Ana Saragoça, a autora de ‘Todos os dias são meus’ em entrevista

Ana Saragoça é atriz, tradutora, autora de romances desde 2012, ano em que se estreou também como dramaturga. É desses dois textos iniciais que vamos falar hoje nesta entrevista. Mas, primeiro, uma pergunta sobre fotografia.

Ana Saragoça, porque é que se faz fotografar sempre com um livro de Émile Zola para a sua promoção profissional?

Essa fotografia faz parte do blogue de um fotógrafo, o Mário Pires. No blogue Book Loving Girls são fotografadas as mulheres com um livro que as tenha marcado. Essa fotografia é de 2011, está desatualizada mas é a fotografia que eu tenho em que melhor me reconheço. Antes do Mário Pires me fotografar, odiava ser fotografada, apesar de ter um pai fotógrafo e de gostar muito de fotografar. Mas o Mário conseguiu convencer-me e de facto, foi uma experiência transformadora. Levei o Germinal. As leituras que nos marcam são as que fazemos na juventude. Lembro-me de ter lido as Vinhas da Ira, A Leste do Paraíso,e todas essas coisas na adolescência e marcaram-me imenso. Na idade adulta é raro lermos um livro que nos atinja quase visceralmente. E foi isso que me aconteceu com o Germinal. Foi uma enorme descoberta. Eu já conhecia Zola, mas o Germinal é uma obra-prima e eu achei curioso. Decidi escolher o Germinal, para ser fotografada com ele, porque, de facto, foi uma leitura que me marcou já na idade adulta.

A visão naturalista de Zola contagia, hoje, a sua escrita?

Não tinha pensado nisso. Mas não. Eu baseio muito a minha escrita, talvez por ser atriz, na oralidade. E também talvez por não ter carro e andar sempre de transportes, baseio-me muito naquilo que ouço e gosto de apanhar os tiques das pessoas e a maneira como falam. Eu acho que o Zola tinha uma missão e era importantíssima na altura. Eu, por enquanto, não tenho. Sou uma ativista mas, na minha escrita, propriamente dita, principalmente nas últimas peças que escrevi, a minha maior preocupação, é o ideal feminista e a valorização das mulheres de meia-idade, que são um grupo etário altamente desvalorizado.

A Mãe da noiva, a peça que reescreveu, recentemente, retrata justamente essa camada etária. A peça foi escrita originalmente em 2012 para o Teatro Rápido. Este ano foi levada a palco, novamente, e é a Ana Saragoça que a interpreta. O que é que aconteceu à peça?

Essa versão inicial de quinze minutos foi escrita para a atriz Rosa Villa. Basicamente a sinopse da peça é esta: no final do banquete do casamento da sua filha, a mãe, talvez, quiçá, é empurrada por alguma coragem líquida – uma certa embriaguez, mas com uma embriaguez composta, resolve por as contas em dia com todas as pessoas que lhe passaram pela vida: a própria mãe, o ex-marido, o irmão e até a filha. Descobri que podemos dizer tudo o que quisermos em comédia porque, quem é inteligente percebe a mensagem que está por trás e quem não quer perceber é pensa que é galhofa. A peça foi muitíssimo bem recebida e houve imensas pessoas que se identificaram comigo, isto é, com a personagem.

A Mãe da noiva tem como subtítulo O Pranto da Maria Parva que é, obviamente, uma alusão à peça de Gil Vicente O pranto de Maria Parda. Que diferenças há entre estas duas personagens? Porque é que chama a personagem quinhentista para os dias de hoje?

Bom, obviamente que, a Maria Parda era uma alcoólica. Eu pus esse subtítulo porque, sinceramente, não resisto a um trocadilho, essa é a primeira coisa. A segunda é refletir sobre todas as parvoíces que nós mulheres fazemos ao longo da vida em nome daquilo que vão pensar de nós, daquilo que é esperado de nós e do que dizem e do que pensam sobre nós. Tanto os pais, como os filhos, como as pessoas que nos rodeiam e, sobretudo os homens. E quando se chega a uma certa idade percebemos que não vale a pena nada disso. Eu diria que saímos quase diretamente da adolescência para a maturidade. E a adolescência acaba muito tarde, porque continuamos com aquele espírito de “grupo” e de preocupação com os pares.

“somos muito rapidamente arrumadas na prateleira das românticas e da literatura cor-de-rosa e isso põe-me completamente furiosa.”

E essa preocupação é o ativismo de que falava há pouco, das mulheres de 50 anos?

Sim. Como atriz, noto que na ficção portuguesa, televisiva, não existem pessoas idosas. As mulheres de meia-idade são as cozinheiras, as criadas e as megeras. E temos atrizes que, ainda não têm 40 anos e já estão a fazer de mães de marmanjos e marmanjas com vinte e tal anos. Isto é um total contrassenso.

O que é que isso faz na perceção do público, no papel que deve ser atribuído às mulheres?

Pois, é o culto da juventude e o culto da beleza. Mas faz-me impressão porque é um fenómeno, unicamente, português. Se virmos a ficção espanhola ou a brasileira, que são as que estão mais perto de nós, há atrizes de todos os tamanhos e feitios e de todas as idades. Isso enriquece, de facto, a história e a narrativa e, como todas as profissões criativas, a arte de representar também se apura com a idade. Na escrita existe a mesma coisa. Há um culto que eu chamo o padrão “IPJ”.

Instituto Português da Juventude aplicado aos livros?

Exato. Porque os autores jovens são completamente reverenciados e, neste momento, não sei, se o Saramago aparecesse agora, seria muito estranho. O Saramago escreveu o primeiro romance com 60 anos e isso hoje, praticamente, não teria lógica nenhuma na ótica de uma quantidade de gente. Isto para mim não faz sentido.

As mulheres de 50, 60 anos estão a ser invisibilizadas pelos novos e tradicionais meios de comunicação social?

Talvez, não sei. O que eu acho é que sempre foram invisibilizadas e, nesse aspeto, até acho que estão a tornar mais visíveis. Porquê? Porque a esperança de vida prolongou-se. Nós, neste momento, vivemos todos até muito mais tarde, em média. Vamos lá ver se eu não saio daqui e sou atropelada… Nós aos 45 anos não somos como há um século. Não somos avós, raras de nós e, não estamos com os pés para a cova. Muito pelo contrário. Estamos, finalmente, mais autónomas em relação aos filhos e estamos muito mais disponíveis para viver.

É por isso que, em 2012, desata a escrever?

Pois, em 2012 foi um ano […] Eu comecei a escrever esse livro em 2001 e ele ficou na gaveta esses dias todos.

Porque é que ficou na gaveta?

Porque eu não tinha grande estímulo para o escrever e achava que não conseguia. Sempre li muito e quem lê muito, lê os grandes autores e pensa “não, estás doida. Não vou conseguir”

É uma espécie de reverência limitativa à literatura?

Sim. E ainda não tinha encontrado aquilo a que eu chamo: a minha própria voz. Aquilo onde queria chegar. Ter um estilo que é meu. Agora encontrei. Em 2012, uma pessoa que leu aquilo que eu tinha escrito até meio, disse-me que eu tinha de acabar o livro e procurar uma editora.

É uma questão de disponibilidade? De ter o resto das coisas arrumadas?

A disponibilidade de uma mulher para escrever é outro assunto. É complicado.

Maria Teresa Horta fala muitas vezes disso. Da impossibilidade de escrever, porque tem todas as outras tarefas domésticas da casa. Ela contava, inclusivamente, que trocou a lista das compras do talho por poema e entregou o poema ao talhante que, no final dos dias não tinha a lista das compras feita e, foi um problema para fazer o jantar. Isto passa-se na vida das escritoras?

Passa-se na vida de quase todas as escritoras. Muito poucas escritoras portuguesas podem viver da sua escrita. Talvez a Margarida Rebelo Pinto, que vende imenso, consiga viver da sua escrita. Todas nós temos que fazer outras coisas para viver. Se acrescentarmos a isso que eu sou atriz e tradutora… Sou 100% precária, 90% do meu tempo é passado a esgravatar para conseguir o sustento da casa. Como diz a Mafaldinha do Quino “o que é urgente, não dá tempo para o que é o importante”. Nós precisamos de disponibilidade para escrever mas, na verdade, passamos o tempo todo a trabalhar. Deixou de haver horários… O que se esta a passar comigo agora é que estou a gerir melhor o tempo porque os meus filhos já estão mais crescidos e porque estou separada e, portanto, é diferente. E não vou falar das tarefas domésticas porque sou uma desgraça.

É má dona de casa?

Péssima. E não tenho dinheiro para ter empregada. Mas ter de alimentar e de ter de, enfim, manter, mais ou menos, alguma normalidade na casa, leva-nos muito muito tempo.

A crítica literária, basicamente, deixou de existir e passou a ser substituída pelos blogues e pelas bloguers que (algumas delas) são praticamente analfabetas

Neste livro, Todos os dias são meus é, justamente, um livro sobre casas, sobre prédios e um condomínio. Escolhe para personagem principal uma rapariga quase desprovida de personalidade e que está morta.

Sim.

Que processo foi este de construção? Normalmente as personagens principais são os heróis.

Sim, e ela acaba por ser. A mim o que me faz sempre muita impressão é o tal “culto da beleza”. A minha personagem preferida de todas as personagens do teatro é o Cyrano de Bergerac, precisamente porque as pessoas têm coisas maravilhosas para dizer mas, o facto de não serem atrativas fisicamente não as deixa exprimir-se. Esta personagem tem o seu escape. Eu fui uma adolescência feíssima. Era só borbulhas e óculos e isso também me marcou muito e fez com que eu escrevesse muito na adolescência.

Há uma relação causa-efeito entre a vida da escritora e a relação da personagem?

Bem, essa rapariga é extremamente apagada.

E esse não é o seu caso…

Pois, não. Eu sou completamente histriónica. Somos ambas tradutoras, é um facto mas, sim, há fatores autobiográficos mas acho que todos os escritores têm bocados autobiográficos nos seus livros. Mas não, não há nenhuma correlação. Ela é talvez aquilo que eu gostaria de ser. Talvez, não sei, de preferência sem morrer.

Este livro é difícil de categorizar porque tem laivos de comédia de costumes. Parece um policial. Como é que se escreve um livro que não tem um género. O género é uma coisa importante quando se escreve? Como é o processo criativo?

Eu não tenho género nenhum, para além do feminino. Não tenho nenhumas preocupações a escrever. Há pessoas que dizem que escrever é um enorme sofrimento. Para mim é um prazer imenso. Eu quando me sento para escrever, a única coisa que eu quero é escrever alguma coisa que eu gostasse de ler. E sim, gosto que as pessoas gostem daquilo que eu faço e escrevo. Não estou a pensar no leitor mas a pensar em coisas que me agradam escrever. Não penso num género propriamente dito, tanto que agora estou mais virada para a dramatologia. Lá está, a necessidade aguça muito o engenho e, quando nos pedem coisas, muitas vezes essas coisas constituem um desafio. O ano passado, a editora Planeta Manuscrito fez uma aposta muito arriscada que foi reeditar um romance que já tinha sido editado em 2012 e que, por essa aposta eu estou eternamente grata. O ano passado, fez-me um desafio que eu, ao princípio, achei disparatado mas, ao mesmo tempo extremamente desafiante, que era escrever um livro erótico.

E está nessa empreitada, neste momento?

Não, não. O livro já esta editado mas sobre pseudónimo.

Porquê?

Não é que eu me envergonhe daquilo que escrevi, porque até devo dizer que, até agora, foi o livro mais volumoso que eu já escrevi. Normalmente, sou uma rapariguinha muito sintética mas, aquele, como tinha umas guide lines muito específicas e isso é um desafio enorme e que eu adoro, que é escrever para um objetivo. E isso ensinou-me imenso. Depois propuseram que fosse um romance de época e que se passasse nos Açores. E deu-me imenso prazer escrever esse livro.

O livro ‘Todos os dias são meus’ podia ser uma peça de teatro?

Toda a gente diz isso. Há quem fale em peça de teatro, há quem fale em filme, há quem fale em série online. Sim, acho que sim, que podia.

Tem personagens muito marcantes e uma que, todos reconhecemos mais dos anos 80 e 90, a porteira. Que mulher é esta que, supostamente, devia saber tudo das nossas vidas ou das vidas dos condóminos daquele prédio e não sabe?

Pois, a porteira era inspirada numa pessoa que morava no rés-do-chão do prédio onde eu vivia, apesar desta morar no último andar. Eu traduzo e faço legendas para a RTP, já há muitos anos. Faz 21 anos este ano. E havia um prédio, que a RTP tinha na Alameda das linhas de torres, que era o 95, chamava-se “o 95”. E era um prédio de habitação, normal e, havia sempre uma velhinha à entrada a falar com um segurança. Eu um dia, porque me enganei no andar do elevador, fui ter ao último e percebi que ela vivia a cima do último andar e era a porteira do prédio. Portanto, a porteira, em muitos prédios de Lisboa, vive no último andar, numa casa já sem acesso ao elevador. E isso fascinou-me. Depois inspirei-me numa vizinha que tive em Alcântara.

não conseguimos reunir um número significativo de mulheres para irem para a rua, lutar pelos seus direitos, porque acham que já os têm. Mas não os têm. Nós continuamos a ganhar menos do que os homens

É muito zangada e muito má-língua, esta porteira

Sim, sim. Mas era exatamente isso. Era daquelas pessoas que quando nós entramos no prédio sentimos o ralozinho da porta a abrir-se e temos uma vontade imensa de fazer uma careta ou um gesto ordinário.

Há mais personagens que todos reconhecemos: o rapaz que está temporariamente em Lisboa e que não gosta nada da cidade, divorciado que é alvo de críticas… A vontade era fazer um retrato da sociedade lisboeta?

Sim. Era um bocadinho. Eu diria que de uma sociedade urbana, embora eu nunca tenha vivido noutra cidade sem ser em Lisboa. Mas acho que tanto em Lisboa como numa grande cidade, como o Porto ou Coimbra, haverá estas pessoas.

Existirão também “cranianos”?

Sim, “cranianos” existem em todo o lado.

Estes “cranianos” afinal são moldavos.

São moldavos. Isso é uma coisa recorrente na minha escrita, não sei porquê, falo muito dos emigrantes. Acho que até agora nunca escrevi nada que não tivesse metido brasileiros, moldavos, ucranianos. Ao contrário do “broa” que se ouve aí, eu adoro esta mistura enorme que a emigração nos trouxe.

Ana Saragoça, os seus livros, as peças de teatro, o romance, têm sempre personagens femininas como personagens principais. Porquê?

Eu até agora escrevi sempre na primeira pessoa, porque calhou assim. Eu não sou muito adepta de falar com a voz de um género diferente. Um dos livros mais giros que eu li, a A casa dos budas ditosos, do João Ubaldo Ribeiro, que é um autor que eu adoro, tinha como narrador uma mulher. E eu, apesar de achar o livro muito engraçado e muito giro, nunca achei que fosse uma mulher a escrever.

Há diferenças entre a escrita das mulheres e a escrita dos homens? Ou seja, o que lhe pergunto é a eterna questão: existe literatura feminina?

Não. O que eu acho é que nós somos muito rapidamente arrumadas na prateleira das românticas e da literatura cor-de-rosa e isso põe-me completamente furiosa. O romance fundador da literatura gótica, que é O monte dos vendavais, só foi publicado porque a Charlotte Bronté o escreveu sob um pseudónimo masculino. A Mary Shelley escreveu o Frankenstein e, no entanto, as pessoas dizem “ai não, as mulheres não escrevem terror, nem escrevem fantasia”. Claro que escrevem. Aquela ideia de que as mulheres só se preocupam com folhos e com corações a bater.

As mulheres preferem esse tipo de literatura à outra?

Eu posso explicar o que é que aconteceu com o famoso Ilhas de paixão – o livro erótico que que escrevi. Foi-lhe posta uma capa com uma menina com uma saia de balão a olhar para o oceano, em vez de ser uma cena mais como As 50 sombras de Grey. E o que é que aconteceu? Assim que o livro foi lançado foi comprado, porque as leitoras de literatura romântica, devoram. Nem sei como é que conseguem ler tanto e tão depressa.

A crítica literária, basicamente, deixou de existir e passou a ser substituída pelos blogues e pelas bloguers que (algumas delas são) praticamente, analfabetas. E é delas que depende nós vendermos ou não. E as editoras mandam os livros para as bloguers. E o que aconteceu foi que eu tive várias críticas a dizer que o meu livro era uma traição àquela capa lindíssima, porque lá dentro não correspondia: tinha imenso sexo. No fundo, não é que elas não gostem de ver sexo nos romances românticos porque todos têm mas naquele registo do “ah larga-me, larga-me. Ah! Está bem, eu vou”. E neste caso não foi. Eu fiz uma heroína feminista de 1860 que ia tomar a iniciativa e fazer e romper todos os limites. E isso escandalizou de tal maneira que a editora foi insultada.

Mary Shelley escreveu o Frankenstein e, no entanto, as pessoas dizem “ai não, as mulheres não escrevem terror, nem escrevem fantasia”. Claro que escrevem.

Porque é que as mulheres têm estas expectativas para elas? Porque é que há um campo que é proibido, que não se pode entrar? Porque é que as mulheres têm tanto medo da emancipação sexual e, aqui falamos também, da literatura e da questão da idade?

Essa é uma coisa para a qual eu estou completamente disponível para explorar e que antes não estaria. Porque temos de pensar nas nossas mães, nas nossas colegas e pensamos muito nessas coisas. É complicado. Não se espera que as mulheres gostem de sexo e se gostam não se espera que digam e, não se espera que uma mulher de 50 anos, por exemplo, se interesse por tal coisa. Outra coisa: o feminismo voltou a ser um palavrão. Há muitas mulheres que dizem que não são feministas porque não são contra os homens. Uma feminista não é contra os homens. Haverá algumas, certamente, mas isso já é uma patologia.

É misandria.

A misandria sim, é oposto da misoginia. Agora, o feminismo é apenas uma luta por direitos iguais. O que eu acho é que se andou para trás nesse aspeto, especialmente nas sociedades ocidentais.

Mas o feminismo, hoje, é mais popular do que nunca…

Não sei. Quer dizer, sempre que querem gozar com alguma coisa, gozam com as Capazes.

A plataforma feminista.

Sim. E apresentam as Capazes como umas desvairadas da cabeça. Quando as Três Marias [Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta] fizeram o que fizeram, que foi escrever As Novas Cartas Portuguesas e fazer uma manifestação feminista a seguir ao 25 de Abril, em que foram agredidas, a coragem para fazer aquilo foi enorme. Neste momento penso que não conseguimos reunir um número significativo de mulheres para irem para a rua, lutar pelos seus direitos, porque acham que já os têm. Mas não os têm. Nós continuamos a ganhar menos do que os homens, no geral. E quando nós estamos a lutar por nós, estamos a lutar pelas mulheres do mundo todo. Estamos aqui as duas a falar, de cara destapada e a falar de sexo mas, isto não é normal numa grande parte do globo. É como abdicar do direito de voto, uma coisa porque tanta gente lutou e, de repente, “ah, está a chover, não vou”. É uma coisa que eu não consigo entender.

Ana Saragoça, a literatura e o teatro têm o poder de mudar o mundo?

Eu quero muito acreditar que sim. Têm o poder de mudar as pessoas, são as pessoas que mudam o mundo e eu tenho sempre imensa esperança que aquilo que eu escrevo leve as pessoas a refletir, enquanto se divertem, porque eu gosto muito de divertir as pessoas mas, que as leve a refletir sobre certas questões. E acho que sim, que uma pessoa de cada vez acabam por ser muitas pessoas. Acho eu.

Fotografia de destaque DR