As feministas de Jane Austen

Sentido crítico, autoironia, inteligência e vontade de demonstrar capacidade de decisão e de segurar o destino nas próprias mãos. Estas são algumas das caraterísticas que as personagens femininas dos romances de Jane Austen – que morreu há 200 anos – chegaram até nós.

E se hoje estas mulheres da ficção parecem quase poderem viver nos tempos modernos, a verdade é que a autora britânica, que morreu a 18 de julho de 1817, as retratou daquela forma muito antes do tempo, quando a sociedade estava longe de se orgulhar de mulheres assim e na qual vigorava o preconceito.

Nos milhares de páginas escritas por Austen, que morreu com 42 anos, estão histórias femininas que puseram o amor à frente do interesse, que venceram discrepâncias socioeconómicas pela educação e formação, que puseram os cânones e as regras em causa.

Mulheres, em alguns casos, que chegavam a ser desinibidas. Há mesmo estudiosos que a consideram “proto-feminista” pela forma como escolheu retratar as suas personagens femininas e, indo mais longe, como não julgou as que demonstravam não ter as atitudes mais condizentes com a época e o seu papel.

Elizabeth Bennet, em Orgulho e Preconceito

É uma das mais adoradas heroínas pelo público e uma das mais perfeitas criadas pela autora, segundo a própria Jane Austen. Rapariga moderna, romântica, franca e destemida, esta mulher, a segunda mais velha de cinco irmãs, era descrita como particularmente inteligente, curiosa e bonita e que sempre recusou submeter a sua vida pessoal a interesses financeiros.


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Recorde-se que Keira Knightley, na imagem de destaque, foi uma das atrizes que deu corpo a esta protagonista na sétima arte

Elinor Dashwood, em Bom Senso e Sensibilidade

Realista sobre tudo, esta heroína – que muitos dizem mal entendida para o seu tempo – era bastante clarividente relativamente à vida, bastante prática e muito séria em relação ao dinheiro. Toma, aliás, para ela as responsabilidades da família na sequência da morte do pai. Procura a independência da família e é pragmática relativamente ao romance.

Diana Parker, em Sandition

Desafiadora do conhecimento vigente, esta protagonista da obra inacabada de Austen – escrita quando esta estava a morrer – punha em causa a medicina e tratava-se com as suas mezinhas homeopáticas, feitas de ervas e chás. Há quem aponte tendências anoréticas a esta personagem cujo grande sonho era poder tomar um banho de banheira numa cabana junto ao mar com uma rapariga mestiça.

Mary Crawford, em Mansfield Park

Divertida, com um sentido de humor, interessada e carisma sexual apurado, esta atriz e tocadora de harpa surgia com uma imagem de liberdade associada.

Isabella Thorpe, em A Abadia De Northanger

Também realista, esta adolescente caprichosa e divertida demonstrava ser incapaz de se vincular a um compromisso sério.

Lady Susan Vernon, em Lady Susan

Mais do que a personagem, o curioso é que a autora não demonstre censurar uma mulher que se apresentava como sádica, má mãe, moralmente corrupta, sendo também esperta e muito bonita.

Anne Elliot, em Persuasão
Depois de um desgosto amoroso sofrido no início da idade adulta e que a separou do homem da sua vida por não pertencerem à mesma classe sócio-económica, Anne Elliot decidiu que não queria viver com este arrependimento. Durante anos refletiu e decidiu ter o destino nas suas próprias mãos e é possível encontrar cenas no livro em que esta heroína discutia romances e poesia e até política.

Imagem de destaque: DR