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A revolução sexual do consumo está a começar

Adeus fronteira entre géneros. Adeus separação entre masculino e feminino. À medida que os papeis sociais são cada vez menos definidos, e que novas abordagens são feitas à identidade sexual, vão aparecendo cada vez mais produtos no mercado em que essa barreira desaparece. A Zara lançou recentemente uma linha de vestuário de género neutro, a Ungender, depois da Nike, por exemplo, ter feito o mesmo, A Elements apresentou ontem à imprensa uma joia sem traços de feminino ou masculino associados. Estamos perante uma revolução sexual do consumo? Será uma revolução assexuada?

“Fazem-se hoje muitos produtos unissexo que podem ser usados por homens e por mulheres. Por exemplo, já há jovens do sexo masculino que compram calças na secção feminina, porque são mais justas. Isto demonstra, e há muitos mais exemplos, que quer o homem, quer a mulher já não levam em consideração a distinção na hora de comprar um produto”, afirma José António Rousseau.

Este professor universitário, investigador e, simultaneamente, presidente do Fórum do Consumo sustenta que “o sexo feminino ainda é visto como o mais consumista”, mas que tal acontece numa sociedade onde já não há “nem 100% homens, nem 100% mulheres”. E justifica:

“No passado recente havia uma fronteira muito bem definida, segundo a qual era quase proibido fazer ou usar certas coisas que pertencessem ao género oposto. Hoje isso não acontece. Há uma miscigenação cada vez maior do consumo, o consumidor é um ser cada vez mais andrógino. O mesmo consumidor é homem e mulher”, sustenta o professor. E sublinha: “A distinção por sexos é uma coisa muito moderna, sobretudo se olharmos para o que foi a evolução da vida na terra.”

Quem manda mais: a sociedade ou as marcas?

“Socialmente esta revolução já se deu há muitos anos, com as mulheres a fazerem as coisas dos homens e vice-versa”, contextualiza o presidente do Fórum do Consumo. José António Rousseau crê que, neste movimento, “as marcas terão cada vez menos preocupação se lançam produtos masculinos ou femininos”.


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E elenca um exemplo que documenta isso mesmo: “Nos filmes de ficção científica, o vestuário do homem e da mulher é praticamente igual. Não há uma moda, como hoje ainda existe. Por isso, creio que, no futuro, o vestuário será praticamente unissexo, mudando apenas a dimensão, o tamanho e as formas do corpo. Hoje em dia e em termos de moda, evidencia-se já uma quase igualdade nesse aspeto e isso constitui um desafio muito grande até para os criadores de moda”, sustenta o professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), do Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM) e do Porto Business School.

“A tecnologia não tem sexo”

Quais são os setores de consumo que estão a tomar a dianteira nesta matéria e quem está a ficar para trás? Para Rousseau, a resposta carece de estudos sustentados, mas o investigador perceciona a existência de “setores mais avançados”: “A tecnologia não tem sexo, o mesmo produto é vendido exatamente igual para homem e mulher. O mesmo sucede na perfumaria cosmética”, afirma o professor, sem adiantar quem está a ficar para trás nesta corrida. Admite, contudo, que “as empresas ainda estão convencidas de que há uma distinção muito grande” e que “precisam de perceber melhor esta evolução e de a acompanhar”.

“As empresas ainda estão convencidas de que há uma distinção muito grande [entre géneros]” e “precisam de perceber melhor esta evolução e de a acompanhar”, afirma o investigador

Em breve, também os consumidores serão analisados à lupa no âmbito do Fórum do Consumo. “O Observatório Português do Consumo consciente está a fazer, pelo segundo ano consecutivo, um estudo à população portuguesa para perceber a situação atual do consumo solidário, consciente e responsável, no sentido de perceber a forma como os cidadãos consomem e, por exemplo, como pagam”, alerta. Uma análise que deverá estar concluída em setembro ou outubro.

Carla Bernardino