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Nem rosas, nem hijabs

A Dolce & Gabbana lançou já neste janeiro a coleção Abaya Collection. Apresentada no site style.com/arabia, no dia 3, a coleção pensada para as mulheres muçulmanas tem túnicas e lenços que permitem cobrir o corpo de acordo com os preceitos de alguns países de maioria islâmica. A coleção é linda, tem os requintes a que a marca italiana já nos habituou, e em alguns modelos estão presentes as rosas que encantaram a imprensa especializada no desfile outono/inverno 2015 para o mundo ocidental.

É difícil ter uma opinião simples em relação a estas coleções porque tanto esta nova de abayas e hijabs, específica para as mulheres muçulmanas, como a coleção das rosas, foram executadas com mestria e com um elevado sentido estético, mas o conceito de mulher subjacente a ambas as coleções é igual: a mulher no papel tradicional que lhe está reservado pela sociedade no Médio Oriente usando o corpo coberto, no Ocidente com a maternidade como ponto alto.

Confesso que só me apercebi disto agora, confesso que fiquei deslumbrada com o desfile outono/inverno 2015 e o imaginei como um elogio à feminilidade. Não deixará de ser mas só cabe neste elogio a mulher que é delicada, que é mãe e que cuida dos outros. Ficam de parte nestas apresentações todas as outras mulheres e os papéis que elas desempenham hoje e que já são desempenhados há muito tempo por nós para ficarem esquecidos. Quando o esquecimento é repetido – e as mulheres do mundo islâmico são também muito mais do que senhoras bem comportadas e tapadas, como nos lembra a recente morte de Ruquia Hassan – é impossível negar que há um retrato ideal que está implícito nestas coleções e que com elas se propaga.

E este retrato não é atual, não fala das discussões que estamos a assistir em muitos pontos do globo em torno do verdadeiro papel das mulheres nas sociedades – e aqui podemos assinalar os movimentos feministas no Brasil, a resistências das mulheres curdas na linha de combate contra o Daesh, os discursos sobre a igualdade de Michelle Obama ou os de Emma Watson sobre o direito a não ser sexualizada, e a disparidade salarial entre mulheres e homens que chegou o ano passado à concertação social em Portugal.

Paralelamente e felizmente, há criadores de moda que vão no caminho inverso: Karl Lagerfeld construiu dois desfiles em torno das mulheres de hoje – no primeiro colocou as modelos num supermercado, calçou-lhes ténis e roupa de trabalho, sem descurar a sofisticação, no seguinte encabeçou uma manifestação com cartazes e palavras de ordem feministas. A moda tem sempre refletido as alterações do estatuto da mulher na sociedade: as saias subiram quando as mulheres passaram a trabalhar fora de casa, os saias-casacos e os smokings de senhora apareceram quando começámos a atingir as chefias. Este é o tempo da moda que nos permita desempenhar múltiplas tarefas no mesmo dia: um conjunto bonito, feito de peças práticas, e bom calçado. Não é o tempo das rosas, nem dos hijabs, que repetidamente não nos deixam ser tudo o que somos.

 

 

 

 

 

Carla Macedo, Editora Executiva Delas.pt