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A moda dá mais um passo ao lado do feminismo

Este domingo, 7 de janeiro, fez-se História. O feminismo foi levado ao palco dos Globos de Ouro por algumas das vozes mais influentes e com mais visibilidade do mundo. A voz segura pautou as palavras de ordem cortantes e impiedosas que se disseram no palco, e os vestidos pretos associaram-se às vozes presas na garganta de quem desfilou na passadeira vermelha, que a noite passada se estampou de negro em silhuetas femininas.

A 75ª edição dos Globos de Ouro foi a primeira cerimónia do cinema depois dos escândalos sexuais que começaram com as denúncias contra Harvey Weinstein, motivando denúncias contra outros membros de Hollywood como Kevin Spacey, Dustin Huffman e Breett Ratner. As reações foram muitas e a comunidade de atrizes rapidamente se juntou para falar, contando histórias pessoais e promovendo campanhas contra o assédio sobre mulheres, cresceu. Como seria de esperar a primeira grande festa de Hollywood não podia passar imune a esta avalanche, mas não foi só nos discursos que o feminismo e a vontade de mudança se ouviu. Na verdade, o primeiro sinal de que a noite dos Globos de Ouro se ia fazer de ativismo, surgiu com a notícia avançada no final de dezembro de que muitas atrizes se iriam vestir de preto em protesto contra os abusos de que tantas mulheres são vítimas. O primeiro sinal de mudança de paradigma foi transmitida através da roupa!

A quem tantas vezes considera a moda fútil, sem significado e sem valor, ontem foi dada uma pequena amostra de como o modo como nos vestimos, quando o fazemos de forma consciente e política, pode impactar o mundo.

Um desfile de celebridades cobertas de negro foi ao que assistimos, ontem, uma imagem forte que corta por completo com as tradicionais fotografias, desta cerimónia, cobertas de brilho e cor. Aquilo que vestimos é das primeiras coisas em que as pessoas reparam, podemos não dizer uma palavra mas a nossa roupa transmite sempre uma imagem sobre quem somos (ou sobre quem queremos parecer) e sobre o que queremos dizer.

Neste género de entrega de prémios o que tem sempre mais visibilidade é a escolha de roupa das famosas. São muitas as fotografias, os diretos televisivos e digitais, e os inúmeros os comentários que se destilam (literalmente destilam, porque muitos são verdadeiramente venenosos) ao longo da noite e nos dias seguintes. Uma atenção que deixa bem claro o poder que a moda pode ter, e que na noite passada foi usada da melhor forma, não havia maneira mais eficaz de enviar a mensagem #timesup (o tempo acabou) que vestir Hollywood de luto! E a quem tantas vezes considera a moda fútil, sem significado e sem valor, ontem foi dada uma pequena amostra de como o modo como nos vestidos, quando o fazemos de forma consciente e política, pode impactar o mundo.

Esta não é a primeira vez que a moda veste o feminismo, antes pelo contrário, o amor é longo e está para durar. Tudo começou com a abolição dos espartilhos, a subida das saias, os ombros largos, a chegada da minissaia, a roupa sem género e mais recentemente as t-shirts com frases de empoderamento feminino e os gorros cor-de-rosa com dois bicos laterais da marcha das mulheres. Estes últimos foram também um ótimo exemplo de como a moda pode ser usada de forma coletiva para criar imagens que marquem uma causa.

Longe vai o tempo em que as feministas desdenhavam a moda: hoje usam-na em prol das suas causas. Afinal as imagens bonitas são, por norma, menos rejeitadas do que as outras, e se nos queremos que uma causa seja ouvida num mundo que vive de imagem, é preciso que essa causa também seja vista e seja partilhada e gostada no maior número de plataformas possível.

Ser feminista não é rejeitar o que nos torna mais femininas, o que nos revela as curvas, é sim ter consciência do nosso corpo, sabermos quem somos, e ter a certeza de que temos os mesmos direitos do que qualquer ser humano. A forma de vestir pode ser uma excelente forma de fazer essas afirmações diariamente, sobretudo se conhecermos os capítulos que a História escreveu unindo causas e moda de forma perfeita.

Nesta noite de domingo, dia 7 de janeiro, escreveu-se um novo capitulo na História do cinema e na História da moda. O dia em as atrizes e atores – porque vários homens levaram camisas e gravatas pretas – será sem dúvida citado durante muitos anos em revistas e livros dedicados a esta indústria. Infelizmente ainda há muitas causas para vestir e certamente este não será o último passo que a moda dá ao lado do feminismo.

Segundo dados da UNWomen: 3 em cada 4 das mulheres traficadas são exploradas sexualmente, pelo menos 200 milhões das mulheres e raparigas hoje vivas são excisadas, a maioria delas com menos de 5 anos, quase 750 milhões mulheres e raparigas em todo o mundo casaram antes dos 18 anos, 1 em cada 2 mulheres em todo foram mortas pelos seus companheiros ou família nuclear, 1 em cada 3 mulheres no mundo é a vítima violência sexual.

Estas são algumas das causas pelas quais ainda temos de nos pôr de pé, estes são os números que tornam o feminismo uma necessidade real. Se for preciso vestir t-shirts, vestidos de gala pretos, ou qualquer outra peça de roupa para chamar a atenção do mundo, a moda vai estar lá, sempre pronta para servir uma causa pela qual valha a pena lutar. #timesup