“Vou amamentar até que a minha filha queira”

Irene tem dois anos e todos os dias mama de manhã, ao fim da tarde, quando a mãe, Joana Gama, chega do trabalho, antes de deitar e ainda, se possível, durante a noite. É assim há já algum tempo e a locutora de rádio da Mega Hits, com 29 anos, não se importa de manter este ritmo. Não se importa, aliás, de fazer desta opção uma palavra de ordem e criou, para isso, e para escutar outras mães, o blogue ‘A mãe é que sabe’.

“Vou amamentar até que a minha filha queira, sou daquelas que acredita no desmame natural e que acredita que não devemos tirar a mama ao bebé”, afirma esta mãe de 29 anos, admitindo que só foi possível por trabalhar numa empresa que, a par da licença de maternidade, lhe permitiu juntar um ano de licença sem vencimento e não se opõe, atualmente, a que a mãe faça horários um pouco mais flexíveis. “Se tivesse de amamentar de meia em meia hora é claro que teria de repensar, mas os tempos vão diminuindo gradualmente, o que me permite ter esta opção”.

“Quando voltei ao trabalho e quando tive de tirar leite, lá vinham as graçolas da vaca e de que me estava a mungir. Atenção, nada disto foi bullying, foram brincadeiras”, recorda Joana Gama.

Uma escolha de Joana Gama nem sempre entendida: “A minha mãe, que deixou de me amamentar quando eu tinha três meses, é muito prática e tenta não me transmitir as suas estranhezas, mas nota-se que olha para mim como se eu fosse uma alienígena”, diz, bem disposta. E Joana continua: “A minha sogra também tenta compreender”, afirma. Os colegas, então, manifestaram sempre “estranheza absoluta”. “Quando voltei ao trabalho e quando tive de tirar leite, lá vinham as graçolas da vaca e de que me estava a mungir. Atenção, nada disto foi bullying, foram brincadeiras.”

“Acho que há uma perpetuação enorme de mitos na sociedade e, por haver estas ideias feitas, arriscamo-nos a que as mulheres mais velhas, que foram ensinadas a acreditar no leite que se compra, não compreendam quem toma esta opção e acabam por fazer muitos males”, justifica Joana Gama. A radialista vai agora editar, em abril, um livro com os melhores textos do blogue, uma plataforma que conta também com a parceria de Joana Brás.

Críticas à classe médica

“Os pediatras não têm grande formação em amamentação. A maior parte deles é formado pelas grandes empresas lácteas e acabam altamente influenciados. Como a minha médica sabe que não tem nada a dizer sobre isto, nunca se impôs, deixou essa decisão para mim”, conta a radialista da Mega Hits.

Um olhar que, curiosamente, recolhe a concordância de Elsa Paulino, pediatra e uma das responsáveis pela clínica Amamentos, onde é dada formação a mulheres para melhor se adaptarem a si e aos seus bebés a este processo de alimentação.”Os profissionais da saúde – pediatras, obstetras e enfermeiros, estes embora menos – não receberam formação académica nesse sentido. Todos sabemos que há dificuldades e há poucos profissionais que sabem dar resposta”, afirma a pediatra.

Nesta clínica, situada em Telheiras, Lisboa, onde se dá formação por via da consulta, o sentido de atuação segue dois caminhos: “somos muito procurados por mulheres que, no pós-parto imediato, precisam da resolução de dificuldades como falta de ganho de peso do bebé ou dores horríveis na amamentação; numa segunda vertente, trabalhamos por antecipação e preparamos as mães para essa capacitação”, explica Elsa Paulino. Para lá das consultas em Lisboa, há atendimento ao domicílio nos arredores da capital.


Dez passos para ser considerado Hospital Amigo dos Bebé:

1. Ter uma norma escrita sobre aleitamento materno, que deve ser rotineiramente transmitida a toda a equipa do serviço.

2. Treinar toda a equipa, capacitando-a para implementar essa norma.

3. Informar todas as gestantes atendidas sobre as vantagens e o manejo da amamentação.

4. Ajudar a mãe a iniciar a amamentação na primeira meia hora após o parto.

5. Mostrar às mães como amamentar e como manter a lactação, mesmo se vierem a ser separadas de seus filhos.

6. Não dar a recém-nascido nenhum outro alimento ou bebida além do leite materno, a não ser que tenha indicação clínica.

7. Praticar o alojamento conjunto – permitir que mães e bebés permaneçam juntos 24 horas por dia.

8. Encorajar a amamentação sob livre demanda.

9. Não dar bicos artificiais ou chupetas a crianças amamentadas.

10. Encorajar o estabelecimento de grupos de apoio à amamentação, para onde as mães devem ser encaminhadas por ocasião da alta hospitalar.


Mas, e no resto do país, o que existe? Hoje, existem os hospitais amigos do Bebé, um conceito implementado pela Unicef e que passa por reconhecer as instituições que cumprem dez passos para ajudar a mãe a encaminhá-la no sentido de melhor fazer este percurso. Fora das grandes cidades há já médicos e especialistas que apontam as direções mais indicadas.

A pediatra da clínica Amamentos refere, inclusivamente, que na Grande Lisboa, “oito a dez mil bebés por ano, pouco mais de 1/3 dos bebés, nascem em hospitais privados e nenhuma dessas unidades tem práticas muito favoráveis à promoção da amamentação”. Elsa Paulino diz que, no que respeita à clínica que dirige com outra pediatra, a opção para quem está longe de Lisboa é “fazer consultas por skype. Não é o mais recomendável, mas é a forma que temos de poder ajudar essas mães que nos procuram”, afirma.


Em Portugal, conheça os hospitais amigos do bebé, de acordo com a última avaliação, levada a cabo em julho de 2015:

Hospital Garcia de Orta

Maternidade Bissaya Barreto

Hospital Barlavento Algarvio

Maternidade Júlio Dinis

Maternidade Dr. Alfredo da Costa

Hospital Fernando da Fonseca

Hospital São Bernardo Setúbal

Hospital Pedro Hispano

Hospital Nossa Senhora do Rosário- Barreiro

Hospital de Santa Maria

ULSAM – Hospital de Santa Luzia

Hospital S. Teotónio

Hospital da Horta, Açores

Hospital Sousa Martins


“Dar de mamar deixa-me feliz”

Para Joana Gama amamentar é a forma de “cumprimentar” a sua filha quando a vê. “É uma maneira de matarmos saudades e isso só a amamentação prolongada em livre demanda permite”. Não só a filha Irene parece gostar de o fazer, como mãe parece não prescindir disso: “É um colo, é um abraço prolongado”, conta, lembrando que a mama, para lá do período exclusivo, não substitui nenhuma refeição.


Benefícios para as mães, segundo a pediatra Elsa Paulino:

Protetor contra o cancro da mama

Protege contra doenças como osteoporose e diabetes Tipo II (mais tarde na vida de uma mulher)

Mulheres recuperam muito melhor o seu corpo

Empodera as mulheres, que se posicionam depois de forma mais afirmativa na família e na educação dos filhos


Mas até quando está disposta a fazer isto? A pergunta é de resposta difícil: “se imaginarmos uma criança com cinco anos, faz-me alguma confusão, mas o tempo não passa para as mães, é sempre o nosso bebé. Se calhar, aí, já me vou retrair em público”. Elsa Paulino aponta as indicações deixadas pela Organização Mundial da Saúde: amamentação em exclusivo durante seis meses e, em complemento, durante dois anos ou mais. “Há muitos benefícios e não há limites”, afirma aquela pediatra.


Benefícios para bebés, segundo a pediatra Elsa Paulino:

Bebés protegidos contra doenças infecciosas do primeiro e segundo anos de vida

Protetor da obesidade na infância e vida adulta, bem como de doenças associadas como diabetes Tipo II, tensão arterial, doença coronária

Proteção contra alergias, que surgem em muito menor escala


A amamentação em público é, aliás, uma matéria que está longe de gerar consenso: “o meu marido é um pouco retrógrado e diz que ver uma mulher a amamentar em público dá aos homens material para quatro meses de onanismo”, diz, entre risos, Joana Gama.

A verdade é que a locutora de rádio admite que, no início, se sentia algo inibida, mas depois passou a relativizar: “A partir do momento em que a amamentação foi natural para mim, manter a prática tantas vezes levou-me a tomar decisões e a deixar de ficar tão constrangida. Se os outros se sentissem mal, paciência… estava a amamentar”, justifica Joana Gama.


Veja aqui reações à amamentação em público.


“A primeira crise na amamentação surge logo quando o bebé nasce e não há uma adaptação. O segundo momento é quando a mulher regressa ao trabalho”, contextualiza Elsa Paulino, um regresso que acontece sobretudo aos quatro, aos cinco ou aos seis meses, consoante a licença pela qual se optou. Há, aliás, já uma petição que deverá ser debatida em abril na Assembleia da República e que procura alargar a licença de maternidade para os seis meses, com o propósito de ver o período de amamentação exclusivo assegurado pelas mães.


Sobre esta petição, leia mais aqui.


“As estratégias para conciliar trabalho e a amamentação podem passar pela extração de leite no local de trabalho, depois completa-se o processo quando se chega ao pé do bebé, durante a noite e ao fim de semana. É claro que depende dos trabalhos das mães e dos períodos de ausência, mas se elas tiverem um horário de seis a oito horas, talvez seja possível”, conta Elsa Paulino, que lembra que “o lema da semana mundial da saúde da OMS, em 2015, foi ‘trabalhar e amamentar é possível’. Isto passa por sensibilizar as empresas e lembrar-lhes que mães que amamentam faltam menos ao trabalho porque o bebé adoece menos. São trabalhadoras mais satisfeitas”, avisa.

O que fazer e como combater os mitos?

Para Elsa Paulino, o caminho rumo ao total esclarecimento ainda é longo e passa por vários processos: primeiro desfazer os mitos e, depois, criar soluções. Mas, vamos por partes.

“Muitas das mulheres sabem da importância da amamentação e trazem muitas ideias erradas e mitos”, diz a pediatra, que explica: “um dos maiores é o mito de que há mulheres que têm leite fraco. Isso não existe, o leite é todo bom, e só em raríssimas exceções há mães sem alimento. O que existe é uma má pega ou falta de um estímulo suficiente”, afirma a responsável pela clínica.

Depois, há a “lei da oferta e da procura”. “Se o bebé consegue extrair mais leitinho da mama, isso vai fazer com que se alimente e ao consumidor vai aumentar e estimular a produção Quanto mais leite sair da mama, mais a mama produz”, reitera Elsa Paulino.

“Um dos maiores é o mito de que há mulheres que têm leite fraco. Isso não existe, o leite é todo bom, e só em raríssimas exceções há mães sem alimento. O que existe é uma má pega ou falta de um estímulo suficiente”, diz a pediatra Elsa Paulino

Quanto às soluções, a pediatra crê que “é preciso melhorar o conhecimento em torno do leite materno junto dos profissionais de saúde para que seja uma área ensinada nas universidades” e criar condições para que “existam mais maternidades amigas dos bebés e esta decisão tem de partir de cima, de quem dá as recomendações”.

Joana Gama acrescenta ainda um outro ponto: “é muito importante haver bancos de amamentação porque há casos muito extremos. Tenho uma amiga com cancro da mama que teve de deixar de amamentar – e já o fazia há um ano. Deixar de o fazer não foi problemático, mas se fosse, como poderia fazer?”, pergunta a radialista, que, se não tivesse conseguido amamentar Irene, “teria procurado uma dessas hipóteses”. Em Portugal, há um Banco de Leite Humano, na Maternidade Alfredo da Costa, mas está – explica Paulino – muito vocacionado para a alimentação de bebés que nascem prematuros.

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