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Alexandra Lucas Coelho: “A miscigenação assenta na violação em massa”

Foi um dos debates mais polémicos do Festival Morabeza. A penúltima mesa redonda do encontro de escritores, no festival de literatura que decorreu até dia 5 de novembro na cidade da Praia, Santiago, Cabo Verde, estava marcada para se desenvolver em torno do tema “Porton di nos ilha”. Um título em crioulo para definir uma conversa que se faria à volta da influência das viagens na literatura, da literatura nas viagens e da literatura como porta de entrada para um país. Convidados ao debate estavam Germano de Almeida, o mais internacional dos escritores cabo-verdianos da atualidade, e Alexandra Lucas Coelho, jornalista e escritora, que publicou o romance ‘Deus Dará’, uma narrativa que retrata o Brasil contemporâneo como o resultado do modelo colonial assente na violência sobre os escravos, e sobre as mulheres negras e índias em particular. Foi esse o assunto de Alexandra Lucas Coelho quis trazer para a mesa redonda – o assunto do livro publicado em 2016.

“Quando se fala de miscigenação, esquece-se em que é que isso é assente. Portugal foi a potência colonial que levou menos mulheres para as colónias. A miscigenação assenta na violação em massa durante séculos.”

Alexandra Lucas Coelho afirmou ainda que há uma História das mulheres que está por contar – a história das mulheres que ficaram no continente e a história das que sofreram durante séculos a opressão de quem estava no poder. A sala da Biblioteca Nacional de Cabo Verde gelou.

Germano de Almeida deu voz a episódios da cultura cabo-verdiana que mostram uma outra face dessa história de miscigenação, uma face mais feliz, menos violenta. Contou que as mulheres portuguesas que chegavam a Cabo Verde durante os século XVI, na sua maioria prostitutas em Portugal, “preferiam casar com um negro ou um mulato com dinheiro do que com um branco na condição de degredado”. O escritor, que foi deputado do país insular e procurador geral da República, afirmou ainda que Cabo Verde foi o primeiro país da comunidade de língua portuguesa a ter uma magistrada e que diversas leis foram feitas na defesa dos direitos das mulheres: como a lei da união de facto para proteger o património adquirido das mulheres, para concluir “A mulher não tem tido muitas razões de queixa em Cabo Verde”.

De costas o escritor Germano de Almeida na mesa redonda moderada por Tito Couto, da BookTailors, e Alexandra Lucas Coelho (fotografia João Viegas Guerreiro)

 

Quando o microfone passou para o público, homens, e só homens, reagiram à intervenção da escritora para dar exemplos de figuras histórias cabo-verdianas emancipadas. O escritor e editor cabo-verdiano Filinto Elísio acrescentou, desde a plateia, que “uma grande escravocrata foi uma mulher emancipada, o que era raro à época”. Um outro interveniente do público, de sotaque brasileiro, interpelou Alexandra Lucas Coelho para referir que “nas colónias portuguesas o colono também era holandês ou italiano.”

“Eu só falo do que conheço”

Em declarações ao Delas.pt, Alexandra Lucas Coelho viria a clarificar que a sua declaração se cingia ao Brasil por ser esse o universo do livro que escreveu recentemente, ‘Deus Dará’, “que é um livro todo passado no Rio de Janeiro mas que no fundo acaba por ser uma travessia pelos próprios fantasmas da História Portuguesa, da História Colonial”, reiterando mais tarde que a miscigenação foi um processo violento.

“Quando se fala de miscigenação, quando se fala de mistura, de que é que estamos a falar na prática? Estamos a falar do corpo do homem branco que se impôs sobre o corpo da mulher ameríndia – primeiro eram essas mulheres que estavam disponíveis para os brancos portugueses – e depois as mulheres que foram traficadas no Atlântico, traficadas em massa.”

Os dados de que Alexandra Lucas Coelho dispõe ajudam a evidenciar esta realidade. A repórter afirma que “os portugueses levaram poucas mulheres para o Novo Mundo. Isto fez com que eles se cruzassem mais [com as populações escravizadas] do que outros colonizadores.” A necessidade de povoamento dos territórios ocupados levou àquilo que a escritora refere ser uma “violação em massa de muitas mulheres, quer tenha sido um ato físico forçado, quer tenha sido a sujeição de alguém que não era livre, que não podia recusar. Houvesse ou não força física nessa relação, havia sempre a violência de alguém que tinha o domínio sobre outra pessoa que não tinha alternativa.”

Hoje, conforme descreve no último livro publicado, a mulher brasileira ainda sofre do preconceito decorrente dessa relação de poder e de domínio sexual do passado. “Ela moldou uma imagem da mulher brasileira, como uma espécie de instrumento de prazer: a mulata, a gostosa. Todos estes estereótipos que fundaram a imagem da mulher brasileira assentam na violência colonial que foi exercida desde o início da chegada dos portugueses.”

“Eu sinto um machismo que não supus nunca na vida que poderia existir em 2017”

Alexandra Lucas Coelho reconhece que o machismo é um problema mundial, que não ocorre apenas no Brasil e vê o fenómeno a tomar uma proporções que não imaginava serem possíveis em 2017. “Como é possível que em 2017 estejamos a discutir isso? O que estamos a assistir nestes últimos anos é uma espécie de ameaça de retrocessos vários em relação a conquistas que nós pensávamos sólidas.” Identifica como responsáveis pela sensação de misoginia crescente o altifalante que a internet se veio a tornar para esses pensamentos que, outrora, tinha pouca expressão.

“Creio que hoje sentimos muito isso, talvez porque a internet tenha de repente amplificado tudo isso e a penalização, o pudor, o medo de ser penalizado, de ser criticado, de ser exposto a que antes isso obrigava não existe. As pessoas sabem que podem agredir continuamente e saírem impunes. Eu não queria tirar uma conclusão muito pessimista. É uma luta agora e não achei que prestes a fazer 50 anos eu estaria a declarar-me feminista em luta e é isso que está a acontecer, porque todos os dias há razões para isso.”

A situação de países como os Estados Unidos da Europa ou o Brasil, em que a autora refere que “a ascensão de uma direita evangélica, fundamentalista, altamente repressiva, com um projeto de poder autoritário está a ter efeitos absolutamente decisivos na vida pública brasileira a vários níveis, de repressão cultural, de repressão sobre as mulheres. Existem todas essas ameaças.”

 

Texto de Carla Macedo Fotografia João Viegas Guerreiro, em Cabo Verde

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