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A importância política de usar biquíni

As mulheres têm um corpo. É melhor que nos habituemos a isso. O corpo das mulheres não é naturalmente erotizado. É naturalmente funcional: come, corre, dá alimento, carrega pesos, reza, escreve, pensa, vai buscar água a quilómetros de distância, joga à bola, joga vólei, trabalha para sustentar a casa, suporta dores, cura doenças. Aqui, cada uma que risque o que não interessa e acrescente o que faz com o próprio corpo.

No meio da lista há de haver quem coloque sexo, mas pensando bem, qual é a preponderância que o sexo tem sobre as outras coisas que fazemos com o corpo? E se não é assim tão grande para a maioria das mulheres, porque é que assistimos a uma discussão sobre sexo (sexualização, erotização) quando aparece um corpo de mulher?

Este verão de 2016 (estamos mesmo em 2016?) estamos a assistir a debates ou posições divergentes da norma-do-pouco-pano-porque-está-calor. Parece que ficámos todos pudicos de repente. O enorme cartaz de Munique com Adriana Lima em biquíni gerou escândalo, foi chamado de monstruoso, de machista. E eu a ver uma miúda magra num biquíni giro e a pensar se devemos agora mostrar biquínis apenas em fotografias de recorte. Ou será melhor não usar biquíni?

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Este fim de semana tivemos a notícia de que uma associação francesa pretende organizar o dia do burkini num parque aquático em Marselha. E do outro lado do mundo, chegam os Olímpicos e os jogos de vólei de praia. As peças de roupa reduzidas das jogadoras, o sinal de machismo e de hipersexualização – é verdade, são quase tradicionais as piadas sobre as equipas de voleibol e os seus corpos; e depois Doaa Elghobashy, a egípcia que joga de hijab e burkini e que a imprensa adora. Algum discurso sobre a roupa aumentada? Nem por isso. Porquê?

Porque é difícil. E porque é feio. Não se fala das outras fora do contexto. Não se fala pelas outras, não se lhes tira o palco nem a voz. É assim com todos os ativismos e com as mulheres que imaginamos oprimidas. E Doaa até já veio dizer que gosta de usar hijab. Por aqui, o melhor é não falar.

Mas podemos falar por nós? Porque na verdade há gente a falar de nós. O Ayatolah do Irão veio elogiar a representação do seu país na cerimónia de abertura:

“As mulheres muçulmanas iranianas provaram que é possível ser mulher, modesta, usar véu e ao mesmo tempo ser eminente”, escreveu Khamenei. Provaram a quem, exatamente? Espero que tenha sido uma mensagem para os conterrâneos porque por cá é evidente que as mulheres mais poderosas não fizeram o seu caminho por usarem roupa escandalosa ou o corpo exposto, apesar de não precisarem de tapar o cabelo ou o rosto quanto vão na rua, apesar de poderem, se quiserem, usar biquíni.

As mulheres têm um corpo. É melhor que nos habituemos a isso. Deus ou a natureza (riscar o que não interessa a cada um) criou a mulher com o corpo que tem, funcional. E nós, mulheres emancipadas, ainda com muito caminho para fazer em termos de igualdade, temos de deixar de ter contemplações sobre cosmogonias que colocam as mulheres em lugares subalternos, muito por causa da demonização do sexo. A sexualização é uma questão passiva. “Não precisamos fazer nada além de existir para que nosso corpo seja sexualizado” diz-me em conversa Carol Patrocínio, feminista brasileira. E por isso, digo eu, vamos ter de deixar a sexualização de parte e assumir o nosso corpo.

Ver num calção de banho curto sexualização coloca-nos na situação passiva de não ter escolha e subalterniza a nossa posição de mulheres. Ver num biquíni uma afirmação de falta de moral radica na mesma ideia: que o corpo das mulheres é só para o sexo. Daí até ao argumento “estava a pedi-las porque usa mini-saia, decote ou mostrou o tornozelo” vai um passo muito curto.

Assim, hoje, parece-me que usar biquíni é sobretudo uma afirmação política: este é o meu corpo, não tenho razão para o esconder, acredito numa organização social que respeita mulheres e homens da mesma forma, acredito num estado de direito que defende esse respeito e o incentiva. Minhas senhoras, está na hora de queimar os fatos-de-banho!

Carla Macedo, editora executiva