As mulheres da ficção científica: o que está a mudar em Hollywood

Fotografia: Shutterstock

No ATX TV Festival, quatro mulheres com séries televisivas de relevo falaram da sua experiência num mundo dominado por homens que está em mudança.

Por Ana Rita Guerra, em Austin, Texas

Depois de rejeitar os avanços de um executivo bem posicionado em Hollywood, a atriz Maddie Hasson perdeu a oportunidade de trabalho para a qual tinha feito audição. Como justificação para a nega, disseram-lhe que já está muito velha. “Tenho 23 anos”, revelou a atriz, encolhendo os ombros, durante um painel de debate entre mulheres no ATX TV Festival, em Austin. Maddie é a estrela da nova série original do YouTube “Impulse”, onde interpreta Henry Coles – ironicamente, uma adolescente de 16 anos.

“Lembro-me de uma atriz que estava a sentir-se desconfortável numa cena em que tinha de tirar a camisola e o produtor perguntou-lhe, ‘qual é o sentido da tua personagem se não tirares a tshirt?’”, contou Maddie. Os exemplos repetem-se e todas as mulheres que trabalham na indústria têm algo similar a contar. Carina MacKenzie, uma super produtora que acaba de assinar contrato com a Warner Bros. e criou a próxima série da The CW, “Roswell, New Mexico”, recordou o momento em que estava a teimar filmar uma cena do seu jeito. “Um produtor chamou-me ‘adorável’”, afirmou. “É o tipo de coisas que nenhum homem nessa posição ouviria. Aqui, temos sempre de lutar com mais força.”

Esse foi precisamente o tema do painel “Women Who Defy”, dedicado a explorar a forma como várias mulheres estão a desbravar caminho numa indústria esmagadoramente masculina e a levar ao pequeno ecrã histórias de ficção científica que até há poucos anos não seriam contadas, ou teriam formatos muito diferentes.

“Roswell, New Mexico” é, em dúvida, uma das séries mais antecipadas no género – e que encarna bem o momento histórico que se vive. Carina MacKenzie, que ficou conhecida como escritora e produtora executiva de “The Originals”, irá ressuscitar os mitos relacionados com extraterrestres na cidade do Novo México. Ao contrário das outras séries que tentam evitar controvérsia, “Roswell” irá abordar diretamente a era de Donald Trump como presidente. “É uma história sobre o que aconteceria hoje, na América de Trump, se fossem descobertos extraterrestres. É uma metáfora para a imigração ilegal, islamofobia e outros”, disse Carina no painel. A jovem produtora sabe que nenhuma série carrega nos ombros a capacidade de mudar a sociedade, mas espera que as suas histórias ajudem muita gente a sentir-se “mais compreendida” e menos desesperada. “Talvez tenha a ver com o Me Too, mas sente-se que a nossa série é um espaço seguro.”

A veterana Sera Gamble, editora das histórias da série “Supernatural”, aprendeu a criar esses espaços a pulso. “Estava a ver Sete Palmos de Terra na HBO e ocorreu-me que se poderia fazer o que quiséssemos em televisão”, contou. “Eu queria fazer aquilo mas aplicado à ficção científica.” Depois de sair de “Supernatural”, Sera foi para o canal SyFy fazer “The Magicians”, que começou esta semana a filmar a quarta temporada. A showrunner da série explicou que nunca tentou fugir do contexto político, e que este é importante na história. A quarta temporada, adiantou, “tem a ver com a ascensão do fascismo.” Não é uma tentativa de convencer ninguém, clarificou, mas de traduzir aquilo que está a ver na sociedade através das lentes dos personagens. “Tornamo-nos escritores para explorar o que se passa no mundo à nossa volta”, declarou.

Algumas das histórias reveladas na discussão – por exemplo, os momentos em que Carina foi mandada calar ou confrontada com afirmações escandalosas e humilhantes – mostram que ainda há um longo caminho a percorrer em Hollywood, mesmo após o advento do Time’s Up e Me Too. No entanto, o sentimento geral é de que as coisas estão a mudar. Todas estas mulheres têm duas coisas em comum: o talento e a perseverança, que lhes permitiram pôr o pé na porta.

“Este género é dominado por homens há tanto tempo. Mas a maioria dos fãs que vejo são mulheres; porque é que elas não estão atrás da câmara?” questionou Carina MacKenzie. “O estúdio sempre pareceu um espaço feito para os homens serem bem sucedidos.”

Foi a ignorar isso que Emily Andras atingiu o sucesso com a criação da série “Wynonna Earp”, que passa no SyFy. “Nunca tinha visto muitas séries do género lideradas por mulheres”, referiu a canadiana, falando da liberdade criativa oferecida pela ficção científica televisiva. “Nos mundos inumanos, podemos falar muito sobre a condição humana.” E mergulhar em espaços dolorosos que servem como catarse, explicou Sera Gamble. “Não vamos alterar o curso da próxima eleição com o que estamos a fazer, mas podemos pôr um espelho à sua frente.”

Na audiência, maioritariamente composta por mulheres, houve também uma sensação de libertação e inspiração, com várias participantes a declararem o painel como “o melhor” do festival de quatro dias. Em palco, Emily Andras revelou o conselho que lhe deram que mais serviu na sua carreira, e que pareceu ressoar com a audiência: “Do no harm but take no shit.” Qualquer coisa como “não faças mal aos outros mas não deixes que te passem por cima.”

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