“A febre da carraça tem emergido com as mudanças no clima”

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[Fotografia: Pexels/Nadia loves single]

A integração entre a medicina humana e veterinária é cada vez mais total. E terá de o ser por via da quantidade de doenças que são transmissíveis entre animais e humanos: de uma gripe a uma toxoplasmose, da febre da carraça às perigosas tuberculose, leptospirose e raiva.

E se há formas de interromper esta cadeia, fazendo desparasitações e vacinação frequentes sobretudo aos animais de companhia – cães, gatos, coelhos e outros -, nem sempre é possível evitar. Sobretudo, numa altura em que as alterações climáticas estão a alargar os períodos de contágio das doenças, como alerta à Delas.pt a médica veterinária da Kivet, clínicas veterinárias da Kiwoko, Raquel Muro.

Quais as zoonoses mais comuns ?

As mais comuns são a tuberculose, a brucelose, a leptospirose, a leishmaniose, a hidatidose, o dengue e a raiva. Contudo, em Portugal, o dengue não é, por enquanto, uma preocupação e a raiva já está fora do panorama há algumas décadas, através da obrigatoriedade da vacina nos cães. Se nos quisermos focar nos nossos animais de companhia e nas zooneses com mais expressão e preocupação a nível de saúde pública que transmitem, temos: os cães, que para além de todos os parasitas internos, fungos e sarnas, também podem ser transmissores de leptospirose (altamente contagiosa ao ser humano), leishmaniose e raiva. Na espécie felina, a toxoplasmose é a mais comum e, nos coelhos, a pasteurela assume mais expressividade.

Quais as mais comuns e graves para as mulheres? Porquê?

A toxoplasmose é a que atinge maiores dimensões no período pré-natal. Se esta for contraída durante o período gestacional e a grávida não for imune, pode provocar abortos precoces, mal formações fetais, entre outros problemas graves para o feto. É de salvaguardar que a toxoplasmose, se contraída fora do período de gravidez e se a mulher tiver um estado imunitário competente, provavelmente, nem se aperceberá que contraiu o parasita.

Pode-se viver uma vida toda com uma zoonose sem saber.

É possível viver com uma zoonose sem nos apercebermos. A toxoplasmose volta a ser um exemplo. Esta doença pode estar presente no nosso sistema sem apresentar qualquer sintomatologia.

Muitas mulheres, quando pensam em engravidar, realizam análises pré-natais, prescritas pelos/as obstetras, e, apenas nesse período, descobrem que já tiveram algum contacto com a toxoplasmose e que são imunes.

Por outro lado, podemos ter zoonoses que são fatais, como é o caso da raiva. Nesta, se não houver intervenção imediata, a morte agónica será inevitável . A leptospirose, por seu turno, pode provocar lesões renais permanentes, se não for diagnosticada atempadamente.

Há algum rastreio às zoonoses? Devia haver? Sim? Não? Porquê?

No nosso sistema de saúde, não há propriamente um sistema de rastreio, mas a aposta está claramente vocacionada para a prevenção. Há uma estreita ligação entre a saúde humana e a saúde veterinária, o famoso conceito de “One Health”. Se procedermos à desparasitação e vacinação regular dos nossos animais de companhia e mantivermos uma estreita relação com o Médico Veterinário, estamos a prevenis a perpetuação de algumas zoonoses. Além da clínica, o médico veterinário também tem um papel fundamental no rastreio de doenças zoonóticas que começam logo no matadouro, nos aviários assim como na aquacultura. Outro papel do médico veterinário na sociedade que, uma vez mais , engloba a prevenção das zoonoses, é a implementação de um plano HACCP [sistema de monitorização internacional] correto, quer na restauração, nos matadouros, vacarias, refeitórios, entre outros locais.

Com as alterações climáticas, quais os riscos de aumento de zoonoses?

As alterações climáticas têm influenciado muitos fatores da atualidade. As zoonoses não ficam imunes. Uma destas doenças mais emergentes no nosso país, entre a população canina, é, por exemplo, a leishmaniose. O vetor (transmissor) do parasita costuma ser mais prevalente nos meses de abril e outubro. Contudo, com as alterações climáticas, esta distinção de meses já não é tão clara. Além disso, a febre da carraça também tem emergido com as mudanças no clima, uma vez que a reprodução das mesmas encontra as condições ideais nas alturas de maior calor.