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Assédio: chega de culparmos as vítimas

Poucas coisas são tão traumáticas como o assédio e, noutra escala, o abuso sexual e a violação. Ainda assim, e apesar de reconhecermos que a natureza destes atos é do foro criminal, somos muitos a culpar as vítimas, seja porque “estavam a pedi-las” ou porque “podiam ter-se vindo embora”. Vem isto a propósito do caso de Harvey Weinstein, poderoso produtor de Hollywood, acusado, ao dia de hoje, por cerca de 30 atrizes, desses mesmos crimes. É a queda de mais um predador, mais um homem influente que, durante anos, se aproveitou da vulnerabilidade de jovens mulheres, abusando do seu poder.

Weinstein assumiu os crimes, fez o mea culpa da praxe e está em tratamento para sua suposta adição sexual, numa instituição que não anda longe das comodidades de um hotel de 5 estrelas. Dir-se-á que o tempo passa, as pessoas esquecem e o grande produtor voltará, como no passado, a dar vida a grandes filmes.

E as vítimas? Ficarão sozinhas, caladas, a lidar com a podridão deixada pelo que viveram, à qual se junta a dúvida que todos nós, por palavras ou por falta delas, aportamos a um contexto, já de si, trágico.

Elas calam-se, também, porque acham que não as queremos ouvir; nós não falamos porque não queremos que a sua vulnerabilidade nos lembre do quão frágeis também somos. No fundo, somos todos muito #jesuis desde que lá longe. A dor de quem está perto convoca a certeza de que também nós, um dia, podemos ser aquela pessoa que hoje tenta lidar com as consequências do que lhe foi imposto, à força e com violência.

Esta mentalidade new age criou pequenos bullies, pessoas que não choram e que desprezam as fragilidades dos outros. Temos um calendário mental que nos diz que, por cada tristeza, há um número aceitável de dias (ou horas) para chorar. Depois disso, é “levantar a cabeça” ou “olhar em frente”, que é o vernáculo destes robots armados em fortes.

O silêncio não cura, mói mais

Este desrespeito pelo sofrimento das vítimas, este modo como achamos que todos temos de recuperar num tempo que se quer curto, faz com que perpetuemos o abuso. Ao não deixarmos que a vítima seja vítima – que chore, que grite, que fique triste, que deprima – somos, também nós, abusadores. À luz da psicologia, entende-se esta recusa. Recusamos ser vítimas porque preferimos achar que somos invencíveis, que nada nos deita abaixo, mas isto é também o que nos leva achar que uma mulher continuamente abusada podia ter evitado ou saído desse contexto, ou que uma mulher violada, de algum modo, o permitiu. Ou que as pessoas vítimas de racismo, homofobia, sexismo, assédio sexual, contribuíram para isso. Ou, pior, que elas tinham uma escolha e que decidiram continuar a ser violadas, abusadas, agredidas, tiradas da paz que todos merecemos. Nem sempre a coragem e a determinação fazem com que consigamos deixar de ser agredidos. Não há escolha na violação, não há escolha no abuso, não há escolha quando se é uma vítima. Quem pode escolher são as pessoas à sua volta, não as forçando a uma aparente normalidade que, em toda a probabilidade, não voltarão a ter. As recuperações instantâneas só existem no lugar que reservamos ao medo que temos que nos aconteça o mesmo.

Ignorar as vítimas, não validando aquilo pelo que passaram e o peso com o qual terão de viver, é o rastilho para o maior de todos os pesos: a culpa, uma emoção tão vil, tão insidiosa e tão mentirosa, que, na maioria dos casos, fica colada para sempre.

Por isso, chega de culparmos as vítimas. Elas têm o direito a não serem duplamente humilhadas e nós temos a obrigação, enquanto seres humanos, a mostrar-lhes empatia, compaixão e bondade.

Sílvia Batista