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‘Uma Aventura’: “Se as personagens dos livros crescessem, hoje estariam a emigrar”

As autoras da coleção ‘Uma Aventura’, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, apresentam o 58º capítulo da saga, que acaba de chegar às livrarias. Juntas imaginam onde estariam as personagens se tivessem crescido ao longo dos 34 anos que a coleção celebra. Ambas falam ainda do papel dos livros infanto-juvenis na formação dos mais novos e da educação em Portugal.

Porquê a escolha da Madeira como palco deste novo livro da coleção ‘Uma Aventura’?

Isabel Alçada (IA) – Fomos à Madeira e achámos que devíamos aos professores a retribuição por nos terem convidado. Apercebemo-nos que trabalham muito bem a leitura junto dos alunos e ficámos entusiasmadas. Pensámos que devíamos fazer uma história de proximidade. Além disso, gostávamos da Madeira, já a tínhamos visitado, mas desta vez fomos com essa intenção de escolher locais para a aventura.

Ana Maria Magalhães (AMM) – Não há português nenhum que não tenha intenção de visitar a Madeira. Quisemos ressaltar a ilha para lá das férias, das praias e dos hotéis. Mas também tem aquele ar misterioso.

IA – A Madeira tem a Laurissilva, que é uma floresta mágica com as sombras, as plantas, aquele emaranhado de vegetação. Fomos pelas levadas e por aqueles caminhos que foram talhados ao longo de séculos e que levam a água, mas também encaminham as pessoas. A paisagem é muito fascinante para adultos e interessante para crianças.

A próxima aventura será em Conímbriga, mas, tal como a vontade de escrever sobre a Madeira, há destinos onde queiram ir?

AMM – Há, mas nem sempre ao nosso alcance. Gostava de voltar à Amazónia.

IA – Eu também. Gostava de ir às Galápagos e poderíamos ir juntas, construir uma aventura. A Madeira é, por um lado, muito cosmopolita e, por outro, muito próxima da natureza, o que a torna interessante.

AMM – E depois está muito fácil lá ir. Em ‘uma Aventura’, quisemos sempre mostrar o país e quando se escreve para crianças é muito importante despertar a curiosidade.

“Atenção, não é só uma questão do que não pode faltar em ‘Uma Aventura’. Nestes livros, também não pode sobrar nada. Não podem ser feitas descrições muito longas”, diz a coautora da coleção Ana Maria Magalhães

Os livros são sempre em locais que existem e e são visitáveis, com apontamentos de atualidade. O que não pode faltar num livro?

IA – Emoção. Quando vamos aos sítios, já levamos alguma informação, fazemos uma pesquisa tendo em vista o que pode interessar aos leitores. Na Madeira, tínhamos as levadas, o miradouro incrível do Cabo Girão, a Casa das Mudas – o nome, o mito das mulheres que não falavam. Tudo isso para os mais novos é muito sedutor.

AMM – Não podíamos falar da Madeira sem falar de Cristiano Ronaldo (risos). Mas atenção, não é só uma questão do que não pode faltar em ‘Uma Aventura’. Nestes livros também não pode sobrar nada. Não podem ser feitas descrições muito longas.

IA – É que os miúdos desistem.

Nesse aspeto, a forma de escrita e a narrativa teve de acelerar face a 1982?

IA – Sim.

AMM – O ritmo a que vivemos é hoje mais rápido do que há 34 anos.

Como se aperceberam disso?

IA – Pelas nossas vidas. Gostamos de ser contemporâneas (risos), não gostamos nada de pasmaceira.

AMM – Os filhos e os netos têm muita importância nessa ajuda de acompanhar a realidade, mas também estamos atentas. Procuramos que cada livro tenha sempre qualquer coisa diferente dos outros e neste livro quisemos incluir a ideia, que fica nas entrelinhas, de que uma pessoa que não recebe amor tem depois dificuldade em se relacionar. Nunca tínhamos tratado disto.

IA – É um tema eterno.

“ Gostamos de ser contemporâneas, não gostamos nada de pasmaceira”, afirma Isabel Alçada, coautora da coleção

Porque só surgiu agora essa temática?

IA – Ocorreu-nos que era um problema que muitas pessoas têm e que podíamos, de alguma forma, ajudar a lembrar os mais novos a pensar nessa questão e a detetar se há alguém com falta de afeto. Quisemos pô-los a pensar sobre isso.

AMM – Já conheci miúdos na escola que não nos deixavam chegar perto. Quando nove professores não conseguem tocar sequer num aluno, então é um problema grave. Achámos que este aspeto era muito importante.

Que importância é que os livros têm tido na formação de gerações?

IA – Embora os livros sejam ligeiros, divertidos e contem peripécias, há sempre determinados valores que estão por trás das nossas histórias: a solidariedade, a amizade, a coesão do grupo, a distinção clara entre o que está bem e mal. Depois, gostamos de espicaçar a curiosidade para o que achamos que vale a pena conhecer. Talvez os nossos livros tenham tido mais influência a levar os mais novos para o gosto pela leitura e para o prazer de estarem mergulhados numa história alternativa. E, com esse gosto, tenhamos levado a um desenvolvimento intelectual.

E no que diz respeito às mulheres?

IA – A Teresa e a Luísa são raparigas com iniciativa, ativas e que se afirmam. Escolhemos personagens que poderiam representar a sua geração e inspirámo-nos em alunas reais. Para os rapazes também fizemos isso.

AMM – As gémeas – com menos força física, é claro – estão a par com eles. Tanto podem ajudar como dão ajuda, dão ideias…

IA – Como correm riscos, como são atrevidas…

AMM – Não são as meninas frágeis. É muito importante passar a mensagem de equilíbrio a essa geração. Eu fui a primeira rapariga da família em que as mulheres puderem ir para faculdade estudar.

IA – Somos da geração em que as mulheres se afirmaram pela igualdade de direitos. Mas ao mesmo tempo, sofreu com isso. Por exemplo, eu não aprendi minimamente a cozinhar e quando casei e fui para a minha casa, queria fazer arroz e não sabia (risos). Tinha de telefonar para casa da minha mãe. Hoje em dia, os mais velhos ensinam os mais novos. Na altura, quando íamos estudar para a faculdade, não estávamos necessariamente a colaborar noutro tipo de tarefas. Hoje, os meus netos sabem cozinhar e fazem-no lindamente (sorriso).

AMM – Ensinei aos meus meus filhos, um rapaz e uma rapariga, a mesma coisa, desde muito cedo, mas não necessariamente a lutar por igualdades difíceis de atingir.

Ana Maria Magalhães (Gustavo Bom/Global Imagens)

Ana Maria Magalhães (Gustavo Bom/Global Imagens)

“A Teresa e a Luísa [personagens da coleção] não são as meninas frágeis. É muito importante passar a mensagem de equilíbrio a essa geração”, afirma Ana Maria Magalhães

IA – Na nossa geração, as mulheres, muito frequentemente, acabavam por adquirir algumas competências, mas os homens ainda estavam conformados com o papel antigo. Ou seja, eles defendiam na garganta a igualdade e depois chegavam a casa e punham-se a ler o jornal enquanto a mulher ia fazer o jantar. E como nós, mulheres, queríamos provar que conseguíamos fazer e compatibilizar tudo, ficávamos arrasadas. Na minha infância, éramos três irmãs e o meu pai treinava-nos, por exemplo, para subir às árvores, para não termos medo. Adorei a educação que recebi e hoje, quando vejo alguém ter medo, irrita-me um bocadinho.

AMM – Na minha família não era assim, se fosse uma menina podia chorar. Mas o meu irmão já não podia.

As personagens não crescem ao longo destes 34 anos. Elas não deviam crescer?

AMM – Cada livro da coleção é como se fosse único, o que permite aos leitores poderem começar em qualquer aventura, saltar ou fazer tudo por ordem. Se as personagens crescessem, os problemas seriam os de emprego, os do casamento, os da família.

IA – Sendo uma coleção juvenil e infanto-juvenil, as personagens têm de se manter e devem ter uma idade próxima do leitor. Há só um livro em que avançam um ano. Mas se não fosse assim, hoje estariam nos 30 e muitos anos.

AMM – Se crescessem, hoje estariam possivelmente a emigrar (sorriso).

O que seriam eles hoje em dia, como os imaginam?

IA – O Pedro provavelmente seria um cientista, num projeto de investigação numa rede internacional, na qual teria um papel determinante. O Chico…

AMM – Podia ser um treinador de futebol, um Mourinho… (risos)

IA –… Ou um gestor de desporto

AMM – o João seria um veterinário.

IA – Ou um criador de cão de água.

E a Teresa e a Luísa?

IA – Podiam ser jornalistas de televisão, de rádio ou de imprensa escrita. Podiam ser gestoras, advogadas.

AMM – Elas tinham grande poder de argumentação e ousadia.

IA – Poderiam ser excelentes professoras (risos).

“Quando começámos, a nossa ideia era escrevermos para miúdos do quinto e sexto anos, mas agora já há crianças do terceiro e quarto anos que já leem”, considera Isabel Alçada

As personagens não se movem. Mas escrevem hoje para as mesmas faixas etárias de há 34 anos?

IA – Felizmente, a idade baixou um bocadinho, tem havido mais interesse pela promoção na leitura e o facto de os professores lerem, na aula, livros que agradem aos alunos tem sido muito importante para que os mais mais novos começassem a ler mais cedo, que adquirissem o gosto e a prática da leitura. Quando começámos, a nossa ideia era escrevermos para miúdos do quinto e sexto anos, mas agora já há crianças do terceiro e quarto anos que já leem.

Faz sentido começar a ter os livros apenas só no online?

IA – O livro em papel é agradável, é um objeto. Este fim de semana estive com a neta de uma amiga que leu o livro no tablet e, como tinha gostado muito, foi comprar a edição em papel (risos). Portanto, o objeto ainda tem o seu valor.

AMM – Mas não estou certa que daqui a 50 anos seja assim.

Tratando-se de gerações mais novas, elas não pedem isso?

IA – É natural que haja cada vez mais essa desmaterialização do livro, mas ainda há sempre aqueles que gostam muito do objeto.

Era melhor que os alguns governantes tivessem feito exames e tivessem chumbado. Alguns são péssimos”, afirma Ana Maria Magalhães

Isabel Alçada foi ministra da Educação (2009-2011): o que mudou na forma de olhar esta realidade depois de ter passado pelo cargo?

IA – Tenho uma visão mais abrangente, mais interessada e preocupada porque sei que não é tão fácil resolver os problemas como se julga. Em todo o caso, continuo a sentir que é uma área determinante do desenvolvimento do país.

O que a impressionou e o que a desiludiu?

IA – Impressionou-me a forma como as escolas estão empenhadas em progredir. Por vezes, há a ideia de que os professores não se empenham o suficiente. É verdade, como acontece em todas as áreas, que esses existem, mas a maioria quer trabalhar bem. O que me desiludiu? Não houve nada que em desiludisse, o que às vezes é difícil de aceitar é que o país não disponha dos recursos financeiros para ir mais depressa. Para educar, precisamos de pessoas, recursos, bibliotecas equipadas, diversidade de livros, tablets e os computadores nas escolas. Sem isso, torna-se mais difícil sentir que vamos a um ritmo acelerado, como devíamos ir. Agora, para quem é responsável pela educação – seja ministro, seja diretor da escola, seja professor -, quer que a escola tenha tudo o que é melhor para que todos tenham as mesmas oportunidades. Nós ainda não garantimos a igualdade.

E como olha para a questão dos exames?

IA – Há estudos internacionais que demonstram que não é por fazer mais exames, por exigir mais que se consegue mais. Às vezes até é contraproducente e temos de ser prudentes. Na Europa, Malta é o único país que tem exames de quarto ano. Porquê? Porque os outros países deixaram de fazer porque sabem que é contraproducente, porque os professores sabem que vão treinar e ensinar as crianças para determinadas matérias e deixam o resto para trás. Há uma educação mais desequilibrada. Não é importante que as crianças tenham uma educação artística adequada? Que saibam apreciar música? Os exames trazem treino sobre o que vem no exame e, no nosso caso, era só sobre matemática e sobre português. E, mesmo nestas áreas, treinava-se o que se supunha que viesse nas provas.

Mas também não é ao mesmo tempo estranho que a três, quatro meses de exames já marcados tenha sido instalada a indefinição?

IA – Não é um impasse. Se se estivesse a dois ou quatro meses e surgisse algo novo de que não se estava à espera, aí seria complicado impor. Agora dizer: ‘isto não está bem e causa problemas…’ E ainda há outro aspeto que é importante destacar: aumentou a repetência nos níveis anteriores aos exames.

Porquê?

IA – Os professores, na ideia de que iria haver exames, retinham os alunos mais cedo para que não chumbassem depois. Estes efeitos estão estudados. Quando algo está mal, temos de mudar e acho que fizeram bem em tirar os exames e não prejudica. O que não se deve fazer é lançar novidade a meio do percurso, o que exige preparação em pouco tempo.

Foram criadas provas de aferição já com o segundo trimestre em curso.

AMM – Se me permite, a sensação que tive é que estamos já bem entrados no século XXI e esta equipa do Nuno Crato [ex-ministro da Educação do governo de Pedro Passos Coelho] tem a cabeça nos anos 40. Aquela coisa do exame da quarta classe no tempo de Salazar não era, senão, para fazer uma peneira: quem não sabia, ia fora, e fora para trabalhar.

Mas o objetivo agora era esse?

IA – Era selecionar.

AMM – A escola era para selecionar. Agora, em 2015 quando um futebolista ganha mais que todos os médicos portugueses e espanhóis juntos, a grande mulher portuguesa conhecida no mundo é a Joana Vasconcelos, não é a discutir os clássicos, nem a falar só da matemática… O mundo deu uma cambalhota e nós estamos ali agarrados à gramática e aos exercícios?

IA – Se afunilarem o ensino, estamos a prejudicar gravemente os alunos que têm outras valências noutras áreas.

Isabel Alçada (Gustavo Bom/Global Imagens)

Isabel Alçada (Gustavo Bom/Global Imagens)

“Devia haver uma planificação [para a educação] a prazo que não andasse aos soluços conforme a cabeça do governante”, diz Isabel Alçada

E porque não há um plano nacional estabelecido entre as várias forças políticas?

IA – Isso é um problema das oposições, é difícil fazer um plano educativo.

Mas o que impede?

AMM – Ora, entre 1975 e 1993 não houve exames. Portanto, os nossos cientistas que estão a dar cartas em todo o mundo, e que têm hoje 40 e tais anos, não fizeram exame nenhum.

IA – E alguns governantes também não (risos).

AMM – Era melhor que tivessem feito e tivessem chumbado. Alguns são péssimos (risos).

Porque não juntar esforços e acabar com alternâncias?

IA – Isso está relacionado com questões políticas e não com questões filosóficas e pedagógicas. É grave. Devia haver uma planificação a prazo que não andasse aos soluços conforme a cabeça do governante. Eu não mudei nada, fiz pequenas alterações, ajustamentos, mas não fiz ruturas. E se repararmos bem, muitos outros ministros também fizeram isso.

E isso teria sido possível se antes de si como ministra da educação, tivesse estado um governante social-democrata? Afinal, Isabel Alçada assumiu a pasta no segundo mandato de José Sócrates como primeiro-ministro.

IA – Houve governos sociais-democratas que tiveram linha de continuidade. Onde houve mais rutura foi no anterior governo.

AMM – Nuno Crato é professor de Matemática, da faculdade, não faz a menor ideia do que é uma escola com crianças de dez anos e da diversidade que se vive no país, dos Açores ao interior. Ele queria fazer um molde e encaixar todas as pessoas a martelo. Não é possível, não é justo, nem conduz a nada. Eu fui professora a maior parte da minha vida e sem exames, o que me permitia trabalhar de uma maneira com um certo tipo de alunos e de outra com outros. Navegava à vista e essa é a única maneira possível.

IA – Devia aprofundar-se a diversidade de respostas para a diversidade de situações no sistema educativo. Nunca afunilar, nem uniformizar.

CARLA BERNARDINO