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Vicky, a rainha da arrumação

Declutter é a nossa nova palavra favorita e foi Vicky Silverthorn que no-la ensinou. Não tem tradução direta, mas tem tanto de arrumação como de tornar a vida mais fácil e leve -a ideia é sempre deixar de ser desarrumado, de guardar coisas que não fazem falta, de ter peças em duplicado. Falámos com Vicky a propósito do seu primeiro livro, ‘Comece pela gaveta das meias – e o resto virá depois’, publicado já em Inglaterra, Portugal e França.

Como é que se chega a Especialista em Arrumação?

Trabalhei durante 10 anos como Assistente Pessoal para golfistas profissionais e acompanhava-os em viagens ao redor do mundo. Depois fiz a mesma coisa para um agente de futebol e para os seus 25 jogadores.

Para todos?

Sim! Para todos! E depois fui Assistente Pessoal da cantora Lily Allen, durante 3 anos, e também com ela tive que viajar, e com todos, desde o início, grande parte do meu trabalho era muito mais do que computador, acabava sempre por lhes organizar a vida fisicamente. Com a Lily acabava sempre as noites – de dias sempre diferentes – a organizar-lhe a maquilhagem, a certificar-me que todas as roupas estavam prontas e bonitas, muito mais coisas do que apenas a agenda.

Mas quando é que resolve deixar de ser assistente pessoal?

Quando a Lily teve crianças e decidiu parar um pouco. Pensei no que poderia fazer dali para a frente. O que é que eu gostaria mesmo de fazer? Concluí que isto é o que mais gosto: de organizar a casa dos outros, e assim fazê-los mais felizes, ajudando-os a recuperar o controlo das suas vidas. É o que eu mais gosto e pareceu-me ser este o próximo passo perfeito para mim.

 

Having a great day with @thissurreymummy sorting out her wardrobe! Feeling clear and organised already 3 hours in!

Uma publicação partilhada por You Need A Vicky Ltd (@youneedavicky) a

Tem mais homens ou mulheres como clientes?

Cerca de 90% de mulheres.

90%? Então as raparigas são mais desarrumadas?

Não! A maior parte das vezes são elas que me contactam, mas em nome da casa e da família. São mulheres que trabalham, muitas com os seus próprios negócios, e alguns homens, mas o que todos têm em comum é a falta de tempo. Este é também o público-alvo a quem o livro se dirige, pessoas sem tempo que têm que passar o fim de semana a arrumar e a limpar e que depois se sentem culpadas por não o terem passado com os filhos. É dar às pessoas um plano inteligente de divisão do tempo e fazer-lhes perceber como é tão fácil e possível ter uma casa organizada.

É cara?

Sou. Devemos ser a empresa que faz este serviço mais cara do Reino Unido. Não só devido à minha experiência com os clientes anteriores mas porque, ao contrário de outros, não vai apenas um elemento para lidar com o problema; somos sempre pelo menos duas pessoas (muitas vezes somos mais), um organizador sénior e um ‘ajudante de campo’, e no mínimo gastamos um dia com cada projeto, mas demoramos o tempo que for preciso.

E no dia seguinte? Deixa ao cliente um manual de instruções para bem manter o seu trabalho?

Tento fazê-lo verbalmente apenas. Tento não deixar muitas regras para seguir, porque quando têm uma lista escrita a maior parte das pessoas sente que tem mais uma coisa na lista de deveres. O que tento fazer é implementar sistemas que se possam naturalmente cumprir no dia-a-dia, sem esforço.

Uma filosofia ‘natural’?

Absolutamente! O sistema de organização, para ser eficaz, tem que se auto-preservar sozinho, sem listas escritas, sem etiquetas, tem que ser feito em automático e sem esforço.

A mesma coisa com as roupas, um sistema fácil e simpático que funcione naturalmente para que o cliente não precise deste tipo de consultoria constantemente. Para mim, um sistema demasiado intrincado significa que as pessoas irão falhar, mesmo antes de começar. Pela mesma razão não adotamos chavões do tipo “quando foi a última vez que usou” ou “se não usar durante um mês seguido deite fora”, as pessoas têm mais com o que se preocupar.

 

No próximo dia 20 de maio, a IKEA vai promover uma campanha sobre arrumação e organização. Pensa que este é um novo nicho de mercado?

Definitivamente! É sintomático quando uma grande empresa como o IKEA se envolve diretamente nestas coisas e propõe soluções, em vez de apenas fornecerem mobiliário e elementos de arrumação: as pessoas, antes de comprar, têm que saber como e porquê usar isto e não aquilo. Depois de decidir arrumar, têm de saber o que é preciso e só depois comprar, não o contrário, comprar e só depois decidir como usar aquele móvel.

Somos nós, os desarrumados e os desorganizados, todos iguais, ou existe uma espécie de categorias de tipo?

Penso que toda a gente é diferente também nisto. Pela minha experiência, há gente que é desarrumada e diz que “eu sou naturalmente desarrumado”, depois há os desarrumados apenas porque não têm um sistema adotado. Há também as pessoas que mudaram de casa, têm tudo guardado e porque não têm ainda tudo como imaginaram ter, acabam por se desorganizar. E depois há simplesmente gente que tem coisas a mais, que vivem num T2 mas têm coisas para um T4. Sabe aquilo que se diz de “vive com o que tens, com aquilo que podes ter?” Em casa é a mesma coisa.

Mas o nosso caso, nós os que gostamos mesmo daquelas coisas, e que apesar de não as usarmos, não as conseguimos deitar fora, o que há a fazer?

Se amar mesmo essas coisas, e se tiver onde as guardar, eu nunca o quereria convencer do contrário. Se é feliz assim, e estas coisas não são um peso, não provocam stress nem ansiedade, tudo bem. Tenho muitos clientes assim, que guardam coisas que amam e não se conseguem desfazer delas, por exemplo roupas: adoram-nas, mas aquelas roupas nunca mais lhes servirão. Se as guardarem para os filhos, fantástico! Por exemplo, e este exemplo eu uso no livro, imagine que a sua avó lhe deixou um super casaco, mas não o usas. Vai ficar numa caixa, escondido no sótão durante vinte anos. O que eu acho é que isso é triste, para o casaco e até para a memória da avó! Ela não gostaria disto com certeza, e aquele estudante de moda que não tem muito dinheiro ficaria tão feliz com ele! Até já está a sorrir com a ideia!

É pro feng shuey?

Por causa do que faço e como o faço nunca o estudei. Quando entro num quarto e as coisas estão numa disposição incorreta sinto-o no estômago, cá dentro, e o cliente sente-o também. Por isso rodamos os elementos pela divisão, em função do que sentimos, até atingir a perfeição. Nunca ‘enevoei’ a cabeça com outras formas de o fazer, nem sigo regras nem decretos.

Já houve vezes em que entrei numa divisão orientada pelo feng shuey e aquilo não funciona, a cama só está ali porque o feng shuey manda, e não porque funciona melhor.

Que clientes tive verdadeiramente especiais?

Muitos! Jamie Gornan, o protagonista das 50 Sombras de Grey, Robbie Williams e a esposa, e a cantora Lily Allen, claro, foi das primeiras e ainda trabalho com ela.

E qual o mais divertido?

Penso que o apresentador de televisão Jonathan Ross.

Porquê este título, ‘Comece pela gaveta das meias’?

A ideia é que tens começar por algum lado, e a gavetas das meias, por ser um espaço contido e tão fácil de arrumar, provoca um impacto enorme na forma como nos sentimos. É uma tarefa possível, facilmente realizável, em 20 minutos no máximo. Arrumas esta gaveta e na manhã seguinte, quando a abrires, sentes-te bem! E se te sentes bem como uma coisa tão insignificante como uma simples gaveta de meias, imagina como te sentirás com o resto do espaço.

‘Comece pela gaveta das Meias’ já está nas livrarias e custa €14,99.

João Galvão