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Ana Marta Ferreira: “Há assédio em Portugal, mas não é tão descarado”

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Ana Marta Ferreira: “Há assédio em Portugal, mas não é tão descarado”

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Ana Marta Ferreira, de 23 anos, começou a entrar diariamente na casa dos portugueses com apenas 10, na série Morangos com Açúcar (TVI), onde dava vida a Anita. Ainda não tinha terminado as gravações dessa novela infantil quando a convidaram para fazer parte de outra produção da TVI, Mistura Fina. Seguiram-se séries bem presentes na memória das crianças nascidas nos anos 1990: Clube das Chaves (TVI), Floribella (SIC) Rebelde Way (SIC) e Detective Maravilhas (TVI).

Links_CuidadoresJá adulta fez parte do elenco de Sol de Inverno (SIC), Bem-Vindos a Beirais (RTP) e A Única Mulher (TVI), uma novela que durou dois anos e durante a qual a atriz ficou grávida do primeiro filho, Vasco, atualmente com um ano, e que obrigou a sua personagem a engravidar também na ficção. Recentemente fez uma pequena participação no filme português O Fim da Inocência e prepara-se para se estrear no teatro este ano com uma peça infantil.

Depois de um almoço no restaurante Confraria LX, em Lisboa, falámos com a atriz sobre a vida dupla dos adolescentes que o livro e filme O Fim da Inocência mostram, as dificuldades de lidar com fama desde criança, o assédio na área da representação em Portugal, a importância crescente que a influência nas redes sociais têm para a carreira dos jovens atores e figuras públicas e da exposição das crianças no Instagram, onde Ana Marta Ferreira costuma partilhar, com frequência, algumas fotografias do filho.

Começou a carreira nos Morangos com Açúcar, com apenas 10 anos.

Sim, fiz uma figuração especial na primeira série de verão dos Morangos com Açúcar. Era um bebé.

Como foi parar à série?

Nessa altura a minha mãe trabalhava em Cascais e encontrei num jornal local um anúncio para uma daquelas agências onde se faziam mini workshops e books. Disse-lhe que gostava muito de experimentar fazer aquilo e perguntei-lhe se era possível. Ela disse que sim, mas tinha de ser eu a falar. Pedi-lhe para escrever num papel o que eu tinha de dizer e liguei. Li o papel todo de seguida, sem deixar a pessoa responder, sempre muito despachada. A senhora que estava do outro lado partiu-se a rir, achou imensa graça àquela criança tão despachada a tratar do assunto, e pediu para falar com a minha mãe para combinarem. No final a minha mãe perguntou-me por que razão tinha lido aquilo tudo de seguida e eu respondi-lhe que era por ela não ter colocado virgulas. Fui lá, inscrevi-me, fiz um primeiro curso de modelo – tinha imenso jeito, parecia um gafanhotozinho – e um mini workshop de teatro, de que gostei imenso. Na altura eles faziam-nos um book no final dos workshops e mandavam-nos uma série de agências para nos inscrevermos. Uma delas foi a agência que na altura trabalhava diretamente com a TVI. Fui a um casting, gostaram muito de mim e propuseram-me figuração nos Morangos com Açúcar. Fiquei. Entretanto fiz um casting para a Baía das Mulheres (TVI) e correu muito bem porque a minha mãe ajudou-me a alterar um bocadinho o texto. Era para uma personagem despachada, uma miúda que cuidava do pai, tinha de cozinhar e fazer tudo em casa porque a mãe tinha morrido. Eles acharam imensa graça, mas na altura tinha 8 anos, era muito novinha para aquilo que era pedido. Não fazia sentido.

E depois disso?

Entretanto fui para os Morangos com Açúcar e quando ainda estava a gravar a série ligaram para a minha mãe a dizer que tinha sido escolhida para a nova novela da TVI. O primeiro nome foi Tops e Mini-Saia, mas depois ficou Mistura Fina. A minha mãe disse que aquilo não era possível porque eu nem sequer tinha feito casting. Ainda assim, eles disseram que tinha sido escolhida. Como os estúdios eram os mesmos que os dos Morangos com Açúcar, houve um dia em que, durante as gravações, já me queriam fazer o teste de imagem para a Mistura Fina, mas a minha mãe pediu para não fazerem isso porque ainda estava a gravar a série.

Isso tudo sempre conciliado com os estudos?

Sim, sempre foi fácil conciliar porque havia o cuidado de gravarmos depois da escola. Às vezes era inevitável faltar um dia ou outro, mas era muito raro. Havia sempre esse cuidado de gravarmos depois da escola porque era nossa obrigação. Tinha 8 anos, não tinha 16, 17 ou 18 onde já se decide o que se quer fazer. A representação era o meu hobbie, o meu ATL [Atividades de Tempos Livres] daquela altura. Quando fiz a Mistura Fina começaram a surgir outros trabalhos: o Clube das Chaves (TVI), Os Mini Malucos do Riso (SIC), a Floribella (SIC), Rebelde Way (SIC) e algumas séries infantis da RTP e TVI, como por exemplo o Detetive Maravilhas (TVI). Antes da Rebelde Way ainda fiz uma série para a RTP, O Último Tesouro, que foi gravada em modo cinema. Era com o Pêpê Rapazote, Joana Seixas, Pedro Carmo e Pedro Górgia. Eu fazia de filha do Pêpê Rapazote e foi uma aprendizagem incrível. Saí dali a saber muita coisa nova porque era um método diferente de gravação, diferente de tudo o que tinha feito na altura.

“Comecei a perceber que já não era um hobbie, que queria fazer aquilo para o resto da vida.”

Que idade tinha nessa altura?

Tinha 12 anos quando fiz essa série. Foi nessa altura que surgiu também a Rebelde Way, um projeto que amei fazer. Fiz essa novela com a Jani Zhao, Diogo Martins e Diogo Ferreira. Foi tão divertido. Já disse: se fizerem a Rebelde Way 2 com as mesmas pessoas dessa altura, eu aceito. Estava a trabalhar com pessoas de quem gosto realmente. O Diogo Martins já conhecia há imenso tempo, trabalhámos juntos nos Morangos com Açúcar e entretanto fizemos Os Mini Malucos do Riso e o Clube das Chaves. Ainda hoje somos super amigos.

Teve muitos trabalhos durante a infância e adolescência.

Sim, foram surgindo.

Em que momento é que percebeu que queria fazer carreira na representação?

Foi durante a Rebelde Way, quando tinha 14 ou 15 anos. Comecei a perceber que já não era um hobbie, que queria fazer aquilo para o resto da vida. Quando somos crianças podemos achar muita graça a estas coisas mas depois perdemos o jeito ou percebemos que, afinal, não é aquilo que queremos. Comigo não foi assim, sempre tive este bichinho. O meu avô sempre adorou tecnologia, tinha máquinas de filmar, e eu punha-me, sozinha, a filmar. Isto estava dentro de mim há algum tempo.

2 Mistura Fina

Ana Marta Ferreira com Eunice Muñoz em ‘Mistura Fina’

Sempre teve o apoio dos pais?

Sempre. Não houve uma altura quem que me dissessem que não, sempre me apoiaram em todas as decisões que tomei. Eles viam que era algo de que gostava e queriam ver-me feliz.

Entrou no mundo da TV muito pequenina. Como é que eles geriam o facto de se tornar figura pública tão cedo?

Era uma novidade para eles também, na minha família não há mais ninguém que seja ator ou figura pública. Eu era um bocado malandra, dizia às pessoas que não era quem elas estavam a pensar quando me abordavam na rua. Às vezes até tentava falar outra língua. A minha mãe dizia: “Marta, não podes fazer isso. As pessoas sabem que és tu.” Havia uma pista de gelo enorme em Belém e eu não conseguia patinar porque as pessoas eram muito efusivas, queriam tirar fotografias, e eu não conseguia brincar, até que acabava por desistir e ir embora. Houve um Halloween em que fui para lá com uma peruca preta comprida, pintei os olhos e os lábios de preto e pus um chapéu para ninguém me reconhecer. Nunca patinei tanto na minha vida, mas mesmo assim as pessoas reconheceram-me. Havia pessoas a apontar e a dizer que eu era a miúda da novela. E eu percebo porque, no fundo, nós entramos na casa das pessoas diariamente. É normal que nos conheçam, seja de que maneira for.

“As pessoas eram muito efusivas, queriam tirar fotografias, e eu não conseguia brincar”

Hoje em dia já não é assim. Anda muito mais à vontade na rua, certo?

Hoje sinto que as pessoas respeitam mais o meu espaço. Também já sou adulta, é diferente. Quando somos crianças levamos com beijos na cara e apertões nas bochechas. Lembro-me perfeitamente de passarem por mim senhoras e dizerem: “Ai que linda, dá cá um beijinho” e agarravam-me. Durante a Mistura Fina as pessoas adoravam porque a novela tinha aquela parte da feira e do mercado, identificavam-se com isso.

Os seus pais nunca demonstraram receio pela instabilidade da profissão?

Eles alertavam-me para isso, mas quando era miúda sempre tive um trabalho constante, não posso dizer que tive muito tempo parada. Isso aconteceu quando já era mais velha, depois da Rebelde Way. Houve uma altura em que estive parada porque fui para um curso profissional e houve ali toda uma adaptação, era algo mais trabalhoso, tinha de estar lá das 9h00 às 18h00 e se não estivesse era um grande problema.

É mais fácil, para as crianças, arranjar trabalho na área da representação?

Na minha altura era diferente. Na minha geração havia uma continuidade do nosso trabalho, hoje em dia há mais variedade de crianças.

Na maioria dos casos são os pais que incentivam as crianças a ir aos castings?

Há de tudo. Lembro-me de ir a castings e ver miúdos que não queriam lá estar. Isso acontece, mas também acontece os miúdos quererem ir e os pais não deixarem. Antigamente era assim, hoje em dia é assim e, sinceramente, acho que vai continuar a ser. Sinto que na minha altura, apesar de existirem muitos miúdos, havia trabalho para todos. Hoje veem-se sempre caras novas a surgir.

Já fez televisão e cinema, mas nunca fez teatro, pois não?

Não. O Diogo Martins e o Flávio Furtado criaram uma nova companhia, a Tribo Produções, e a ideia é inicialmente fazermos teatro infantil para as escolas. Estamos a ensaiar o O Principezinho, onde eu sou o principezinho. Vou ter uma peruca. Essa vai ser a minha primeira experiência em teatro, nunca fiz porque tive um bocadinho de medo e nunca surgiu oportunidade. O teatro é essencial na minha profissão, é o lado mais verdadeiro porque é feito no momento. Não há “corta”, “ação”, “vamos repetir”, “ai, esqueci-me do texto” ou “enganei-me aqui”. As coisas surgem quando têm de surgir. Se aconteceu agora, por alguma razão é.

“Lembro-me de ir a castings e ver miúdos que não queriam lá estar.”

Como está a ser o processo de preparação?

Está a ser muito giro, estou a divertir-me imenso com um grupo de pessoas brutal. Somos um grupo pequenino ainda. O Diogo Martins convidou-me e aceitei logo. Primeiro, por ser com ele. Depois, por nunca ter tido oportunidade de fazer teatro. O elenco de O Principezinho sou eu, o Diogo Martins, o Luís Simões e a Élia Gonzalez. O Luís e a Élia fazem diversas personagens, eu sou o princípezinho e o Diogo é o narrador. Está a ser uma experiência muito querida.

Já têm data de estreia?

Ainda não temos datas porque a ideia é ser mais para escolas. Agora fizemos uma pausa porque o Diogo está com outra peça, o Peter Pan, e está a acabar uma novela. Vou partilhando nas minhas redes sociais.

A igualdade de género é um dos temas que mais se tem discutido na atualidade. Na representação há igualdade?

Nunca senti diferenças. Não posso falar pelas outras pessoas.

Em termos de renumeração também é igual para homens e mulheres?

Não falo de valores com ninguém nem ninguém fala de valores comigo. Se falar de valores é com os meus amigos próximos. Isso está relacionado com o currículo das pessoas. Não se ganha mais por se ser homem ou mulher, mas sim por se ser mais ou menos conhecido. O meu cachê foi aumentando gradualmente à medida que fui trabalhando. Em termos de trabalho no estúdio nunca me senti inferior ou superior a ninguém, há muito companheirismo.

Entrou também na novela A Única Mulher (TVI), que durou dois anos. Como foi a experiência de fazer parte de um projeto que se estendeu durante tanto tempo?

Quando começámos A Única Mulher nunca pensámos que íamos estar dois anos e tal a trabalhar. Trabalhei com pessoas fantásticas, o Paulo Pires e a Paula Neves são pessoas incríveis, dei-me genuinamente bem com eles e gosto muito deles. São ótimos colegas, só tenho coisas boas a dizer sobre eles e da restante equipa. Dava-me bem com todos e todos se davam bem comigo.

“Não se ganha mais por se ser homem ou mulher, mas sim por se ser mais ou menos conhecido.”

Há alguns atores que se fartam das personagens quando os projetos se prolongam. Isso não aconteceu consigo?

Foi um projeto muito especial para mim porque engravidei durante A Única Mulher e a minha personagem também teve de engravidar. É uma coisa que vai ficar. Tive oportunidade de continuar a trabalhar apesar de estar grávida, assumiram isso. São imagens que vão ficar para a vida e para sempre no meu coração. Foram momentos muito felizes. Tive uma gravidez incrível. Eles só diziam: “Tu és a grávida mais feliz que conheço.” Estava sempre a rir. Naturalmente já sou assim, mas naquela altura estava mais ainda. Estava feliz a comer, adorava as piadas das pessoas, estava bem com tudo. Até me tornei uma pessoa mais alegre e descontraída, correu tudo muito bem e fui super bem tratada.

Até que fase da gravidez trabalhou?

Trabalhei até às 37 semanas. Cheguei a uma altura em que disse que já não conseguia mais. Não conseguia andar, estava super cansada. Pedi imensa desculpa, disse que adorava continuar ali e até poderia ter o filho ali, mas não dava mais.

Como foi esta sua primeira experiência no cinema, com o filme O Fim da Inocência?

Correu muito bem. A minha personagem não tem uma participação muito grande, faço de Mafalda, a irmã da Inês, mas foi muito giro. É um registo diferente e acabou por ser algo mais descontraído, dando mais naturalidade às cenas. Em televisão não temos tanta liberdade. Foi uma boa experiência conhecer novas pessoas, não conhecia muita gente na produção nem o Joaquim Leitão.

Já tinha lido o livro antes de fazer o filme?

Já. Não sei dizer com que idade li o livro, mas li numa fase de transição enquanto adolescente e foi um livro que me chocou bastante na altura. Há um filme americano, o Treze, que nos mostra um bocado isto, o lado selvagem que os jovens podem ter, e foi por esse lado que o livro me chocou um bocadinho. Quando vemos um filme americano pensamos: “Isto só acontece nos EUA ou lá fora.” Mas de repente temos um testemunho real que acontece cá, ao nosso lado. Adorei o livro, mas fiquei chocada. O filme é uma adaptação, há muita coisa do livro que não está no filme. O livro sim, é realmente chocante. Os pais são quem mais vai ficar chocado com o filme, mas ler o livro ia tocar ainda mais, até porque foi escrito com o intuito de alertar. A Inês, a rapariga que enviou a história ao Francisco Salgueiro, sentiu necessidade de contar ao mundo que isto acontece e de alertar os pais. Não quer dizer que os pais tenham de estar sempre em cima, mas têm de conhecer os filhos e sentir as diferenças. Quando as pessoas entram no mundo da droga ou se tornam alcoólicas ficam diferentes. O corpo, o olhar e a maneira de estar. Ali houve um grito de ajuda e alerta para os pais, para que outros jovens não passem por aquilo que ela passou.

No caso da Inês, ninguém reparou porque tinha uns pais muito ausentes…

São crianças que são criadas com as empregadas, que não têm autoridade nenhuma sobre eles. Isso é muito complicado porque depois vão procurar atenção noutros sítios. Podem conseguir atenção em coisas positivas, agarrando-se a um desporto, à arte ou a um hobbie, mas também podem agarrar-se ao mais fácil, saindo à noite e curtindo para esquecer os problemas. Tudo tem um limite. Há miúdos que ultrapassam esse limite e depois é muito difícil voltar atrás.

“[O Fim da Inocência] foi um livro que me chocou bastante na altura”

Já é mãe de um menino de 1 ano. Com este filme ficou a pensar em como será quando ele for adolescente?

Não posso dizer que fui uma adolescente fácil, porque não fui e muito poucos são. Gosto de sair à noite, sempre saí à noite e conheço esse mundo. Claro que fico preocupada com o Vasquinho e vou entrar em pânico quando ele chegar perto de mim e disser: “Mãe, quero ir sair.” Mas não o posso proibir de fazer algo que também fiz. A única coisa que lhe vou pedir é para que seja responsável, tenha atenção às coisas que faz e noção dos limites dele. É muito difícil controlar isso. As miúdas arranjam maneira de sair mesmo quando os pais não deixam. Prefiro que ele seja verdadeiro comigo. Mas cada coisa a seu tempo, ainda faltam uns aninhos. Não sei qual é a altura certa para se ter este tipo de conversa com os filhos, mas é muito importante eles estarem informados pelos pais, por quem são educados.

Este filme ainda contou, numa fase inicial do casting, com o Nicolau Breyner. Chegou a cruzar-se com ele?

Não. A minha agência da altura enviou-me o primeiro casting para o filme e fiquei completamente histérica porque quando li o livro pensei: “Adorava fazer este filme.” A minha agente avisou-me que, por ser uma produção do Nicolau Breyner, provavelmente seria algo mais pesado, mas eu quis ir na mesma. No entanto, nessa semana descobri que estava grávida e liguei-lhe a dizer que, afinal, não podia fazer o filme. Infelizmente, pouco depois, o Nicolau Breyner morreu, o filme acabou por se atrasar e quando soube que estavam, outra vez, a fazer castings para o filme falei com o meu novo agente e disse-lhe que queria fazer este casting. Fiz e correu bem. O Joaquim, quando fiz o casting, disse-me que tinha gostado muito mas precisavam de alguém com um ar mais inocente e novo. A Oksana tem 20 anos mas parece muito mais nova, está ótima para aquele papel, toda aquela inocência faz sentido. Uma semana depois ligaram-me e disseram-me que tinha ficado como irmã da Inês.

Neste filme trabalhou com atores mais novos. Para alguns deles, como foi o caso da Oksana Tkach, foi uma das primeiras experiências na representação. O que fez para ajudá-los?

Foi mais com a Oksana porque as outras pessoas já tinham trabalhado na área. A Leonor Vasconcelos, por exemplo, começou muito cedo, o Rodrigo Paganelli é ótimo, a Joana Aguiar começou recentemente mas está top e também adorei a Joana Barradas. São pessoas que já têm alguma experiência. À Oksana tentei passar calma, dizer-lhe que ia correr tudo bem e que não era preciso stressar com nada. Isto é um filme muito difícil de fazer mesmo para uma pessoa que já tem muita experiência. A Inês é uma personagem super difícil, é preciso expormo-nos muito e encontrar várias emoções. É uma personagem muito forte. Toda a equipa funcionou bem, a Oksana estava a ser muito bem acompanhada e viu-se no resultado final. Adorei. Ela está mesmo muito bem.

Os últimos filmes portugueses não têm sido grandes êxitos de bilheteira. Com este vai ser diferente?

Sim porque as pessoas já conhecem o livro, principalmente os jovens. E também pelo tema, não é mais um filme de adultos em que há sexo e drogas por todo o lado. São miúdos e relata uma realidade que existe mesmo. As pessoas vão ficar muito curiosas e vão ter vontade de ver.

Dá vida a Mafalda, a irmã de Inês. A Marta tem dois irmãos mais velhos. Na sua opinião, os irmãos são essenciais numa fase como a adolescência?

A minha irmã é um dos meus pilares, literalmente. Dou-me super bem com ela. Com o meu irmão também, mas ele já saiu de casa há imenso tempo. Sempre estive mais ligada à minha irmã. Para mim, na minha adolescência, foi essencial ter a minha irmã, que era adulta quando eu estava nessa fase. À medida que o tempo foi passando fomo-nos dando cada vez melhor. Claro que temos as nossas discussões, mas nunca fomos daquelas irmãs que se batem umas às outras. Com os irmãos temos um à-vontade e intimidade diferente daquele que temos com os nossos pais. Falo coisas com a minha irmã que não falo com a minha mãe porque faz mais sentido falar com a minha irmã, apesar de estar completamente à vontade para falar de tudo com a minha mãe e o meu pai. Não é isso que está em questão, é apenas diferente.

Tem feito algumas coisas na área da moda. É algo de que gosta?

Adoro moda, tanto que quando tinha 6 anos dizia que queria ser designer de moda e ainda frequentei um curso no secundário, mas não acabei porque percebi que aquilo não era para mim. Ultimamente tenho tido oportunidade de ir a algumas festas onde dá para arriscar mais. Sempre fui muito fascinada por moda e ainda sou. Não vou dizer que sei os termos técnicos ou reconhecer os tecidos, só sei ver o que é bonito e o que não é.

Gostava de fazer desfiles ou produções fotográficas?

Gostava de fazer mais produções fotográficas. Recentemente fiz uma produção com a Madstudios, que juntou várias raparigas para fazer um editorial de moda e maquilhagem, mas é para portfólio. Sou muito esquisita a tirar fotografias. A Mafalda, a fotógrafa, está habituada porque já me conhece, pergunta-me sempre se gosto e deixa-me escolher as fotos.

Nos EUA foram denunciados dezenas de casos de assédio nos últimos meses, mas cá em Portugal fala-se muito pouco do assunto. Cá acontece menos ou as pessoas têm medo de falar?

Há assédio em Portugal, mas não é tão descarado. Nos EUA há pessoas a fazerem queixas de coisas que aconteceram há 20 anos e entretanto apareceram todos em fotografias de mãos dadas e a sorrir. Isso não faz sentido. Em Portugal acontece, já aconteceu mais ou menos comigo mas também não permiti mais. As pessoas às vezes têm tanto à vontade que acham que têm à vontade a mais. Há pessoas que cortam logo, como é o meu caso, mas também há as que alimentam. Na área da moda, lá fora, há modelos que deixaram a profissão porque eram completamente assediadas a vida toda. É uma coisa que, infelizmente, nunca vai acabar. O assédio vai sempre existir em áreas como a moda e a representação, onde se expõe muito o corpo.

Investe muito nas suas redes sociais. Só no Instagram tem 183 mil seguidores.

Não posso dizer que sou uma pessoa extremamente ativa, não faço 50 mil stories por dia. Estou sempre atenta e sempre que acho importante publicar alguma coisa, eu publico.

As redes sociais são importantes na sua carreira?

Sem dúvida. Hoje em dia as redes sociais são essenciais para as figuras públicas.

Considera-se uma influencer?

Posso ser uma influência para muitas mulheres jovens, mas não posso dizer que sou uma influencer porque não me sinto assim. Tive um grande crescimento desde que fiquei grávida. Passei a ter muitas mulheres a seguirem-me, principalmente jovens adultas. Antes eram mais crianças, passei da fase adolescente para a fase adulta e com a gravidez foi aparecendo um público mais velho. Ainda hoje tenho muitas mães que me dão força. Algumas mães mais jovens perguntam-me como lidei como a situação e o que fiz porque também estão assustadas. Eu também estava assustada. Quando descobri que estava grávida fiquei super feliz e, ao mesmo tempo, completamente aterrorizada. Isto é uma mudança na vida, é um ser que vai depender de nós para sempre. Nesse sentido, claro que sou uma influência para as pessoas. Sempre tentei ser o mais natural possível, isso é muito importante. Claro que às vezes podemos ter uma personagem que funciona quando vamos a eventos, mas quando temos redes sociais em que somos seguidos por não sei quantas mil pessoas temos de mostrar o nosso lado verdadeiro, temos de ser nós. Se isso não acontece as pessoas vão pensar que é só mais uma que se está a mostrar.

Como está a ser esta nova fase da vida enquanto mãe?

Está a ser maravilhosa. É bastante cansativo, claro, mas aquele bebé compensa tudo quando sorri, quando vem dar beijinhos ou quando está a adormecer e está agarrado a mim a dar-me beijinhos. Está a ser tão giro e tão bom. Ele agora já está a entrar na fase das birras, mas a pediatra diz que é normal. Está a criar a personalidade dele, a experimentar coisas novas e a desafiar o mundo. Está a ser um grande desafio. Aprendo diariamente com ele e ele comigo.

Foi mãe muito jovem, com apenas 22 anos. Foi algo em pensou muito antes de acontecer?

Não foi uma gravidez planeada, mas eu já tinha vontade de ser mãe, sempre disse à minha mãe que queria ser mãe cedo, e o André [pai do filho de Ana Marta Ferreira] também. Tínhamos os dois essa vontade, aconteceu e correu bem.

Quer ter mais filhos?

Quero. Não sei quando nem estou a planear nada, tal como não planeei o primeiro, mas agora estou a evitar. Quero estar com uma vida mais estável para que isso possa acontecer. Não falta nada ao Vasquinho, ele tem tudo. Tenho a ajuda preciosa dos meus pais e dos pais do André, que é um pai fantástico e super presente, sempre me acompanhou em tudo, mas neste momento apenas um filho está bom. Talvez daqui a um, dois ou três aninhos, quando já me sentir mais estável financeiramente e com trabalho, começo a pensar.

Após a gravidez recuperou a boa forma física muito rapidamente. Que cuidados teve?

Comia de tudo durante a gravidez. Não vou dizer quantos quilos é que engordei, para as pessoas não ficarem chocadas, mas estava enorme porque me sabia tudo tão bem. Quando tive o Vasquinho a minha barriga era enorme, ele era um bebé grande, nasceu quase com quatro quilos. Na fase em que amamentei também comia de tudo para ter bom leitinho para ele, mas à medida que o tempo foi passando fui cortando em algumas coisas. Cheguei a fazer algum ginásio, que é um sítio onde vou mas sozinha fico sem motivação. Nesse sentido sou um bocadinho preguiçosa. Antes de engravidar não comia muita massa nem muito arroz, a minha alimentação era mais à base de saladas, legumes, carnes e peixe. Durante a gravidez não podia comer saladas fora de casa, não estavam desinfetadas. Então era só arroz, batatas, massa e puré. À medida que o tempo foi passando reduzi as quantidades, fui voltando ao normal e fiquei ainda mais magra do que era antes de estar grávida. Conheço casos de mulheres em que lhes aconteceu o mesmo.

Ana Marta Ferreira com a irmã e o filho

Agora há algum cuidado que tenha, alguma coisa que não coma?

Tento, mas sou louca por massa e adoro comer. Principalmente tento ter mais atenção à quantidade. Podemos comer um bocadinho de tudo, mas comer muito é pior do que quando comemos só um bocadinho. Doces e salgados não como muito, só os gelados e bolinhos de ovo cobertos de açúcar é que são a minha perdição. É tudo uma questão de equilíbrio e beber muita água, que é algo que faço imenso.

Partilha muitas fotos do seu filho nas redes sociais. Nunca teve muito receito de estar a expô-lo demasiado?

Esse é um assunto para o qual não tenho uma resposta certa. Já falei disto com o André, com os meus pais, a minha irmã e não sei explicar. Mostro porque ele faz parte de mim e sempre partilhei as minhas coisas com o público. As pessoas iam conhecê-lo na rua, de qualquer forma. É verdade que ao colocar fotografias dele na Internet elas podem ir parar a sites pornográficos, mas as nossas também podem, temos é de ter sempre atenção. Quero partilhar com as pessoas este meu amor, esta pessoa que veio de mim e as pessoas adoram.

Há casos de algumas figuras públicas em que os filhos acabam por ser alvo de comentários mais desagradáveis ou dar origem a polémicas, como já aconteceu várias vezes com a Carolina Patrocínio. Isso nunca lhe aconteceu?

Não, isso nunca me aconteceu. As pessoas são super queridas. Provavelmente já foram comentar qualquer coisa menos boa, mas não ligo. As pessoas têm liberdade para dizerem o que quiserem, a Internet é um bocado isso. Quando não têm nada de bom para dizer, as pessoas não deviam dizer nada. Mais vale estarem caladas. Entramos tanto na vida das pessoas que elas sentem que nos conhecem e podem dizer tudo o que querem. O que vale é que há sempre quem nos defenda e tente alertar os outros.

Que projetos vêm aí, além da peça de teatro?

Comecei com um canal de YouTube mas depois parei porque não era bem aquilo que queria. Agora estou a estudar a situação para ver se começo a trabalhar nisso. Estou a pensar fazer algo mais de lifestyle. No YouTube já há de tudo, nada é novidade, mas o futuro é a Internet. O difícil é cativar as pessoas e fazer com que gostem. Estou a demorar porque tenho medo, tanto quero algo mais simples como quero fazer uma qualquer coisa brutal. Não sei ainda, estou dividida, a tentar perceber o que é melhor e aquilo com que me identifico mais. Quero passar quem realmente sou, a Martinha, como todos me conhecem.

Agradecimentos: Confraria LX