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Assédio sexual: a pior face do sexismo em Silicon Valley

Kara Swisher, editora executiva da Recode, Christine Herron, mentora da StartX, Dick Kramlich da New Enterprise Associates estavam convidados para a conferência Sexismo no Valley (Silicon Valley), moderado por Erin Griffith, jornalista da Wired. O debate prometia ser aceso uma vez que o tema já tinha sido lançado ontem em comunicado de imprensa: os investidores de risco inquiridos no âmbito do Web Summit afirmam que as empresas tecnológicas de Sillicon Valley não fazem o suficiente para esbater o sexismo na indústria. Mas o que entender por sexismo? A desigualdade salarial, o acesso dificultado às posições de chefia, a dificuldade de conciliação para as mulheres? Não, no debate desta tarde no Palco Central do WebSummit ficou claro que o sexismo em Sillicon Valley vai para além disso: passa pelas relações de poder e predação sobre as mulheres ou, em palavras que hoje são tristemente conhecidas, pelo assédio sexual.

Kara Swisher, que na Recode acompanhou os casos de assédio de sexual em Hollywood, com duas jornalistas que publicaram 6 notícias por dia, afirma que “em Silicon Valley os casos de assédio sexual sobre mulheres são tão comuns como os que vieram à tona com o escândalo de Harvey Weinstein.” Swisher diz que ninguém consegue dizer a dimensão certa do problema porque há acordos extrajudiciais que encobrem o casos.

Kara Swisher defende que as empresas devem ser punidas por permitirem que exista assédio sexual nos seus ambientes

Christine Herron afirmou que é natural que as mulheres assinem esses contratos uma vez que fazem a opção entre sair da empresa sem nenhuma compensação ou sair na mesma mas com o valor idêntico a seis meses de trabalho. “As mulheres foram ensinadas para calar a boca no que toca ao assédio sexual. O feedback que tenho de vítimas de assédio sexual é ‘Eu senti-me mal por ter assinado o acordo de sigilo, o meu agressor só foi transferido de cargo.’”

É por isso que Kara Swisher defende que “A única maneira de mudar as coisas é que as pessoas paguem o preço por não oferecer igualdade às mulheres. As empresas têm que pagar o preço pelas más decisões das suas pessoas.” Há outros instrumentos de pressão para que os comportamentos indevidos sejam eliminados, nomeadamente a cobertura jornalística. A editora executiva do Recode diz estar numa posição que lhe permite amplificar estes casos e refere “só veio agora à tona porque nós [a imprensa] encobrimos durante anos. A coisa ótima de estar à frente se um site é que sou responsável pelo site.” A par da direção feminina do site, ter duas jornalistas que também já passaram pelo assédio, que sentem empatia pelas vítimas, faz a diferença numa cobertura inovadora de um fenómeno com séculos de existência.

Dick Kramlich da New Enterprise Associates também alinha do discurso da punição monetária para as empresas que permitem que o assédio aconteça nas suas instalações. Diz ter acordado para o tema quando a filha lhe explicou o que teve de suportar nas empresas onde trabalhou, mesmo hoje sendo a número 15 da estrutura em que trabalha. “Pagar pelos danos feitos, essa é a minha posição. A minha filha tem que aturar muita coisa. Muitas pessoas tiveram que aturar muitas coisas. E não pode ser assim, as empresas têm de ser punidas.”

Christine Herron, mentora da StartX,, apoia legalmente as mulheres vítimas de assédio sexual

O assédio é uma questão só de mulheres?

Kara Swisher volta a carga para dizer que um bom ambiente de trabalho, sem pressões sexuais é melhor para todos: “Os bons homens não fazem isto no local de trabalho. E os bons homens que eu conheço não sabiam que isto existe. Esta é também a vida deles, também lixa a vida aos bons homens. As mulheres precisam de pedir ajuda às pessoas, colegas masculinos incluídos.”

Para prevenir situações de assédio sexual, tanto Swisher como Herron defendem que as empresas tenham políticas transparentes sobre este assunto como têm sobre a família ou o apoio na saúde. “No local de trabalho não mantenham relações amorosas, as empresa devem publicar regras, devia haver uma tolerância zero em relação a envolvimentos no local de trabalho. Se colegas quiserem namorar fora do local de trabalho tudo bem. Dentro não.” Com a tolerância zero para com comportamentos amorosos, Swisher defende que se torna mais fácil distinguir as situações de assédio.