A mulher que vai defender o homem que as mulheres mais odeiam

A advogada Blair Berk [Fotografia: Reuters]

É advogada, tem 54 anos, e, por ser “feminista”, Blair Berk prepara-se, “com orgulho”, para defender o produtor norte-americano Harvey Weinstein, o homem que as mulheres mais odeiam. Isto porque ele enfrenta a justiça após múltiplas denúncias – recentes e antigas – de assédio e agressão sexual por parte da atrizes de Hollywood.

O produtor, de 66 anos, apresentou-se à justiça e saiu, recentemente, sob fiança, mas nada que atemorize esta mulher, mãe de uma rapariga de 17 anos, e que é conhecida por defender as estrelas de Hollywood, sobretudo em casos que acabam por envolver atitudes e ações sob a influência do álcool. Mas já lá vamos.

Numa rara entrevista concedida esta semana ao diário israelita Haaretz, Blair Berk assumiu-se como “feminista e orgulhosa” do que está “a fazer”: “como mulher e como advogada criminal“. “É mais importante defender alguém, cumprir a Constituição, do que ser popular“, referiu.

Estas “ações não são violações”

“Estamos a lidar com termos como assédio sexual e falamos de comportamentos inapropriados, mas não discutimos [os termos] porque é complicado“, referiu na mesma entrevista, na qual nunca evocou casos concretos. Neste momento, Weinstein terá pela frente cerca de 80 denúncias, segundo o The Hollywood Reporter.

“A verdade é que não devíamos ter alguém com demasiado poder num local de trabalho, permitindo-lhe, por exemplo, ser vulgar ou assentar a sua mão sobre quem não está interessado, mas é importante não associar isto a violação“, distinguiu Berk numa entrevista em que teceu críticas duras à forma como os media e o público trataram as alegações feitas por mulheres célebres. Recorde, em todo o caso, as denúncias feitas pelas atrizes Salma Hayek e Asia Argento.

Judite Sousa: “Claro que não existe assédio nenhum”

Para a advogada de Los Angeles – que se juntou à equipa de defesa de Weinstein logo após as primeiras notícias, em outubro do ano passado – não há dúvida: “As ações não são violações. Também não têm natureza criminosa. São ações que precisam de ser discutidas, mas não são necessariamente atos que requerem incriminação.”

Para Berk, as denúncias chegam de mulheres que se envolveram com homens poderosos porque “lhes poderia oferecer o que queriam: uma promoção ou um Globo de Ouro“.

Algo que a advogada – que tem representado celebridades como, entre tantas, Mel Gibson, Leonardo di Caprio, Cameron Diaz, Lindsay Lohan, Queen Latifah e Sylvester Stallone – distingue de crime.

“Quando vemos manchetes com uma bela atriz a acusar alguém, ninguém presta a devida atenção ao que ela realmente está a dizer, mesmo que as acusações não referenciem violação ou assédio sexual. Mesmo que diga que alguém a desrespeitou ou lhe tocou de uma forma que a fez sentir desconfortável ou fez um comentário inadequado. Todos esses atos são errados, mas não são crimes. Este padrão incomoda-me”, afirmou.

E prosseguiu: “Acredito que uma das coisas perigosas sobre o que está a acontecer passa pelo facto de estarmos a tratar as mulheres como crianças. Estamos a infantilizá-las. É algo que, como feministas, não queremos fazer, que é afirmar que uma mulher não tem a capacidade de escolher.

#MeToo “tem potencial”, mas “foi longe de mais”

Existe um grande potencial que advém do movimento #MeToo, de se focar particularmente no assédio sexual e abuso de poder que muitas vezes existe no local de trabalho, especialmente para as mulheres em empregos de baixa remuneração e que têm muito menos escolhas“, alertou Berk à publicação.

No entanto, a causídica considerou que o movimento #MeToo tinha ido longe de mais. “Esta é uma conversa que, para mim, é importante que tenha lugar, explicou a advogada.

É que, entendeu ela, nem tudo veio por bem. “O movimento chegou a par de um slogan terrível que veicula a menagem ‘Acreditem nas Mulheres’, como se houvesse um sexo que, por definição, só fala a verdade“, considerou, distinguindo: “Há mulheres que fazem acusações verdadeiras, há mulheres com falsas e outras que exageram o contacto que tiveram com alguém. Qualquer coisa que, na realidade, fosse um toque desagradável é agora visto como um crime “, analisou Berk.

Portanto, para a advogada, é preciso ser “cauteloso”. E vai mais longe: “Especialmente neste momento, quando há tanto desejo de apagar alguém da história com base em alegações. Tenho clientes cujos obituários estão a ser escritos enquanto falamos, e estes incluirão acusações não comprovadas, serão as últimas coisas escritas sobre as suas vidas. Isso deixa-me muito desconfortável.”

Das acusações de álcool às agressões sexuais

Mãe de uma rapariga de 17 anos e casada desde 1996 com o argumentista e produtor de cinema Daniel Berk, Blair, de 54 anos, é filha de pais judeus, advogados. Com muitos amigos em Israel, são frequentes as temporadas que passa no território, não sendo, por isso, de estranhar que aquela rara entrevista tenha sido concedida a um diário israelita.

Berk, nascida em maio e 1964, natural de Fayetteville, Carolina do Norte, e com o nome completo de Anne Blair Bernholz, licenciou-se na Universidade de Harvard, tendo-se especializado em Direito Criminal.

Tem uma lista de clientes vasta reunida ao longo de três décadas de trabalho, que têm a particularidade de serem bastante conhecidos do grande público. Foi ela quem defendeu, por exemplo, Mel Gibson quando o ator, em 2006, fez uma declaração antissemita a um polícia, após ter sido apanhado a conduzir bêbado.

Mas certo é que a eventual proximidade da sua agenda e dos seus arquivos ao Passeio da Fama pode não ser desapropriada. Berk já representou estrelas como as atrizes Cameron Diaz, Lindsay Lohan e Queen Latifah (por condução sob o efeito de álcool, e perdeu a causa), bem como Paul Reubens, Ozzy Osbourne, Reese Witherspoon, Halle Berry, Tracy Morgan, Tracy Gold, Kiefer Sutherland e Heather Locklear.

Atticus Finch – célebre à sua maneira – é o seu herói de juventude. Falamos de um personagem ficcional da obra de Harper Lee, Mataram a Cotovia, e que pretende ser a voz da moralidade a da razão.

Em novembro de 2017, um mês depois de se juntar à equipa de defesa do produtor norte-americano, Blair considerava, em declarações ao The Hollywood Reporter: “Pode ser muito aterrorizante ser acusado de alguma coisa e ter de se defender enquanto o mundo inteiro assiste.”

Imagem de destaque: Reuters

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