Estreia de Alexandra Moura em Milão molda-se no barro da minhota Rosa Ramalho

É no trabalho de olaria da minhota Rosa Ramalho que se molda a nova coleção de Alexandra Moura, intitulada “Bestiário” e apresentada esta segunda-feira, 25 de fevereiro, no calendário oficial da Semana da Moda de Milão. O Palazzo Giuriconsulti, na movimentada Praça do Duomo – onde se situam as galerias Vittorio Emanuele que acolhem várias marcas de luxo e alta-costura – foi o local escolhido para a estilista lisboeta se apresentar naquela que é cada vez mais a cidade do negócio da moda. E em estreia dupla: por um lado, este foi o primeiro desfile de Alexandra Moura em Milão, por outro, é a primeira designer portuguesa a integrar o calendário oficial desta Semana de Moda, onde se concentram as apresentações de marcas e designers de renome mundial.

A inspiração da cerâmica de Rosa Ramalho no trabalho de Alexandra Moura mostrou não ter pés de barro e segurou-se com a sua simplicidade e ligação à terra e à ruralidade, num centro onde o brilho e o luxo reinam com facilidade.

Com “Bestiário”, a designer traz para as suas peças o imaginário da obra da artesã de Barcelos, jogando com as referências rurais e urbanas e o clássico com o contemporâneo. Uma coleção que parte do campo e da interpretação, muito própria, da tradição artesanal feita por aquela artista, que se tornou conhecida nos anos 50, e que estabelece simultaneamente uma dualidade e uma ponte entre esse mundo de raízes tradicionais e o citadino, global e atual.

A inspiração de Rosa Ramalho acaba por ser transposta para as peças através do equilíbrio entre um lado romântico e rural e o outro “altamente urbano, citadino e futurista”, como descreve a estilista, onde dominam coordenados street wear e sports wear. Por outro lado, reflete-se nos detalhes e nas misturas de tecidos, visíveis nos padrões, nas cores e nos materiais usados, que vão desde a bombazine à lã, passando pelo algodão ou os metalizados, pelo xadrez.

“As matérias-primas foram muito pensadas para termos essa dualidade”, começou por explicar a designer aos jornalistas que acompanharam o desfile em Milão. Assim, há “o lado mais terra, mais rural, mais seco e mais quente, quase uma coisa rude, um tecido ancestral, com alguns jacquards a lembrar os quadrados e o xadrez, e depois todo o lado do tule, mais high-tech, do jersey em metal. Tudo isso combinado gera estas oposições”, sublinhou.

Há ainda flanelas e bombazines, numa coleção marcadamente de inverno, neste caso o próximo, mas sem o peso que lhe está associado, já que os tecidos são leves e finos, segundo a designer.

Mas o universo de Rosa Ramalho está também presente de forma evidente nas camisolas pintadas com as caras de algumas das figuras que a ceramista criou e na maquilhagem dos manequins – pequenas bestas e criaturas fantásticas.

“Bestiário” não se cinge apenas à obra da ceramista e não separa a obra da ceramista, enquanto mulher e artista popular e rural. Essa vertente de figura de Rosa Ramalho faz-se representar, por exemplo, com frases suas desenhadas à mão, em peças como os coordenados metalizados ou casacos, e onde se podem ler afirmações como ‘Não é Sonho Nenhum’, particularmente apreciadas pelos clientes japoneses da estilista que elegeram essas peças entre as suas preferidas da nova coleção.

As écharpes pretas a cobrir a cabeça dos manequins e laçadas no pescoço, como Rosa Ramalho usava o seu lenço preto de mulher do campo, são outro elemento da imagem da ceramista que Alexandra Moura quis incorporar na sua coleção.

“Sou uma apaixonada por tudo o que é o lado cultural do nosso país e quis encontrar algo que fosse muito nosso e um bocadinho ancestral”, explica a designer.

Rosa Ramalho, que teve o seu auge como artista popular nos anos 50, morreu nos anos 70. Alexandra Moura descobriu-a nas suas pesquisas e deixou-se fascinar por essa mulher rude mas visionária. “Era uma senhora com uma capacidade de visualização completamente à frente do seu tempo, com um sentido estético incrível, quer ao nível das esculturas de barro, quer da paleta de cores. É realmente uma fonte de inspiração”.

O desfile de Alexandra Moura não foi, por isso, apenas um embaixador da moda portuguesa, que se mostra lá fora, como é habitual, com o apoio do Portugal Fashion. Foi também uma pequena representação da cultura do país, aquela que está mais longe das imagens turísticas e que passa tantas vezes despercebida, até aos locais. A música de Miguel Cardona completou a etnografia lida à luz da modernidade, neste caso passando as referências dos cantos das mulheres minhotas e dos instrumentos tradicionais para os sons eletrónicos, e mostrando, mais uma vez, como o rural e urbano se podem juntar e criar uma espécie de novo luxo: o da identidade.

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