento Silver Spoon, na próxima semana. Desde 2014 já foram feitos dezenas de eventos exclusivos, em que só se entra por convite, mas ao qual se reduz o caráter elitista uma vez que qualquer pessoa pode aceder ao site e candidatar-se. Enfim, é um processo sofisticado de reserva que torna o produto ainda mais atraente. E esta é outra das coisas que Tiffany faz com sucesso: embrulhar produtos e serviços em formas de comunicação mais eficazes, claro, sempre relacionados com a restauração. Nascida em São Francisco da Califórnia, com mestrado feito em Copenhaga, e raízes em Hong-Kong, tem negócios em várias partes do mundo e uma visão muito particular sobre o dia depois de amanhã.

Como é que começou com o negócio da comida?

Começou tudo em 2009, com o Silver Spoon, em que construímos eventos únicos, jantares pop up, que se transformou agora numa agência de experiências gastronómicas. Agora trabalhamos com empresas privadas, com marcas, que se querem posicionar no mercado, que querem ativar uma marca, tudo através da gastronomia. É bastante interativo e muito criativo. Ao longo dos tempos, deu origem à nossa RSVP, uma nova marca com um ano e meio, uma empresa food-tech, que oferece aos consumidores que viajam a possibilidade de conhecer que eventos gastronómicos mais interessantes a acontecer em cada cidade, enfim, aos consumidores locais também. No site é possível descobrir os eventos e, com o tempo, será possível chegar reservar. É uma espécie de guia de eventos nas maiores cidades. Por outro lado, temos as ferramentas para os atores destes eventos, para que possam simplificar o processo de planificação e de análise. Todas estas coisas relacionadas com o negócio e a consultoria que os chefes, os artistas, podem não estar tão talhados para pensar. Eles querem fazer eventos o mais belo possível, mas esquecem-se do lado do negócio que é preciso acautelar – a contabilidade, a comunicação. Criámos uma solução online que de facto ajuda a resolver estas questões.

Este negócio tem uma base em Portugal?

Estou sempre a tentar fazer negócios em Portugal. Este, em particular, tem uma pessoa da estrutura em Lisboa, mas a empresa está sediada em Copenhaga, na Dinamarca, e estamos mais focados em cidades como Londres, Nova Iorque, São Francisco, Hong-Kong e Berlim. Estamos ativos em 5 países, graças à tecnologia, podemos estar e vários países ao mesmo tempo.

Regressou ontem a Portugal por causa de mais um jantar Silver Spoon.

Parcialmente Silver Spoon, parcialmente RSVP porque esta é a altura ideal. Esta é a altura ideal para jovens chefes, pessoas criativas que testam ideias dentro da gastronomia. Qual é a melhor forma de fazer isso do que um evento pop up? Bem sei que o capital não é abundante aqui e que as pessoas precisam de mais apoio. Mas acredito que se as pessoas precisam de mais segurança para tomar determinados passos, nós podemos dar o pontapé de saída e criar muita atividade económica em torno destes eventos. Faremos primeiro este tipo de eventos em Lisboa e se correr bem tentaremos outrs cidades como o Porto.

Quantos eventos Silver Spoon já realizou em Portugal?

Desde 2014… creio que 15.

E a reação do público qual é?

Tem sido boa. As pessoas são muito abertas a experiências novas. A cultura de sair para socializar é muito evidente aqui, não tanto a cultura de receber em casa. Isso para nós funciona bem. Esta é uma forma muito mais divertida de ir sair, passo a falta de modéstia, e de conhecer pessoas seja por objetivos pessoais seja por objetivos profissionais.

Os eventos Silver Spoon não são apenas eventos gastronómicos.

Não. Essa é a parte mais pequena. É uma percentagem importante mas pequena. O que fazemos é uma experiência completa. Sem aquele som, aquele espaço, a interação com o design não seria a mesma coisa.

Já explorou alguns conceitos, como a adição, a moda… sobre que assunto vai ser o próximo jantar?

Este vai levar-nos de regresso à nossa infância, quando brincávamos ao monopólio. Eu adorava jogar e muitas pessoas à volta do mundo conhecem o jogo. Pensámos qual seria o verdadeiro propósito de jogar ao monopólio. Não era só diversão. Era uma forma de instruir e avisar as pessoas sobre os perigos do capitalismo. Creio que foi lançado à volta de 1910, por Elizabeth Magie. Então chamámos-lhe Filhos do Capitalismo – queremos fazer uma reflexão chique sobre tópicos relevantes que vemos no monopólio, como as empresas de energia, os bancos, os transportes, as energias renováveis, o imobiliário… A localização de cada evento tem de ser relevante e em Lisboa temos que falar da especulação imobiliária. Acabei de saber que o metro quadrado está a valorizar 6% ao mês, é escandaloso, porque temos de pensar nas pessoas que aqui vivem. Os estrangeiros estão a vir para a cidade e a comprar propriedades ou a desenvolver empreendimentos, alguns de uma forma mais consciente do que outros, é certo, e afetam o ambiente da cidade. A imprensa também vai ter um espaço de reflexão sobre jornalismo. As eleições americanas tornam evidente a forma como os media podem influenciar as perceções, de título para título, dependendo do lado em que se situam. Vamos tocar todos estes pontos no mesmo tempo em que as pessoas estão a jogar ao Monopólio. Pode haver competição, alianças, inimigos que se fazem durante a noite… quem sabe? Mas os adultos vão ter a possibilidade de ser crianças outra vez. Essa sensação de ter nas mãos dinheiro de Monopólio e dizer “eu tenho mais dinheiro do que tu” vai ser possível.

 

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Tiffany Ng, num evento Silver Spoon em 2014 (fotografia: João Viegas Guerreiro)

Esta é a parte criativa do seu negócio. Qual é a parte do negócio do seu negócio? Porque é que faz este negócio em Portugal?

Porque a oportunidade estava à vista, a receção foi boa e para mim era uma boa opção não entrar num mercado supercompetitivo onde temos de gastar muito tempo, energia e dinheiro em comunicação para que não se esqueçam de nós. Isso é o que nos acontece em Londres ou Nova Iorque. O custo das coisas é outra parte interessante do negócio. Com os custos que temos aqui podemos oferecer estas experiências por 100 euros. Em Londres seria 300 ou 400 libras. Acabamos por ter mais ou menos o mesmo tipo de lucro, feitas todas as contas. Claro que subsidiamos alguns dos custos, porque estes eventos são também uma ferramenta de marketing para nós, uma forma de mostrar a nossa criatividade e esperamos que por isso os nossos potenciais clientes reparem em nós e venham a trabalhar connosco.

E para lá dos custos quais são os aspetos positivos de trabalhar em Portugal? E os negativos?

A coisa melhor é que as pessoas são extremamente cooperantes, gostam de ajudar. O que às vezes levam ao extremo de se esquecerem da sua própria agenda para ajudarem os outros… isso torna-se um problema. O maior problema é que se deixa, de facto, as coisas para o fim. No fim acaba por funcionar, mas eu como venho do Norte da Europa sinto que é muito mais stressante do que aquilo que necessitava ser. As reuniões, as reuniões longas, também são uma coisa muito popular aqui e eu não estou acostumada a isso. Eu continuo, como no norte, a fazer as reuniões curtas e suaves. Mas estas coisas resolvem-se com gestão multicultural.

A Tiffany tem, de facto, o aspeto multicultural na sua vida. Teve desde sempre.

É verdade. Eu sou nascida e criada em São Francisco da Califórnia. Vivi em alguns sítios nos Estados Unidos. Mudei-me para Copenhaga em 2008, para trabalhar. Fiz lá o meu mestrado, em 2009. Comecei na mesma altura o Silver Spoon. E depois, vivi em Gutemburgo, passo muito tempo em Portugal… Este ano, como nos estamos a focar em Londres, vou lá com muita frequência…

E também tem um passado familiar diverso. Apesar de nascer nos EUA, foi educada como chinesa?

Os meus pais são de muito perto de Hong Kong, tenho um avô de Xangai. Fui criada mais ou menos com essa herança, mas também nasci no lugar mais multicultural dos EUA, portanto cresci com amigos que falavam russo e chinês e espanhol e inglês… Sim, fui educada como chinesa mas não em oposição à educação americana. Acho que sou mais internacional. Cresci de forma intercultural.

E como americana, como é que vê o mundo depois de quarta-feira?

Hoje vs amanhã? Eu vivi tanto tempo fora dos Estados Unidos que já não me consigo considerar apenas americana. Estou preocupada menos com a política interna do que com a política externas. Internamente é uma máquina em câmara lenta, as mudanças não serão rápidas. Independentemente de quem ganhar, o movimento expectável é que, uma vez no poder, se vão aproximando do centro. Já vimos isto em 2008 quando McCaine e Obama concorreram. Ao final da campanha as mensagens estavam cada vez mais próximas e mais alinhadas ao centro. Desta vez menos, mas creio que na prática, é o que irá acontecer.

O candidato Bernie Sanders também empurrou discurso de Hillary para a esquerda.

Sim. Sanders tomou o discurso da esquerda radical. Ele abordou os Estados Unidos como um dinamarquês, chegou a usar a Dinamarca como um exemplo e eu acho que era melhor que ele tivesse vivido lá antes de usar todos estes exemplos. Algumas coisas funcionam, mas outras não… O que mais me preocupa são as realidades do jogo político internacional. Eu tenho formação em direito e política internacional e é claro que isto me preocupa. Há uma clara resposta à pergunta “Quem é que vai prejudicar, imediatamente, as nossas posições internacionais e potencialmente por em perigo a segurança em algumas zonas.” Nenhum candidato é perfeito…

Nenhum dos candidatos tem uma posição pacifista. Hillary Clinton é muito pró-guerra para defender interesses americanos.

Estão os dois a polarizar-se. O problema da política americana é que temos dois partidos grandes, depois temos outros mais pequenos que ninguém conhece fora dos Estados Unidos, e para chegar à frente dos partidos grandes é preciso ter algum curriculum… digamos que não se chega lá a ser bonzinho. Há, claramente, esqueletos no armário dos dois candidatos. E é preciso ter uma postura radical para se tornar tão magnético, de uma forma ou de outra.

Tem-se dito muito que a América nunca mais será a mesma depois destas eleições, por causa do discurso racista e xenófobo de Trump. Aquele discurso corresponde aos Estados Unidos reais?

Eu devo dizer que cresci numa cidade muito diversa. Infelizmente, acho que podemos dizer que sim, o país é como o discurso de Trump. A forma como o resto do mundo vê os Estados Unidos só corresponde ao que a América é na Costa Leste e na Costa Oeste. Tudo o que fica pelo meio corresponde ao estereótipo dos americanos de férias: tamanhos grandes, meias brancas, modos rudes… De alguma forma, esse estereótipo corresponde mais ao americano médio, fora do litoral. O glamour, o entretenimento, a capacidade para os negócios está no litoral e é uma representação muito forte de um grupo demográfico não tão grande. Sim, há pessoas muito racistas, muito ignorantes, e isto envergonha-me. Eu vi um vídeo em que um comediante entrevistava pessoas que diziam que a culpa do 11 de setembro era de Barack Obama… Estas pessoas não sabiam que Obama não era o Presidente em setembro de 2001. Isto é muito assustador, as pessoas não se dão ao trabalho de investigar um pouco mas são capazes de ter preconceitos. Isto também é a América, pessoas com poucos estudos, sem informações.

Este é um dos lados negros do capitalismo?

Acho que se pode dizer isso. A estratificação da sociedade, a supressão de alguns grupos específicos para o benefício de outros que acontece tanto a nível social, como governamental, como no mundo dos negócios… E estão todos interligados. Tudo o que podemos fazer é apresentar as evidências, como se apresentam argumentos num processo judicial, e não dizer que uma coisa está errada ou certa. Não me parece que esteja nas nossas mãos julgar, mas temos de apresentar os nossos argumentos e ter esperança que a informação seja relevante e útil para quem ouve. Claro, o capitalismo levado ao extremo pode fazer criar ambientes muito perigosos. Voltado à sua pergunta, acho que os EUA nunca vão voltar a ser os mesmos, mas acho que não é um problema exclusivo aos EUA, é um problema global, basta olhar para o Brexit. Talvez o que estamos a ver sejam pessoas a protestar, a dizer já chega

Filhos do Capitalismo, o próximo evento do Silver Spoon, quando é que chega a Lisboa?

De 16 a 19 de novembro em Lisboa. Não podemos dizer a localização exata, nunca dizemos. Só dizemos aos convidados 24 horas antes. Para ir, é preciso ser membro do Silver Spoon ou ir a convite de um convidado. Para ser membro não é preciso pagar uma quota, é só enviar um pedido, nós avaliamos e confirmamos a inscrição por e-mail.

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