Subir

Mulheres estão ainda em minoria na ciência

É a primeira vez que se celebra, esta quinta-feira, o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência, e o propósito é convocar o sexo feminino para um universo que está, sobretudo nas mãos dos homens. É que de acordo as estatísticas da UNESCO, só 28,4% dos investigadores mundiais são do sexo feminino.

Como se resolve esta disparidade e o que é necessário reivindicar? “Sou mulher e considero que tenho tido algum sucesso. Mas, quando olhamos para os números mundiais e para as realidades dos países menos desenvolvidos, existem algumas assimetrias e creio que esta chamada de atenção é importante, porque a ciência não é só para os homens”, diz Elvira Fortunato. Esta investigadora que integra a estrutura de Aconselhamento Científico (EAC) da Comissão Europeia crê, no entanto, que “em termos europeus, esta matéria está mais diluída. Essas realidades não nos afetam tanto a nós”.

Elvira Fortunato defende que as “linhas de ação devem passar por países menos desenvolvidos e dar os mesmos incentivos e oportunidades às mulheres”. “As reivindicações só podem ser as da igualdade de direitos entre os seres humanos”, concorda Ana Sofia Reboleira, bióloga, espeleóloga e investigadora no Museu de História Natural em Copenhaga, Dinamarca, e também em Boston, EUA. Para esta investigadora portuguesa “não há diferenças de género” no “campo do mérito absoluto”. E prossegue: “Há, de facto, um domínio masculino, especialmente em cargos de direção de ciência. No entanto, as proporções têm vindo a equilibrar-se nos países mais desenvolvidos, o que é, afortunadamente, um sinal da evolução dos tempos.”

“Nós, mulheres, temos as mesmas capacidades que os homens, talvez a única coisa que diferimos é que temos mais capacidade de fazer coisas de forma organizada”, considera Elvira Fortunato.

Mas se no mundo inteiro apenas cerca de um quarto dos cientistas conjugam a ciência no feminino (e os dados dizem respeito a 2013), em Portugal a realidade parece ser um pouco mais animadora, tendo sido registadas, em 2012, mulheres cientistas na ordem dos 45%. Ora, tal percentagem coloca o nosso país na primeira metade da tabela (em 11.º lugar) dos países europeus, a valores, porém, ainda distantes da Letónia, Lituânia, Montenegro e Sérvia.

A correlação apresentada para a realidade portuguesa não impressiona Elvira Fortunato. “Penso que essa diferença deve estar ainda mais equilibrada hoje em dia porque, em termos gerais do acesso superior, há mais mulheres e homens na universidade e que pode fazer variar esse número”, afirma a professora catedrática e investigadora do Centro de Investigações de Materiais da Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade Nova.

“Uma carreira científica não se faz em três anos, pelo que creio que esses valores devem manter-se atualmente.”

Esta investigadora do EAC ressalva que, na ciência, mais importante do que o género, é a qualidade que deve fazer a diferença. “O homem não é melhor que a mulher, não vejo este tipo de preconceitos. Temos é de ser bons. Nós, mulheres, temos as mesmas capacidades que os homens, talvez a única coisa em que diferimos é que temos mais capacidade de fazer coisas de forma organizada”, considera. Elvira Fortunato não vê a ciência e a gestão da vida privada como dois mundos inconciliáveis, mas crê que, no seu caso pessoal, tudo teria sido diferente se não tivesse tido “apoio familiar”. Para Ana Sofia Reboleira “não há qualquer relação entre os dois [mundos], ser mulher é uma condição ditada geneticamente (o que já pode ser alterado cirúrgica e legalmente) e ser cientista é uma profissão, tal como muitas outras em que as pessoas dedicam muito tempo a investigar temas que as apaixonam e a contribuir para o avanço na sua área”, afirma.

De acordo com o mesmo estudo da UNESCO, as regiões do mundo com mais cientistas são a Ásia Central (47,1%), a América Latina e Caraíbas (com 44,3%) e a Europa Central e de Leste, com uma percentagem a rondar os 39,9%.

Aliás, neste relatório da UNESCO é importante ressalvar as médias apresentadas na América Latina. Na Bolívia, de acordo com dados de 2010, as mulheres dominavam a investigação científica, com 62,7%. Na Venezuela, na Argentina e no Paraguai a correlação colocava o sexo feminino acima dos 50% (valores de 2012). Valores que impressionam e que, crê Elvira Fortunato, não se devem ter alterado. E a razão é simples: “Uma carreira científica não se faz em três anos, pelo que creio que esses valores devem manter-se atualmente”.

CARLA BERNARDINO